‘IA ornamental’ em empresas não ajuda a aumentar produtividade, alerta ex-conselheiro da Anatel
Advogado Artur Coimbra defendeu a necessidade de se escapar da IA 'ornamental', que não eleva produtividade de pequenas e médias empresas

A discussão sobre a estruturação de mercados de inteligência artificial em economias emergentes vai de encontro ao desafio de fazer com que a implementação dessas tecnologias se traduza em aumento real de produtividade. O desafio é escapar da chamada “IA ornamental”, argumentou o advogado e ex-conselheiro diretor da Anatel Artur Coimbra.
Para Coimbra, o uso de forma pouco efetiva e estratégica de ferramentas de IA pelas pequenas e médias empresas acaba resultando em um “paradoxo de produtividade”, uma vez que a aplicação dessas tecnologias pode até ser vistosa, mas não resulta na melhora do processo produtivo.
“Cerca de 90% das grandes empresas brasileiras têm algum tipo de tecnologia digital avançada. Para as empresas menores, você tem uma digitalização de três quartos, mas, quando você compara isso com o aumento da produtividade medida pelo Ibre, de 0,4% ou 0,5% em 2025, essa tecnologia toda parece que não está virando produtividade. E isso acontece porque, muitas vezes, a inteligência artificial é aplicada em ambientes que não são estruturais para o processo produtivo”, explicou.
Coimbra foi um dos painelistas da mesa “Estruturando mercados de IA em economias emergentes: dados, PMEs e adoção produtiva na economia digital” no Brasília Tech Summit, maior evento de economia e regulação digital do país, promovido pelo Amado Mundo nesta quinta-feira (28).
Leia mais: Relator da IA e do Redata defende ‘lei viva’ para tecnologia e fala de ‘timing’ para data centers
A IA ornamental
Durante o debate, ele reforçou que a aplicação dessas tecnologias com focos exclusivos em áreas como gestão e comercialização não se reverte em ganho de renda. “Você não está revendo a maneira de fazer o produto nem diminuindo o tempo ou economizando recursos, mas está utilizando isso para alguma coisa que a gente brinca chamando de uma ‘inteligência artificial ornamental’, que não é produtiva”, complementou.
O ex-conselheiro da Anatel defendeu que a aplicação de tecnologias de IA em produtividade seria transformada em renda, e poderia ser atingida caso houvesse um foco, dentro das pequenas e médias empresas, na otimização de etapas rotineiras do processo produtivo. “É focar, muito objetivamente, em qual a decisão repetida que eu tô tomando na minha gestão que eu consigo deixar 20% mais barata, mais rápida ou mais precisa. São soluções muito pontuais e focadas. Se trata de planejamento e de previsibilidade”, finalizou.
Preocupação com regulação
O economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura & Soluções Ambientais da instituição, manifestou preocupação sobre o impacto de uma possível “regulação excessiva” na concorrência. Ele relembrou que o Brasil tem uma tendência a realizar uma regulação “inflada”, inclusive com a criação de uma “pletora” de agências reguladoras.
O professor defendeu a convergência de toda a regulação para algo centralizado e que tenha foco somente no fomento da competitividade e em evitar o abuso de poder econômico.
“A experiência australiana é muito interessante, por reunir toda a regulação em uma única agência, com foco em minimalismo, competição e concorrência. As tecnologias mudam, os setores mudam, as fronteiras dos mercados relevantes são alteradas com novas tecnologias. A gente deveria pensar, no médio prazo e com a devida calma, em uma convergência de toda a regulação em uma coisa única que pense só em duas coisas, competição e evitar abuso de poder econômico”, explicou.
Digitalização do Estado
O deputado Júlio Lopes (Progressistas-RJ) defendeu, durante o painel, a importância da transição de iniciativas estatais do analógico para o digital como principal motor para destravar mercados privados, especialmente na saúde. Ele destacou a transição dos 360 milhões de cadastros físicos do SUS para o digital, com a adoção do CPF como número único.
“O Ministério da Saúde está erradicando 360 milhões de cadastros do SUS. Com uma população de 215 milhões de brasileiros, temos o SUS, que é o maior e melhor sistema de saúde pública do mundo, com o cadastro de 360 milhões de brasileiros. Por óbvio, ninguém monitora nada, ninguém acompanha nada, ninguém rastreia nada. Então, depois de muita luta da nossa parte, o ministro Padilha fez um processo, e esse mês está erradicando o cadastro do SUS e fazendo do CPF o número único da saúde brasileira”, contou.
“Cada um de vocês vai ter uma identidade médica única e, a partir daí, vai poder avaliar o serviço que lhes foi prestado, se vocês receberam o remédio que foi encomendado, e vão poder avaliar e criticar a ação governamental, seja do estado, município ou da União que lhe foi prestado”, reforçou.