Reportagem

Jornalista israelense implora atenção a Gaza: ‘200 crianças morreram após o cessar-fogo’

Gideon Levy critica Netanyahu e discorda que Israel seja "a única democracia do Oriente Médio" e que as IDF sejam "o exército mais moral do mundo"

por João Pedro Bitencourt
09/08/2026 às 18:03 · Atualizado há 1 mês
Gideon Levy falou exclusivamente com o Amado Mundo (reprodução)

A guerra em Gaza matou mais jornalistas do que qualquer outro conflito recente, e o israelense Gideon Levy, de 73 anos, colunista do Haaretz desde 1988, soma a isso outro tipo de desgaste: as críticas e os ataques que recebe de dentro da própria sociedade israelense por seu trabalho.

Leia também: Gideon Levy, jornalista israelense crítico de Israel, vem ao Brasil para encontros e conversas

Em entrevista ao Amado Mundo, ele minimizou o próprio desconforto. Levy encara a raiva alheia quase como um indício: fica feliz com as pessoas que sentem raiva dele, porque, segundo ele, isso mostra que, no fundo da mente dessas pessoas, algo diz que talvez elas estejam erradas.

“Antes de mais nada, eles têm todo o direito de me criticar. Desde que não seja violento, tudo bem para mim. Eu consigo conviver com isso. Já estou acostumado, faz tantos anos. Não espero que todo mundo concorde comigo”, disse ao Amado Mundo. “Eu realmente não sou o problema. O problema é o povo palestino. O problema é Gaza, não eu. Minha vida está bem.”

Levy conversou com a coluna na Livraria Platô, em Brasília, onde liderou um debate sobre seu livro “O Massacre de Gaza: Relatos de uma Catástrofe”. Atuando como jornalista, ele venceu o Prêmio Sokolov, o mais importante do jornalismo israelense, em 2021, e é uma das poucas vozes dentro da imprensa do país a criticar sistematicamente a ocupação israelense nos territórios palestinos. Banido da TV israelense desde o início da guerra, mantém no Haaretz, um dos jornais mais tradicionais e influentes de Israel, a coluna semanal que o tornou conhecido internacionalmente.

Na entrevista, ele insistiu que falar sobre Gaza não é exercício retórico. Para ele, o discurso já não é suficiente. “É algo muito urgente. Pessoas estão morrendo diariamente, pessoas inocentes, crianças. Duzentas crianças foram mortas desde o cessar-fogo”, disse Levy. “Alguém tem que parar isso. E como parar? Eu não sei. Mas sei que é preciso mais do que palavras — mais protesto, mais solidariedade, qualquer coisa que você tiver em mente. Mas você tem que fazer.”

Boicote e apoio dos EUA

Levy apoia o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) desde o primeiro dia em que o movimento existe, mas ponderou que é difícil medir seu sucesso, já que Israel está vendendo mais tecnologia militar do que em qualquer outro momento do passado. Inclusive, segundo ele, para países que passaram a comprar drones e outras tecnologias israelenses depois da guerra em Gaza.

Sobre os Estados Unidos, afirmou que o apoio recebido por Israel ao longo de décadas foi incondicional a ponto de o país ignorar avisos, conselhos e decisões do próprio governo americano, inclusive sobre os assentamentos. Segundo ele, isso se manteve mesmo sob presidentes democratas considerados liberais, caso de Barack Obama e Joe Biden, que forneceram armas a Israel apesar de discordarem publicamente da política de assentamentos.

Levy aposta que o próximo presidente americano, seja republicano ou democrata, porá fim a esse tipo de relação e cita como sinal dessa mudança a recente visita de Netanyahu aos Estados Unidos, quando o premiê teria entrado na Casa Branca sem se reunir com nenhuma liderança judaica.

Antissemitismo e antissionismo

Levy também comentou a confusão entre antissemitismo e antissionismo, e as acusações recebidas por quem defende a palavra de ordem “Palestina livre”. Para ele, o sionismo carrega uma dimensão de supremacia.

Para o jornalista, não é possível separar o debate sobre o passado da discussão sobre o futuro do conflito: é necessário conhecer a história e entender as raízes da situação atual para fazer uma correção. Essa compreensão, segundo ele, é o que permite evitar a repetição de tragédias.

“As pessoas sempre tendem a achar que o 7 de Outubro aconteceu do nada, de repente. Não. Isso tem um contexto, e temos que entender esse contexto para evitar que aconteça de novo no futuro. Não queremos outro 7 de Outubro. Não queremos outro genocídio. Então temos que fazer as duas coisas. Não precisamos escolher entre passado e futuro. É uma coisa só: passado, futuro e presente”, defendeu Levy.

Apesar de criticar a atuação de seu país, Gideon Levy não legitima os ataques praticados pelo Hamas em 7 de outubro. Para ele, é necessário reconhecer que crimes ilegais foram cometidos naquele dia. “Nenhuma lei internacional permite esse tipo de massacre de civis. Nenhuma.” Ao mesmo tempo, ressaltou que o direito internacional permite resistência à ocupação contra exércitos, mas não o que aconteceu no 7 de Outubro.

Diante de uma pergunta da plateia que insinuava teorias da conspiração sobre Israel ter permitido o ataque acontecer, Levy pediu cautela. “Acho que precisamos ficar longe das teorias da conspiração, a realidade já é dura o suficiente”, disse. Para ele, admitir a gravidade e a ilegalidade do ataque de 7 de outubro, em vez de recorrer a exagero e teorias sem provas, fortalece a luta pelos direitos palestinos.

Para Levy, a ideia original do sionismo, de salvar o povo judeu do nazismo e permitir a criação de um Estado judeu, era legítima, mas foi conduzida de forma ilegal desde o início. Segundo ele, o sionismo, na prática que se consolidou, passou a significar a supremacia de uma população sobre a outra dentro do mesmo sistema, entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo.

O jornalista rebateu duas frases recorrentes na propaganda israelense: a de que Israel é “a única democracia do Oriente Médio” e a de que as Forças de Defesa de Israel são “o exército mais moral do mundo”. “É um imenso sucesso da propaganda israelense”, ironizou. “Entre o rio e o mar, vivem cerca de 50 milhões de pessoas, todas sob domínio israelense. Metade delas não tem direitos nem recursos.”

Eleições de outubro em Israel

Levy acredita que Binyamin Netanyahu dificilmente conseguirá formar maioria para se manter no poder nas eleições gerais marcadas para outubro em Israel. Para ele, a oposição conseguirá formar um governo melhor em muitos campos — no combate à corrupção, no sistema jurídico e na democracia para os judeus.

No entanto, segundo Levy, mesmo que a oposição vença, nenhum dos possíveis sucessores de Netanyahu jamais se opôs à guerra. Nenhum deles sequer reconhece que houve um genocídio em Gaza, termo hoje associado ao primeiro-ministro, alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. “Em qualquer democracia que eu conheça, eles seriam rotulados como neonazistas, e não poderiam servir como ministros em nenhum país do mundo hoje”, afirmou.

Ele reconhece que a situação piorou sob o governo atual, que classifica como “o mais fascista” da história de Israel, mas pondera que o problema é mais amplo. “Se você repara que a oposição não condenou nem o genocídio em Gaza, nem a ocupação do Líbano, nem a guerra, você percebe que, na prática, não existe oposição em Israel.”

Sobre os efeitos de uma eventual troca de governo na relação com os Estados Unidos, Levy pondera que pode haver um relacionamento um pouco melhor, mas que a percepção internacional já mudou de figura: “Acho que os Estados Unidos, e talvez o mundo, estão começando a entender que não é uma questão de um primeiro-ministro ou outro. É uma política contínua de qualquer governo em Israel. Por isso, não vai mudar muito.”

Levy no Brasil

Levy passou por São Paulo entre os dias 3 e 5 de agosto e esteve em Brasília, na Livraria Platô, na quinta-feira (6/8). Teve agendas em Niterói (UFF) e no Rio de Janeiro, na Livraria Leonardo da Vinci, ambas na sexta-feira (7/8).

Em suas agendas, Levy apresenta sua obra, “O Massacre de Gaza: Relatos de uma Catástrofe”, que reúne 102 artigos escritos entre 2014 e 2026 sobre as ações de Israel e a situação do povo palestino. Ele também apresenta sua visão sobre o conflito.

PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade