Reportagem

Copa do Mundo atuou como cortina de fumaça para o ICE nos Estados Unidos

Duas mortes, uma ofensiva silenciosa de detenções e um minuto de silêncio ignorado: como o ICE trabalhou ao longo da Copa do Mundo de 2026

por Eduarda Farias
22/07/2026 às 05:59 · Atualizado há 3 meses
Ice Copa Estados Unidos Trump
Protestos anti-ICE ocuparam as ruas de Nova York após a morte de Lorenzo e Juan (Selcuk Acar/Anadolu via AFP)

A Espanha ergueu a taça da Copa do Mundo no MetLife Stadium, o presidente Donald Trump foi vaiado ao entrar em campo e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, teve dificuldade para tirar o mandatário norte-americano de perto do troféu. Fora das quatro linhas, o saldo do primeiro Mundial nos Estados Unidos sob o segundo governo Trump não se resume à decisão contra a Argentina: são pelo menos dois imigrantes mortos por agentes federais, um pedido de minuto de silêncio ignorado e a confirmação, pela própria cúpula do ICE, a polícia anti-imigração dos EUA, de que a agência nunca teve intenção de dar trégua.

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Meses antes de a bola rolar, o temor era generalizado. Torcedores relatavam medo de ir a jogos nos Estados Unidos, países com seleções classificadas (Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim) enfrentavam veto de visto a seus torcedores, e movimentos de boicote ganhavam força na Europa. A pergunta que ficava era: o ICE realmente seguiria agindo, mesmo durante um evento que a Fifa vendia como celebração da união entre nações? A resposta, ao fim do torneio, foi afirmativa.

Nenhuma trégua, apesar dos pedidos

Ainda em fevereiro, quando parlamentares tentavam arrancar um compromisso público de recuo, o diretor interino do ICE, Todd Lyons, foi direto ao ponto perante o Congresso americano: a agência seria parte central do aparato de segurança do Mundial.

Ele não descartou nem mesmo operações nas imediações dos jogos. A deputada democrata Nellie Pou, cujo distrito abriga o MetLife Stadium, chegou a propor a Save the World Cup Act, projeto que baniria a fiscalização civil de imigração num raio de 1 milha (1,6 km) de estádios e festivais oficiais da Copa. A proposta, apresentada em março junto de outros dois projetos similares, nunca teve força para avançar num Congresso de maioria republicana.

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Em Miami, o secretário de Estado, Marco Rubio, garantiu informalmente à comissão organizadora local que o ICE não estaria presente nos estádios da cidade, mas a promessa nunca virou política, e ativistas de imigração já alertavam em maio que uma declaração pessoal não substitui uma moratória oficial. O alerta se justificaria nas semanas seguintes.

Duas mortes em uma semana

O ponto mais grave da atuação do ICE durante o torneio não aconteceu dentro de um estádio, mas nas ruas de uma cidade-sede. Em 7 de julho, durante a fase eliminatória, o mexicano Lorenzo Salgado Araujo, pedreiro, morador de Houston havia 35 anos e pai de três cidadãos americanos, foi morto a tiros por um agente do ICE que abordava seu veículo.

A versão oficial do Departamento de Segurança Interna (DHS) afirma que Salgado tentou atropelar o agente; testemunhas e a família contestam essa versão, e o legista do condado de Harris classificou a morte como homicídio — qualificação técnica, não necessariamente criminal. Os agentes envolvidos não usavam câmeras corporais; o DHS atribuiu a ausência a atrasos orçamentários.

Seis dias depois, em 13 de julho, o colombiano Johan Sebastián Durán Guerrero, de 25 anos, entregador de aplicativo e pai de uma menina de 3 anos, foi baleado por agentes do ICE em Biddeford, no Maine, durante uma tentativa de abordagem de trânsito ligada a um mandado do qual ele não era o alvo. Também não tinha antecedentes criminais.

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As duas mortes, que são a 10ª e 11ª mortes por tiros da polícia imigratória americana, levaram a senadora Susan Collins, do Maine, a anunciar que o DHS concordara em suspender temporariamente paradas de trânsito consideradas “não urgentes”. A pausa durou pouco. Dois dias depois, Trump publicou em sua rede social que não abriria mão das blitze de trânsito, chamando a suspensão de concessão à “esquerda radical”. As operações seguiram.

Detenções em ritmo dobrado

O aumento de agressividade não ficou restrito aos dois casos com morte. O “The New York Times” obteve documentos que revelaram que o ICE deteve mais de 10 mil pessoas entre 27 de junho e 1º de julho — praticamente o dobro da média diária registrada no início do ano.

A ordem partiu da própria cúpula da agência, que fixou a meta de 2 mil prisões por dia e determinou que 80% do efetivo fosse direcionado a operações de detenção, com supervisores acompanhando de perto o cumprimento das metas. Os arquivos mostram que o pico aconteceu em um único sábado, com cerca de 2.400 prisões, elevando a população sob custódia do ICE a mais de 63 mil pessoas.

Diferentemente do ano anterior, quando o ICE anunciava operações com antecedência em cidades como Chicago e Los Angeles, a nova fase foi conduzida sem alarde — uma orientação do secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, após a repercussão negativa de uma operação de um mês em Minneapolis que terminou com dois cidadãos americanos mortos. Uma porta-voz do DHS resumiu a lógica por trás do endurecimento: “Nós o encontraremos, prenderemos e deportaremos”.

Casos concretos levantados pelo Times mostram como esse aumento atingiu diretamente o público que também acompanhava a Copa. Em Utah, o mexicano Arturo, de 48 anos, foi detido quando seguia para uma partida de futebol num domingo; a mulher relatou à reportagem que o filho de 13 anos do casal ficou traumatizado com a prisão do pai. No Texas, uma freira nigeriana foi presa a caminho da igreja e só liberada após mobilização de parlamentares. Segundo advogados de imigração ouvidos pelo jornal, o efeito sobre as comunidades imigrantes foi imediato: mais medo de sair de casa, de dirigir, de ir ao mercado.

ICE Copa Trump Infantino
Gianni Infantino e Donald Trump na final da Copa do Mundo (White House Gallery)

O pedido que não foi atendido

Às vésperas da final, a Human Rights Watch pediu à Fifa um minuto de silêncio em memória de Salgado Araujo e Durán Guerrero antes da partida no MetLife Stadium, a menos de 15 km de um centro de detenção do ICE, como lembrou a diretora de iniciativas globais da entidade, Minky Worden, em entrevista à AFP. Ela também criticou o prêmio da paz que Infantino concedera a Trump meses antes, argumentando que serviu para encobrir os abusos da política migratória do governo contra imigrantes e suas famílias.

A Fifa ignorou o pedido. Na cerimônia da final, quem ocupou o centro das atenções foi o próprio Trump: entrou em campo sob vaias, participou da entrega de troféus e permaneceu no palco durante a comemoração espanhola, até Infantino conduzi-lo discretamente para fora da trajetória do canhão de confete dourado.

A imagem resume o contraste do torneio: de um lado, o pedido de um gesto simbólico por vidas perdidas; do outro, a manutenção do protagonismo político do presidente americano no evento que a Fifa insistia em descrever como inclusivo.

Passados os dias de torneio, a atuação do ICE durante a Copa do Mundo de 2026 não foi uma hipótese equivocada nem um exagero de ativistas: foi confirmada publicamente pela própria agência antes do primeiro apito e sustentada até a última semana de competição. Apesar de a preocupação com as detenções em volta de estádios e fan fests não refletir com expressividade nos noticiários, a Copa serviu seu propósito para o presidente americano. Foi o “pão e circo” que mascarou um crescimento estatístico na violência e no medo.

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