Reportagem

Figueiredo deu R$ 54 mil a deputada dos EUA que propôs lei contra Moraes

Agência Pública revela que Figueiredo fez a contribuição um mês antes de Maria Elvira Salazar apresentar projeto de lei que mira o ministro do STF

por Letícia Corrêa
21/08/2026 às 16:16 · Atualizado há 2 semanas
Paulo Figueiredo
Blogueiro Paulo Figueiredo já ofendeu com violência jornalistas da Globonews, com foco principal em mulheres (reprodução/Instagram)

Um levantamento exclusivo realizado pela Agência Pública revelou que Paulo Figueiredo, blogueiro e aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, doou 10 mil dólares (o equivalente a R$ 54,5 mil na cotação da época) para a campanha de reeleição da deputada republicana norte-americana Maria Elvira Salazar. A doação, registrada em 14 de agosto de 2024 na Federal Election Commission (FEC), ocorreu exatamente um mês antes de a parlamentar propor um projeto de lei que mirava diretamente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

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A doação de Figueiredo e o limite legal

Paulo Figueiredo, que se declarou como jornalista nas fichas de doação, utilizou sua cidadania norte-americana para realizar a contribuição legal. Cidadãos estrangeiros sem cidadania ou residência permanente nos EUA, como Eduardo Bolsonaro — dono apenas do green card —, são proibidos por lei de doar a campanhas políticas no país.

O valor de 10 mil dólares foi destinado ao Salazar Victory Committee. Dias depois, a quantia foi redistribuída dentro dos limites legais para o comitê oficial da deputada (Salazar for Congress) e para o Freedom Force PAC, um comitê de ação política ligado à sua campanha.

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O projeto de lei e o cerco aos vistos

Em 16 de setembro de 2024, em parceria com o deputado Darrell Issa, Salazar apresentou o projeto de lei “No Censors in our Shores Act” (“Sem censores em nossas fronteiras”, em tradução livre). A proposta prevê barrar a entrada e permitir a deportação de estrangeiros que, na condição de funcionários de governos estrangeiros, tenham tomado decisões que violem a Primeira Emenda à Constituição americana contra cidadãos dos EUA, como Elon Musk, dono da rede social X.

Embora o projeto de lei ainda esteja em tramitação no Congresso americano, a pressão política se desdobrou em sanções práticas no ano seguinte. Em julho de 2025, o governo norte-americano cancelou os vistos de entrada de Alexandre de Moraes, de sua esposa, de familiares, de outros sete ministros do STF e do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Apenas os ministros Luiz Fux, André Mendonça e Nunes Marques não tiveram seus vistos revogados.

Lobby em Washington e a Lei Magnitsky

Segundo a Pública, a articulação de bastidores envolveu encontros em grande quantidade e lobby explícito. Em fevereiro de 2025, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo se reuniram pessoalmente no gabinete de Salazar para pedir a reapresentação do projeto de lei na nova legislatura, o que foi feito pela deputada no mesmo dia. Eles também se reuniram com o deputado Jim Jordan, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, que prometeu prioridade na aprovação.

Salazar também atuou como peça fundamental para que o governo dos EUA aplicasse sanções a Moraes sob a Lei Global Magnitsky. No dia em que a sanção foi anunciada, Figueiredo agradeceu publicamente à parlamentar em uma transmissão ao vivo em seu canal de YouTube. No pronunciamento, ele a chamou de “uma gigante, uma aliada de primeiro momento nessa luta”.

Nota de crédito: Esse texto foi escrito com base na reportagem investigativa original “Paulo Figueiredo doou R$ 54 mil a deputada dos EUA que propôs lei contra Moraes”, escrita pelas jornalistas Natalia Viana, Ethel Rudnitzki e Maria Martha Bruno, com edição de Natalia Viana, publicada pela Agência Pública em 20 de agosto de 2026 . Para conferir a apuração na íntegra e com todos os detalhes e documentos oficiais, acesse a matéria completa diretamente no site da Agência Pública.

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