‘Gonzaguinha’ é um ótimo documentário que ninguém vai ver
Longa sobre o cantor e compositor recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado

Premiado como melhor documentário no recente Festival de Gramado, “Gonzaguinha – Da maior liberdade” chegou, nesta quinta (3/9), aos cinemas de apenas doze cidades (São Paulo, Campinas, Santos, Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Fortaleza, Maceió, Florianópolis e Londrina). Sem comparar, mas já comparando, “Minha melhor amiga”, comédia nacional estrelada por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães estreou, no mesmo dia, em 1531 salas em 436 cidades. É uma pena que registro precioso tenha sido recebido tão friamente pelo circuito exibidor e, como eu aponto no título, ninguém (ou quase ninguém) terá a oportunidade de ver.
Gonzaguinha por Gonzaguinha
Susanna Lira, especialista em documentários e diretora de títulos como “Torre das donzelas” e “Fernanda Young – Foge-me ao controle” revisita a obra e a vida política de Gonzaguinha (1945-1991), um compositor e cantor que sempre admirei e escuto até hoje. A primeira qualidade é que Susanna foge do lugar-comum comandando o documentário sem precisar entrevistar personalidades, amigos ou parentes. É apenas Gonzaguinha por Gonzaguinha, uma linha de documentário que não é novidade, mas é sempre um desafio. No cinema nacional, por exemplo, me lembro do estupendo “Titãs – A vida até parece uma festa” (2008), dirigido pelo “titã” Branco Mello.
Nesse documentário em primeira pessoa, a cineasta foi atrás de entrevistas que Gonzaguinha concedeu ao longo da carreira, abreviada, precocemente, por um acidente de carro. Há também raras imagens de shows. A que mais me chamou a atenção foi a do cantor interrompendo sua apresentação, em 30 de abril de 1981, véspera do Dia do Trabalhador, para avisar que uma bomba havia explodido no estacionamento do Riocentro. Ainda era época da ditadura e Gonzaguinha nunca escondeu sua veia esquerdista. Muito pelo contrário. Ele era o oposto do pai, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, conservador e aliado aos ideais do regime militar.
Leia a entrevista: O casamento de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli em ‘Minha melhor amiga’
Outra qualidade de “Gonzaguinha – Da maior liberdade” é marcar muito bem os dois Gonzaguinhas que existiam em Luiz Gonzaga Jr. No início da carreira, na década de 70, ele vivia de canções políticas, ganhou o apelido de “cantor rancor” e era considerado antipático – e suas músicas foram muito censuradas à época. Já nos anos 80, virou o preferido das estrelas da MPB: Bethânia gravou os sucessos “Grito de alerta” e “Explode coração”, Gal engatou com “Muito por demais”, Elis preferiu “Redescobrir” e Simone arrancou aplausos com “Sangrando”. Foi, sem dúvida, o melhor período de sua carreira que, menos carrancudo, aliava canções de amor sem deixar de lado o contexto político.
Faltaram canções eternas como “Grito de Alerta” e “Sangrando”
Mas faço também ressalvas ao trabalho de Susanna, que tem 51 anos de idade e tinha 4 anos quando Gonzaguinha lançou, talvez, seu melhor disco, “Gonzaguinha da vida”, que tinha faixas-hits como “Explode coração”, “Com a perna no mundo” e “Diga lá, coração”. Eu amei que, no documentário, as músicas tocam (quase) na íntegra, mas, para meu ouvido de fã, faltaram canções eternas que não podiam ficar de fora, como “Grito de alerta”, “Sangrando”, “Lindo lago do amor” e “Começaria tudo outra vez”.
Também faltou mostrar a ligação de Gonzaguinha com As Frenéticas, o conjunto de seis amigas que explodiu com “Dancin’ days”, em 1978. Companheiro de Sandra Pêra, que era integrante do grupo e com quem teve uma filha, Gonzaguinha compôs dois hits para elas, “A felicidade bate à sua porta” e “O preto que satisfaz”, tema de abertura da novela da Globo “Feijão maravilha”. Como “Gonzaguinha – Da maior liberdade” tem só 78 minutos, daria para esticá-lo e, assim, ficar mais completo.
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