Reportagem

Flip 2026: José Henrique Bortoluci lança ‘Geração democracia’ e debate o Brasil real

Na casa Brasil de Histórias, escritor analisa o cansaço político atual e o emagrecimento das visões de futuro do país

por Luiza Barufi
21/07/2026 às 06:00 · Atualizado há 3 meses
José Henrique Bortoluci e a capa do livro Geração democracia
O sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci lança “Geração democracia” na Flip 2026; autor participará de debate na Casa Brasil de Histórias (Divulgação/Montagem)

A reabertura política do Brasil, após duas décadas de ditadura militar, trouxe com ela a promessa de um país fraterno e de oportunidades iguais. Quarenta anos depois, o que restou dessa promessa na pele de quem nasceu junto com a Nova República? É essa investigação que o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci traz para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com o lançamento do livro “Geração democracia” (editora Fósforo).

O debate ganhará corpo e voz na Casa Brasil de Histórias — espaço inaugurado pelo Amado Mundo, a Janela Livraria e a editora mapa lab na Pousada Porto Imperial, com patrocínio da Sigma Lithium e parceria com a Audible. Ali, nesta sexta-feira (24), às 15h, Bortoluci integrará a mesa “A força da reportagem na democracia”, ao lado do colunista do jornal “O Globo” Bernardo de Mello Franco, sob mediação de Kátia Brembatti. O encontro propõe uma reflexão viva sobre como o jornalismo de opinião, a investigação sociológica e a não ficção literária se fundem para documentar um Brasil real, desigual e em constante disputa.

De ‘O que é meu’ a ‘Geração democracia’

Doutor em sociologia pela Universidade de Michigan, pesquisador e professor, José Henrique Bortoluci impressionou o mercado editorial com sua estreia em “O que é meu” (2023) — obra traduzida para 12 idiomas que narra a história de seu pai, um caminhoneiro, cruzando o país profundo. Se no primeiro livro o ponto de partida foi uma escala íntima e familiar, em “Geração democracia” o autor amplia a lente sem perder o fio condutor.

“O ‘Geração democracia’, de certa forma, afasta-se do primeiro pela ampliação da lente, mas guarda continuidade em vários outros aspectos. A principal ligação é o material de trabalho: construo essas narrativas a partir de entrevistas profundas com homens e mulheres comuns, pessoas da classe trabalhadora que estão longe dos holofotes públicos”, explica o autor.

O próprio escritor se coloca sob o microscópio nesta nova obra. “Minha história e meu modo de ver o mundo estão muito presentes, sobretudo no primeiro e no último ensaio. Eu sou um dos nove personagens retratados. Por tocar em dimensões da minha vida privada que não haviam aparecido em ‘O que é meu’, vejo mais continuidade do que distanciamento entre os dois projetos, que funcionam quase como uma sequência.”

‘Geração democracia’: quem são os personagens reais

‘Geração democracia’ funciona como uma sociobiografia coletiva, um panorama fragmentado onde as trajetórias de personagens reais desafiam leituras teóricas simplistas. O livro coloca em diálogo figuras que parecem habitar brasis distantes: uma cabo da Polícia Militar e doutora em serviço social que se equilibra entre os ensinamentos de Paulo Freire e a rigidez da caserna; um missionário evangélico egresso do crime que prega em bailes funk; um jovem cantor sertanejo em busca de fama nas redes; e uma arquiteta militante marcada pelas Jornadas de Junho de 2013.

Como define a historiadora Ynaê Lopes dos Santos no prefácio, a obra é um esforço para “escutar, em meio aos escombros do presente, as vozes que ainda insistem em expandir os limites daquilo que podemos chamar de democracia”.

A análise sociológica e o tratamento literário

“Passei cada vez menos a pensar nas fronteiras entre o que é análise sociológica e o que é tratamento literário”, afirma o autor sobre transitar entre o rigor da academia e a sensibilidade da prosa. Bortoluci defende que os limites entre os gêneros devem ter fluidez.

“Gosto que essas fronteiras sejam porosas, e não estou sozinho nisso. Muitos trabalhos contemporâneos transitam entre a filosofia, as ciências sociais e o tratamento literário. Com o tempo, essas abordagens se aproximaram muito na minha escrita. Isso se materializa na forma como procuro e entrevisto os personagens, buscando costurar a voz de cada relato de vida com os grandes dilemas e transformações da sociedade brasileira.”

O cansaço e a melancolia política

Ao analisar o Brasil contemporâneo, o autor identifica que não há um sentimento único na geração de 80, mas aponta para sintomas coletivos nítidos.

“O cansaço é um afeto político muito importante nesta geração. Ele está muito associado a uma sensação de impossibilidade de ação e de falta de potência. É o que chamo de melancolia política: uma incapacidade de enxergar caminhos claros para conquistar avanços que estejam à altura das promessas da nossa transição democrática e da própria Constituição.”

Bortoluci destrincha o termo: “Continuamos imaginando o que o Brasil poderia ser, mas esses projetos se realizam de forma muito limitada, precária e cheia de obstáculos, deixando imensas parcelas da população para trás, excluídas dos benefícios do progresso”.

Surpreender-se com o Brasil em vez de dar respostas prontas

O livro foge de teses pré-concebidas. O desejo fundamental do escritor foi construir pontes que rompessem as bolhas intelectuais da própria esquerda progressista.

“Minha intenção foi mostrar que os grupos universitários progressistas, dos quais faço parte, têm uma visão limitada sobre como narrar esses 40 anos de democracia. Um caminho para ampliar essa perspectiva é dialogar com pessoas de outros lugares sociais. Para quem vem de uma trajetória de leituras teóricas, é enriquecedor se colocar na escuta de um trabalhador na Amazônia com pouca escolaridade formal, ou de uma policial militar progressista que observa a corporação por dentro e por fora.”

O autor revela que se deu o benefício da dúvida. “Eu quis me permitir surpreender com o Brasil e romper com visões que já estão petrificadas. O objetivo é menos dar respostas prontas sobre o país e mais ampliar os ângulos de visão sobre os nossos problemas.”

Diálogo e pluralidade: o debate sobre o futuro do Brasil

A presença de Bortoluci na casa Brasil de Histórias amarra o propósito do espaço: entender o livro e a escrita como ferramentas de intervenção no debate público.

“A vida pública se beneficia de uma ecologia de linguagens. O jornalismo, a não ficção, o ensaísmo dos periódicos e as artes são fundamentais para nos questionarmos, o tempo todo, sobre essa construção coletiva chamada Brasil. Precisamos de uma disseminação de narrativas que nos permitam vislumbrar possibilidades de futuro. O cenário de fake news e o uso de inteligência artificial para distorcer o debate provam o valor indispensável do jornalismo profissional, mas ele não exclui essas outras linguagens que oxigenam nossa visão coletiva.”

Contra o imediatismo das redes e das telas que anulam nossa capacidade de planejar o amanhã, o autor conclui: “É difícil imaginar cenários de futuro quando estamos tão absorvidos pela necessidade de acumular capital, de expor nossa imagem como produto ou embasbacados pelos aparelhos brilhantes nas mãos. A imaginação é uma resistência a essa imediatez e, como um jardim, ela exige cuidado”.

As expectativas para os debates na Flip

Para o autor, Paraty é o cenário ideal para testar essas ideias, especialmente em um momento que antecede eleições cruciais e expõe o enfraquecimento dos projetos de longo prazo.

“A Flip é um espaço privilegiado para sentir o termômetro dos debates intelectuais e sociais. Eu gostaria de ver discussões profundas sobre a produção cultural brasileira, com diversidade de lentes, sem repetir fórmulas prontas sacralizadas pelo mercado. É uma oportunidade de discutir o Brasil em um momento em que sofremos com um enorme déficit de projetos de futuro.”

Ele conclui fazendo um convite à descentralização do pensamento: “Espero que a Flip ajude a reconhecer que o cultivo de diagnósticos e imaginações de país também está acontecendo em vários outros lugares do Brasil, muitas vezes com muito menos holofote. O livro é um convite para entender que existe muita criatividade e elaboração política surgindo a partir de realidades sociais muito diversas”.

Casa Brasil de Histórias

A Casa Brasil de Histórias nasce para estreitar os laços entre a literatura, o jornalismo e o pensamento crítico, propondo debates urgentes sobre democracia, segurança pública, direitos, crise climática, cidades, comunicação e economia.

  • Onde: Pousada Porto Imperial (Rua Ten. Francisco Antônio, s/n. Centro Histórico, Paraty/RJ)
  • Entrada franca: As mesas são 100% gratuitas, sem necessidade de inscrição prévia. A entrada é feita por ordem de chegada e sujeita à lotação do espaço.
  • Transmissão online: Quem não estiver em Paraty poderá acompanhar às mesas selecionadas com transmissão ao vivo pelo canal oficial do Amado Mundo no YouTube. A programação das transmissões e os links serão divulgados no Instagram @amado.mundo.
  • Confira aqui a Programação completa da casa Brasil de Histórias

PLAYLISTS