Reportagem

Névoa tóxica nos EUA: fumaça de incêndios ameaça pulmões de atletas na final da Copa

Pneumologista explica como o ar insalubre agride os alvéolos, acelera a fadiga e pode comprometer o rendimento de jogadores na decisão

por Luiza Barufi
17/07/2026 às 20:23 · Atualizado há 3 meses
Fumaça - Nova Jersey, Nova York, Final da Copa
Vista do convés de um ferryboat de Staten Island, com o skyline de Nova Jersey ao fundo tomada pela fumaça de incêndios florestais no Canadá e nos Grandes Lagos (David Ramos/Getty Images via AFP)

A fumaça densa dos incêndios florestais no Canadá e no norte de Minnesota avançou sobre a região metropolitana de Nova York e Nova Jersey, acendendo o sinal de alerta máximo para a final da Copa do Mundo de 2026 neste domingo (19/7). Com mais de 200 focos de incêndio ainda fora de controle, a qualidade do ar despencou a níveis insalubres às vésperas da decisão no MetLife Stadium. Diante de um cenário em que o horizonte de Manhattan chegou a ficar encoberto por uma névoa alaranjada, médicos pneumologistas alertam: a inalação desse ar tóxico por 90 ou 120 minutos pode provocar lesões pulmonares agudas e derrubar o rendimento físico dos jogadores em campo.

O perigo reside nas micropartículas conhecidas como material particulado fino, que conseguem vencer as defesas naturais do corpo. O pneumologista Ygor Mourão explica que, no caso de atletas de elite, a inalação desse material agride diretamente a barreira entre os alvéolos e os capilares sanguíneos.

“Os alvéolos são os responsáveis pela troca gasosa. Essa lesão e o edema local que se forma fazem com que ocorra uma queda na difusão e, consequentemente, na troca de oxigênio”, adverte Mourão. “Esse distúrbio na ventilação e perfusão pode gerar uma broncoconstrição e levar à hipoxemia, que é a queda de oxigênio no sangue. No jogo, isso se traduz em fadiga precoce, queda de rendimento e um cansaço muito mais intenso.”

O colapso do rendimento devido à fumaça

Além da perda de fôlego, a fumaça desencadeia um severo estresse oxidativo e inflamação generalizada nas vias aéreas. Na prática, os torcedores podem ver atletas sofrendo com crises de tosse, chiado no peito (sibilos) e dor torácica aguda após o apito final. Arrancadas de alta intensidade serão menos efetivas pela falta de oxigenação muscular, e o tempo necessário para a recuperação física total dos jogadores — que costuma ser de 48 a 72 horas — pode se estender por até 96 horas.

O pneumologista também desmistifica a ideia de que alguma seleção levaria vantagem por “estar acostumada” a climas poluídos. Segundo ele, não existe uma aclimatação real para um Índice de Qualidade do Ar (AQI) acima de 150, patamar que ele considera o limite técnico para que a Fifa cogitasse o adiamento da partida final da Copa.

A situação é ainda mais crítica para os atletas, porque a “ventilação minuto” (o volume de ar respirado por minuto) de um jogador em esforço extremo é massiva, fazendo com que eles aspirem uma dose muito maior de toxinas do que uma pessoa em repouso. No longo prazo, essa exposição severa pode causar um remodelamento da via aérea, acelerando a perda de função pulmonar e gerando reflexos perigosos no coração.

Estará no estádio? Confira redução de danos nas arquibancadas

O risco se estende para as mais de 80 mil pessoas esperadas no estádio aberto. O pesquisador Chris Carlsten, da Universidade da Colúmbia Britânica, lembra que a fumaça que viaja longas distâncias sofre um “envelhecimento fotoquímico”, tornando-se ainda mais tóxica ao carregar resíduos de madeira, tintas e plásticos derretidos.

Para os torcedores, Mourão recomenda uma estratégia de redução de danos:

  • Ficar em arquibancadas mais altas e contra a direção do vento;
  • Manter uma hidratação intensa e constante;
  • Uso contínuo de máscaras de alta proteção (PFF2/N95);

Para os pneumopatas, é indispensável levar as medicações de resgate (as famosas “bombinhas”) para o estádio.

O tabuleiro político e a crise climática

Enquanto os organizadores do torneio e a força-tarefa da Casa Branca afirmam que estão “monitorando a situação de perto”, ao lado do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS), o cenário ambiental escalou para uma crise diplomática.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu o tom contra o governo canadense, classificando a poluição que invade o Nordeste americano como “totalmente inaceitável”. Trump utilizou suas redes sociais para protestar, afirmando que os Estados Unidos estão sendo “desnecessariamente invadidos por um ar imundo” e que ligaria para o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, exigindo medidas drásticas para controle das chamas em Ontário.

Cientistas como Mark Parrington, do Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, reforçam que o episódio não é isolado, mas sim um reflexo direto das mudanças climáticas. O aquecimento global tem prolongado a temporada de incêndios devido a temperaturas mais altas na superfície e solo mais seco, criando o cenário perfeito para que queimadas persistam por semanas a fio durante o verão, transformando um problema ambiental do Canadá em um fator de risco à saúde pública na maior final esportiva do planeta.

*Com informações da AFP

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