O problema éramos nós? Jorge Jesus recusou o Brasil antes de assumir a seleção de Portugal
Ídolo do Flamengo, Jorge Jesus disse 'não' ao Brasil duas vezes antes de aceitar o primeiro trabalho da carreira em uma seleção

Jorge Jesus foi anunciado nesta sexta-feira (10) como o novo treinador da seleção portuguesa, substituindo o espanhol Roberto Martínez após a eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, quando Portugal caiu diante da Espanha por 1 a 0. O contrato do português vai até 2030: em seu caminho estão a Copa do Mundo de 2030 (que será sediada em Portugal, Espanha e Marrocos), a Eurocopa de 2028 e a Nations League, com estreia marcada para 24 de setembro, contra o País de Gales.
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Mas esse não é o primeiro convite de peso que Jorge Jesus recebeu para comandar uma seleção. Antes de aceitar Portugal, ele já tinha dito “não” — duas vezes — para a Seleção Brasileira.
Jorge Jesus: 2 recusas, 1 arrependimento
Em julho de 2025, ao ser apresentado como técnico do Al-Nassr, JJ admitiu ter recusado uma proposta da CBF enquanto ainda estava no comando do Al-Hilal.
“Errei por não ter aceitado o projeto da Seleção do Brasil. Não quis ir para a seleção do Brasil porque estava de corpo e alma no Al-Hilal”, disse o treinador enquanto embarcava saindo de Portugal.
Um mês depois, em entrevista ao canal português Canal 11, ele detalhou melhor o episódio: representantes brasileiros teriam ido a Lisboa duas vezes tentar levá-lo à Seleção, mas ele recusou porque estava, segundo suas palavras, “apaixonado” pelo projeto que tinha na cabeça — chegar à final da Champions League e ao Mundial de Clubes pelo Al-Hilal.
As primeiras palavras de Jorge Jesus. 🎙️🇵🇹 #ViemosParaVencer pic.twitter.com/yKiP0fa5pe
— Portugal (@selecaoportugal) July 10, 2026
Essas sondagens teriam ocorrido no período em que a CBF avaliava substitutos para Dorival Júnior, demitido em março de 2025 após maus resultados. Foi só depois de Jesus recusar que a entidade avançou para a contratação de Carlo Ancelotti, então técnico do Real Madrid. Ou seja: o cargo que hoje pertence a Ancelotti já tinha sido oferecido, antes, ao mesmo Jorge Jesus que hoje estreia como selecionador em Portugal.
Sem menosprezar o italiano, vale destacar que, diferentemente de Ancelotti, JJ já tinha o coração de parte dos brasileiros. O português comandou o Flamengo entre 2019 e 2020, período que os torcedores rubro-negros ainda chamam de “era de ouro”, e conquistou a Copa Libertadores e Brasileirão, com uma forma de jogar que mudou a referência técnica do clube.
Quase 40 anos sem comandar uma seleção
O fato de Jesus nunca ter treinado uma seleção até hoje não é trivial. O português soma quase 40 anos de carreira e cerca de 1.500 partidas à frente de 16 clubes diferentes — a maioria em Portugal, mas também no Brasil, na Turquia e na Arábia Saudita — sem nunca antes ter aceitado esse tipo de desafio. Seus antecessores recentes no comando de Portugal — Fernando Santos e Roberto Martínez — já haviam dirigido outras seleções (Grécia e Bélgica, respectivamente) antes de chegar à equipe portuguesa — o que torna a nomeação de JJ uma escolha atípica dentro do próprio histórico da federação.
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Diante disso, há uma pergunta prática que surge na cabeça do torcedor: Jorge Jesus é conhecido por um estilo de trabalho baseado em treino de campo diário e acompanhamento minucioso de detalhes táticos — rotina possível em clubes, mas incompatível com o calendário de uma seleção, que reúne o elenco só por poucos dias a cada convocação. Como o técnico vai adaptar esse método ao novo cargo é algo que só o próprio ciclo vai responder.
CR7, personagem coadjuvante
Na entrevista de apresentação desta sexta-feira, JJ também tratou de um segundo fio importante da nova gestão: o futuro de Cristiano Ronaldo na seleção. O atacante, criticado pelo desempenho na Copa do Mundo sob o comando de Martínez, ainda não decidiu se vai continuar defendendo Portugal — ele próprio já afirmou que o Mundial de 2026 foi seu último.
Apresentado como novo técnico de Portugal nesta sexta-feira, Jorge Jesus foi imediatamente perguntado sobre a relação com Cristiano Ronaldo, astro da equipe.
— ge (@geglobo) July 10, 2026
Ao responder, o treinador citou o trabalho no Al-Hilal, quando precisou dizer a Neymar que não havia mais condições de… pic.twitter.com/m4nPWnOxZl
O novo treinador foi direto ao garantir que vai seguir convocando Cristiano enquanto o camisa 7 estiver em condição de jogo, “dentro de certos limites e nas condições que eu considerar melhores para a seleção”. Disse ainda não ter conversado com o atacante sobre o assunto, mas que os dois vão discutir o futuro em breve — e não poupou elogios: chamou CR7 de “símbolo do futebol português” e de um jogador que “para sempre estará nos livros de história”.
A proximidade entre os dois vem do período recente no Al-Nassr, onde trabalharam juntos até maio, quando Jesus deixou o clube saudita após conquistar o título nacional. Segundo o próprio técnico, Ronaldo já teria dito mais de uma vez que pretende encerrar a carreira justamente por lá, no Al-Nassr.
A passagem pelo Brasil
Não é exagero dizer que Jorge Jesus se tornou um dos maiores ídolos estrangeiros da história recente do futebol brasileiro por conta do Flamengo — o tipo de carinho que normalmente não sobrevive à saída do técnico, mas que, no caso de JJ, só cresceu com o tempo e as declarações públicas de saudade.
Sua relação com o clube nunca deixou de gerar expectativa de volta. Livre no mercado após deixar o Al-Nassr, da Arábia Saudita, em maio, Jesus chegou a acompanhar de perto uma vitória do Rubro-Negro carioca sobre o Coritiba, reencontrando jogadores com quem havia trabalhado no Maracanã — e reacendendo, mais uma vez, o sonho de um retorno entre a torcida.
Quem comemorou a escolha foi Leonardo Jardim, atual técnico do Flamengo e amigo pessoal de Jesus. Após vitória do Fla sobre o Lausanne-Sport em amistoso na Europa, Jardim defendeu publicamente que Portugal precisava de um comandante português (em uma crítica indireta à gestão anterior de Roberto Martínez) e destacou a trajetória do amigo como justificativa para a oportunidade. A fala de um técnico do Flamengo endossando a chegada de outro ex-técnico do Flamengo à seleção portuguesa é, em si, um símbolo de como as duas histórias — a do clube carioca e a da seleção europeia — seguem entrelaçadas mesmo à distância.
JORGE JESUS É O NOVO TÉCNICO DE PORTUGAL, MAS HOUVE UM TEMPO EM QUE… 🔴⚫🔙#CopaNaCazéTV #CoberturaCazéTV #cztv04 #cztv05 #Original #JorgeJesus #Flamengo pic.twitter.com/0kV4Q7hCjV
— CazéTV (@CazeTVOficial) July 10, 2026