Às vésperas do começo oficial da campanha, Heloísa Helena não poupa nem Lula nem Marina
"Idolatria acima de plano de governo" e "não adianta ninguém posar de santo ou santa, porque não é", diz Heloísa Helena, após seis meses como deputada federal

A suspensão, por seis meses, do mandato do deputado Glauber Braga (PSol-RJ) — que expulsou da Câmara a empurrões e chutes o então membro do Movimento Brasil Livre (MBL) Gabriel Costenaro, em abril de 2024 — permitiu o retorno da ex-senadora Heloísa Helena (Rede-RJ) ao Congresso Nacional depois de 18 anos. Ela é a primeira suplente da federação formada entre os dois partidos.
Nesse retorno, mostrou que as quase duas décadas longe do parlamento não amansaram a postura quase incendiária pela qual costumava ser reconhecida. Além da força verbal, a enfermeira e professora alagoana, que se transferiu para o Rio de Janeiro para seguir a vida pública, mostrou, no mandato temporário na Câmara, que segue uma máquina legislativa. Apresentou 74 projetos, nos pouco mais de quatro meses efetivos de mandato. Agora, com Glauber de volta ao mandato, Heloísa Helena já está em pré-campanha para deputada federal.
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Em entrevista ao Amado Mundo, Heloísa Helena deu mostras da verve implacável ainda intacta. Ao comentar o racha na Rede Sustentabilidade, que tem em lados opostos o grupo liderado por ela e o ligado à ex-ministra do Meio Ambiente (também ex-senadora, também ex-petista) Marina Silva, não resistiu a espicaçar a (ex?) aliada: “Nenhum partido é o altar dos ungidos. Não adianta ninguém posar de santo ou santa, porque não é”.
Heloísa Helena x Lula
Heloísa Helena não esconde a mágoa que guarda do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores. Expulsa da legenda em 2003, primeiro ano do primeiro mandato do presidente, por divergências políticas com o partido em torno da reforma previdenciária da época, ela hoje usa a fila do INSS para criticar o novamente presidente da República.
“Tem muitas pessoas que se contentam com a idolatria política e, inclusive, nem aceitam fazer o debate programático. Eu digo sempre, quando eu olho para a fila de 3 milhões de pessoas do INSS, e famílias pobres, desesperadas, perdendo o acesso a direitos duramente conquistados, eu não acho isso normal”, declara Heloísa Helena. “Eu não caracterizo os horrores na negligência e responsabilidade governamental apenas quando meus adversários lá estão. Tenho repugnância de moralismo farisaico, que condena no adversário o que acoberta no aliado.”
Confira os principais trechos da entrevista:
Como foi para a senhora esse retorno ao Congresso Nacional?
Eu trabalhei muito. Principalmente na parte de fiscalização, monitoramento e controle, que é uma área que eu sempre estudei muito sobre, que são os chamados observatórios de execução orçamentária. São áreas que eu acompanho mais, que impactam diretamente na vida das pessoas com maior vulnerabilidade econômica, social.
Teve algo que para mim foi muito positivo, que foi ouvir muitas pessoas do Brasil todo, desde pessoas que estavam nas varas de infância até gente que anda na internet, que vivencia situações de dificuldade de acesso em relação às políticas sociais. E nós conseguimos viabilizar vários projetos, apresentamos 72, que foram muito debatidos.
Como foi esse processo de reunir assinaturas para a CPMI do Master? E quais as projeções para a CPMI?
De todos os lados tinham pessoas obstaculizando. Pessoas do governo, da direita, então foi muito difícil, mas nós conseguimos essas assinaturas, tanto no Senado quanto na Câmara. Assinaram o nosso requerimento pessoas de esquerda, de direita, liberais, comunistas, né?
Claro que cada um dos lados do plenário da Câmara se movimentava conforme os fatos que eram apresentados pelo jornalismo investigativo. Quando pegava alguém vinculado ao governo, o governo recuava e não assinava. Quando pegava alguém da direita, aí o governo avançava para assinar e a direita recuava. Esse jogo de cena muito sórdido da idolatria política no congresso, mas nós conseguimos as assinaturas.
Como está a situação na Rede após o racha que se deu com o grupo da ex-ministra Marina Silva?
Eu só sei de uma coisa: estou de consciência absolutamente tranquila de que fiz tudo para reduzir problemas e para garantir a estrutura da Rede. Nenhum partido é o altar dos ungidos. Não adianta ninguém posar de santo ou santa, porque não é. Nós somos militantes. Eu sou uma pessoa dura, mas eu não sou uma pessoa cínica.
Tudo que eu tiver que falar, eu falo com as pessoas, então eu tenho consciência tranquila de que agi nos debates internos com a mais absoluta transparência. Agora, esse assunto tem que ser discutido com Paulo Lamac, que é o presidente do partido e quem estava na autoridade de fazer todos os debates. E vida que segue. Já tenho angústias suficientes na vida.
Mas será que existe uma possibilidade de reunião do partido em torno de pautas comuns, ainda mais neste ano de eleição?
Vai ter que ter, né? Primeiro, porque a Rede está trabalhando a estruturação dos eixos que nós consideramos importantes, e aí eu digo nós coletivamente. Todos os agrupamentos internos da Rede, como todos os partidos têm. Nós estamos estruturando o que chamamos de eixos estratégicos para programas, nos estados, para as candidaturas. E isso vai ter que ser discutido coletivamente.
Nós sabemos que, com certeza, voltaríamos à clandestinidade política, se não estivéssemos na federação. Isso é fato e é humildade obrigatória reconhecer. E a gente vai continuar.
Como a senhora vê a disputa presidencial deste ano?
A análise que eu faço é a de que tem mais idolatria política do que debate programático e projeto de nação. Por isso que eu tenho insistido para que nós estejamos construindo pontos programáticos para debater nos estados e nacionalmente, entendeu? Tem muitas pessoas que se contentam com a idolatria política e, inclusive, nem aceitam fazer o debate programático. Eu digo sempre que, quando eu olho para a fila de 3 milhões de pessoas do INSS, e famílias pobres, desesperadas, perdendo o acesso a direitos duramente conquistados, não acho normal.
Eu não caracterizo os horrores da negligência e responsabilidade governamental apenas quando meus adversários lá estão. Tenho repugnância de moralismo farisaico, que condena no adversário o que acoberta no aliado. Não gosto disso, não me dou o direito de fazê-lo. Para nós, o mais importante é fazermos o debate duro do ponto de vista programático, dos avanços que têm que ser consolidados antes de discutirmos quem será o candidato apoiado pela Rede. É o que se espera de um partido.
Há quem prefira a idolatria política e a vassalagem, que acha que beijar a mão de governante é suficiente. Não é o que temos que fazer. Nós estamos num país com imensas dificuldades e temos que apresentar proposições que possam reduzir a vulnerabilidade econômica, ambiental e social das populações mais pobres, porque são elas que mais sofrem e sofrem muito, todos os dias.
Mas a gente vai continuar trabalhando. Eu sou pré-candidata a deputada federal e vou trabalhar como sempre, conversando com as pessoas, assumindo compromissos só naquilo que realmente eu possa fazer. As pessoas já me conhecem, sabem meus defeitos e minhas virtudes, também todo mundo já sabe como eu sou. Não gosto de cinismo, de simulações. Eu não estou lá para fazer amigos, eu estou lá para lutar pelo que eu acredito.