Reportagem

Gravidez na adolescência: livro debate o tema em meio a disputas políticas

Livro-reportagem 'Nem cresci e já sou mãe', da jornalista Joyce Ribeiro, reúne relatos chocantes sobre gravidez na adolescência

por Luiza Barufi
03/06/2026 às 18:16 · Atualizado há 4 meses
Foto: Divulgação

Na mesma semana em que o Senado acelera medidas que dificultam o aborto legal em crianças vítimas de estupro, o livro-reportagem “Nem cresci e já sou mãe: relatos sobre gravidez na adolescência” (Geração Editorial) chega às livrarias para dar rosto a essa estatística. Entre os relatos mais chocantes da obra da jornalista Joyce Ribeiro está o de uma menina de 11 anos que chegou ao hospital em trabalho de parto sem saber da gravidez: “Gritava pela mãe”. As histórias de Gabriela, Evellyn e Soninha resumem o futuro interrompido de centenas de adolescentes que se tornam mães todos os dias no Brasil.

Em um cenário em que a moralidade frequentemente atropela as garantias fundamentais, a obra da jornalista Joyce Ribeiro — fruto de uma pesquisa apoiada pela ONG Plan International — joga luz sobre as falhas do Estado e os silêncios familiares que cercam a maternidade precoce.

Retratos de uma realidade invisibilizada

O livro traz histórias de meninas de diferentes espaços. Gabriela engravidou no mês em que completou 15 anos. Jéssica usava anticoncepcional, mas esquecia de tomar. Evellyn foi expulsa de casa pelo pai quando contou a notícia. Soninha Francine tinha informação de sobra, cresceu com uma mãe feminista e estudou em colégio de freiras que ensinava métodos contraceptivos, e, ainda assim, engravidou aos 15.

Histórias diversas com um fio em comum: nenhuma delas estava preparada. E todas existem em um país onde, a cada hora, 48 bebês nascem de mães adolescentes. Os números são contundentes: sete em cada dez são negras, e seis em cada dez não estudam nem trabalham.

Um dos relatos mais perturbadores da obra vem da obstetra Larissa Cassiano, que recorda o parto de uma menina de 11 anos que chegou ao pronto-socorro sem saber da gestação: “Foi uma violência do menino, da família, da sociedade, de todo mundo que estava perto dela, de ninguém ter visto; e ela ali em trabalho de parto gritando pela mãe”.

O impacto nas trajetórias e a barreira moral

Com mais de 25 anos de trajetória na televisão, Joyce Ribeiro explica, em entrevista, que a lentidão na queda dos indicadores e o impacto profundo na autonomia das jovens a motivaram a escrever a obra:

“O acesso à informação e ao debate sobre o tema hoje é muito maior, mas, quando a gravidez acontece, a luta pela independência e autonomia encontra dificuldades muitas vezes irreversíveis para meninas que se tornam mães muito jovens. Elas acumulam traumas, agressões, violências e desilusões, o que aumenta os obstáculos para a construção de um futuro diferente”.

A autora aponta que as barreiras para enfrentar o problema de forma eficaz passam pelo forte viés moral e religioso que impregna as instituições e as famílias brasileiras.

“A moralidade frequentemente domina o debate e antecede questões práticas que poderiam levar a orientações de saúde mais efetivas. Esse viés moral afasta famílias do debate real e enfraquece a proteção de meninas e meninos que iniciam a vida sexual. O medo do julgamento, o receio sobre ‘o que os outros vão pensar?’… tudo isso bloqueia conversas sinceras e abre espaço para decisões equivocadas, escondidas e perigosas, sustentadas por preconceitos.”

Redes de apoio e a inclusão dos meninos

Embora o Brasil tenha avançado na redução da fecundidade na faixa dos 15 aos 19 anos, a redução entre meninas de 10 a 14 anos segue em ritmo alarmantemente lento, o que escancara a gravidade da violência sexual no país. Para as que enfrentam a gestação, a evasão escolar surge como uma das consequências mais devastadoras. A escritora ressalta que o suporte familiar quase sempre recai sobre as mulheres (mães, avós e bisavós), mas inova ao trazer a perspectiva dos jovens pais para o debate:

“Quando um casal adolescente é surpreendido por uma gravidez não planejada, o menino muitas vezes fica tão perdido quanto a menina. Frequentemente repetem-se comportamentos observados desde a infância, que responsabilizam apenas a mulher pela contracepção e atribuem a ela o peso solitário da educação dos filhos. Orientar, conversar, ensinar, ouvir as dúvidas e evitar julgamentos são práticas que também devem ser dirigidas aos meninos.”

Ao conectar a urgência das políticas públicas com o momento político do país, “Nem cresci e já sou mãe” se consolida não como um manual de respostas prontas, mas como uma ferramenta urgente de conscientização. Como define a própria autora ao avaliar sua imersão no tema:

“Saio desta imersão com um olhar mais amoroso e protetor, especialmente em relação às nossas meninas. Hoje busco uma percepção mais ampla sobre as mudanças urgentes que a nossa sociedade precisa. (…) Vejo que essa continua sendo uma luta das mulheres e que ainda estamos muito longe do ideal. Torço para que reportagens futuras retratem um cenário mais maduro e desenvolvido na luta pela proteção de meninas e meninos.”

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