Flip 2026: Paloma Vidal lança ‘O lado de lá’, romance sobre infância, classe e violência
Radicada no Brasil, a escritora argentina Paloma Vidal lança “O lado de lá” e debate literatura, classe e afeto em mesa na Casa Caixa de Histórias

A chegada da infância e o desejo de pertencimento costumam vir acompanhados pela promessa do afeto. Décadas após as grandes fraturas políticas da América Latina, o que restou dessa promessa sob a perspectiva de quem observa a elite do lado de fora das grades de uma casa de veraneio? É essa investigação que a escritora, tradutora e professora argentina Paloma Vidal traz para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com o lançamento do romance “O lado de lá” (Bazar do Tempo).
O debate ganhará corpo e voz na Casa Caixa de Histórias — uma realização do Amado Mundo em parceria com a Janela Livraria e o mapa lab no centro histórico de Paraty. Ali, neste sábado (25/7), às 18h, Paloma integrará a mesa “Mapas afetivos”, ao lado das autoras Camila Perlingeiro e Julia Wahmann, sob mediação de Claudia Lamego.
O encontro propõe uma reflexão viva sobre como a ficção de tom teatral, a memória do deslocamento e a literatura contemporânea se fundem para cartografar um Brasil de ilusões, abismos de classe e tensões sociais em permanente disputa.
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O enredo: do fascínio ao abismo social em Punta del Este
Em uma mansão de veraneio em Punta del Este, uma menina uruguaia vive nos fundos da propriedade onde a tia trabalha como empregada doméstica. Enquanto observa de longe o luxo dos proprietários brasileiros, a garota passa os dias ao lado de uma piscina preta e hipnótica, fantasiando sobre um Brasil de novelas, verões eternos e praias infinitas.
O romance, que já circulou na Argentina, no Chile e na Espanha sob o título “La Banda Oriental”, ganha agora sua primeira edição brasileira em tradução da própria autora. Com uma linguagem concisa e estruturada em dois atos, a obra combina crítica social, tensão psicológica e a atmosfera do teatro do absurdo de Beckett para construir uma sátira mordaz da elite e das desigualdades latino-americanas.
O livro traz elogios expressivos da crítica literária. A escritora Tatiana Salem Levy destaca que a autora “constrói uma sátira da nossa elite que toca, com delicadeza, os lados obscuros da existência”. Já a poeta e tradutora argentina Laura Wittner pontua que, na obra, “lutam e dançam as consciências, os pontos de vista, as classes, os idiomas. O romance nos magnetiza e não nos solta”.
Paloma Vidal: o desvio da língua materna
Nascida em Buenos Aires em 1975 e vinda para o Brasil aos 2 anos com os pais exilados da ditadura militar argentina, Paloma encontrou no espanhol um “desvio” necessário para produzir distanciamento crítico em relação ao país onde vive.
Tradutora de nomes como Clarice Lispector, César Aira e Sylvia Molloy, a escritora explica em entrevista ao Amado Mundo que a autotradução não é um processo simples em sua trajetória.
“Traduzi o livro ‘Mais ao sul’, que escrevi primeiro em português, para o espanhol. Naquela ocasião, não tinha sido uma experiência fácil e eu disse a mim mesma que, em princípio, não era algo que queria fazer de novo. A sensação que eu tinha era de que o espanhol nunca seria meu idioma de escrita, que meu ‘eu’ de escritora era em português, como uma língua de base. Inclusive fiquei achando que mudar de idioma me fazia sentir uma instabilidade que me assustava, como se eu fosse perder algo que eu tinha conquistado, uma língua minha, um jeito de escrever.”
No entanto, as exigências narrativas de “O lado de lá” impuseram a escolha do castelhano como ferramenta de corte e contenção.
“Para isso precisei assumir minhas limitações, maiores das que em geral tenho no português. E acabei achando que foi justamente por causa dessas limitações assumidas que foi possível que o livro existisse. Diante das muitas dificuldades que as questões do livro me impunham, trabalhar com uma língua limitada me fez ter que repensar tudo. E é difícil saber o que veio antes, se a menina e o cachorro como protagonistas ou essa língua econômica que acabou sendo a do livro. As coisas afinal estiveram muito ligadas.”
A transição final para o português funcionou quase como um diálogo com a alteridade.
“A tradução ao português foi como se estivesse trabalhando com o texto de outra pessoa, até porque há uma distância temporal significativa entre a escrita em espanhol e a tradução para o português. Mas seja como for, tanto em espanhol quanto em português, trata-se de um livro em que há a infiltração da outra língua de maneira muito forte, pela própria história que é contada, que eu queria que unisse essas duas línguas, que as colocasse em tensão, que forçasse quem lê a pensar nessa relação, que implica relações históricas, políticas, culturais.”
“Desde o início, o livro foi pensado entre duas línguas: o espanhol e o português, a língua da casa e a língua dos que estão à margem dela. Precisei desse desvio, dessa distância, para chegar perto da menina e do cachorro, para chegar num humor, numa ironia, que talvez eu não conseguisse diretamente em português. Muitas vezes ouvi que sou outra pessoa quando falo em espanhol. Então agora foi como me aproximar do livro de uma outra pessoa, para colocá-lo em português, e fazer essa história chegar no Brasil.”
Sul Global: o dispositivo cênico contra o discurso panfletário
Ideado inicialmente em 2013 — um momento histórico de fortes inflexões políticas e sociais no Brasil —, o romance levou anos para encontrar sua forma final. Para escapar do tom panfletário, Paloma recorreu a um dispositivo próximo à dramaturgia, no qual as ações e a fisicalidade do cenário se sobrepõem à intimidade do narrador.
“O livro começou a ser pensado em 2013. Isso, retrospectivamente, já diz muito em relação ao nosso contexto político. Eu me sentia num campo minado quando pensava sobre as questões que queria tratar. Sentia que as ferramentas que eu tinha não eram suficientes ou adequadas. Foi principalmente no teatro, e em conversas com pessoas que fazem teatro, que eu comecei a entender que precisava me descolar da interioridade e da intimidade que sempre foram muito importantes para mim, e pensar mais no cenário, nas ações, nas falas, para poder conseguir escrever.”
Para alcançar o deslocamento necessário e sair de sua zona de conforto autobiográfica, a autora buscou suporte em autores que trabalham o insólito e a fissura social através da ironia.
“Antes de escrever dei muitas voltas, pensei em várias formas, pensei em vários narradores, mas uma coisa era certa: não queria que fosse eu a narrar, ‘eu’ no sentido de uma persona que mais ou menos atravessa quase todos os meus livros. Era um livro sobre outro mundo, mas como fazer isso sem ser injusta, sem pedir desculpas, sem achar que não devia estar escrevendo isso? É claro que é meu olhar, mas como ele passa pela menina e pelo cachorro, alguma coisa efetivamente se desloca.”
“Houve muitas leituras: Puig, Aira, Copi, para ficar nos argentinos. Esses autores fazem coisas incríveis com essas fissuras políticas e sociais, são muito corajosos, não abrem mão do humor, e eu fui atrás disso. Mas foi uma viagem muito acompanhada por amigas do teatro, como Cynthia Edul e Gabriela Lírio. Sem isso acho que não teria andado.”
O afeto como mapa: a literatura frente à saturação dos discursos
Na mesa Mapas afetivos, Paloma Vidal dividirá o debate com as autoras Camila Perlingeiro e Julia Wahmann, sob mediação de Claudia Lamego. Questionada sobre como a literatura pode decifrar as contradições do Brasil contemporâneo sem recair em fórmulas prontas, a escritora defende a complexidade dos afetos em vez das certezas explicativas.“Para mim, pelo menos, o Brasil não é mapeável nem decifrável. Nunca teria essa pretensão. O livro trabalha justamente com os afetos: com sentimentos de exclusão, de fascinação, de indignação. São sentimentos muito complexos, para os quais precisamos de palavras que muitas vezes não são as palavras explicativas dos nossos argumentos já saturados.”