Férias sem tela: missão impossível ou necessidade urgente de saúde mental?
Especialistas explicam os danos do excesso de dispositivos na infância e na adolescência e orientam como tentar menos tempo de tela no recesso escolar

O Brasil lidera o ranking dos países com maior tempo de vida online. Segundo um levantamento da NordVPN, a população do país passa, em média, 116 horas por semana conectada à internet — o equivalente a quase cinco dias inteiros navegando na rede. Nesse cenário, é possível ter férias sem tela? O dado acende um alerta para essa preocupação com o universo digital que começa cada vez mais cedo.
Com a chegada do recesso escolar de julho, esse desafio ganha outros contornos dentro de casa. A quebra da rotina faz com que as telas — celulares, tablets, computadores e televisões — passem a ocupar a maior parte do dia das crianças e dos jovens.
De acordo com o Emílio Tazinaffo, psiquiatra e coordenador do Programa de Dependências Digitais da Elibré, sem a estrutura das aulas, o excesso de exposição vira uma armadilha. O que antes começava como um momento de lazer rápido para distrair as crianças muitas vezes se transforma em um hábito compulsivo. Os eletrônicos viram uma espécie de “babá eletrônica”, mas o custo cobrado da saúde mental e física de crianças e adolescentes é alto.
Para os pais que continuam trabalhando enquanto os filhos estão de recesso, equilibrar essa conta é uma missão real e exaustiva. E a falta de controle e supervisão, principalmente nesse período, é o cenário perfeito para o surgimento da dependência digital.
Férias, tempo de tela e dependência digital
Os impactos do uso abusivo vão muito além do comportamento. De acordo com a pediatra Beatriz Bermudez, do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), os prejuízos afetam diretamente a biologia de quem ainda está crescendo.
“Lembrar que a criança e adolescente são seres em desenvolvimento e que esse excesso de tela vai interferir nas funções cognitivas. A gente tem duas janelas de grande desenvolvimento que é ali a primeiríssima infância, até os 6 anos incompletos. E tem a adolescência inteira também. Mas, principalmente dos 10 aos 14 anos de idade, esse excesso atrapalha a memória, a parte do aprendizado e do raciocínio”, alerta.

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O mito do “conteúdo educativo” e o impacto físico
Muitos pais acabam permitindo que os filhos passem horas conectados, sob o argumento de que o conteúdo assistido é classificado como “educativo” ou pedagógico. A SBP esclarece que, para o cérebro, o excesso de estímulo luminoso e auditivo causa danos e fadiga, independentemente da qualidade do que estiver passando na tela.
“O cérebro em desenvolvimento (especialmente até os 6 anos e na pré-adolescência) precisa de diversidade de estímulos táteis e motores”, esclarece Bermudez. Ela exemplifica que a leitura de um livro físico força a mente a imaginar, criar cenários e construir conexões em espiral.
“A tela, por sua vez, entrega tudo pronto e mastigado, gerando cansaço mental sem nenhum ganho real de aprendizado.”
Além dos prejuízos cognitivos, os danos físicos do sedentarismo digital são severos:
- Problemas de visão: Casos crescentes de miopia precoce e até de estrabismo (visão dupla causada pelo cansaço e esforço muscular ocular contínuo).
- Prejuízo motor: A falta de brincadeiras dinâmicas prejudica a formação adequada do aparelho locomotor (músculos e ossos) na infância.
- Obesidade infantil: Ao se alimentar olhando para uma tela, a criança se desliga dos sinais biológicos do próprio corpo e não presta atenção ao mecanismo de saciedade, comendo além do necessário.
Como diferenciar o lazer da dependência nas telas?
Durante as férias, é esperado que o tempo de uso dos dispositivos aumente um pouco. Mas como os pais podem saber quando a linha do bom senso foi cruzada e a diversão virou uma patologia? Emílio Tazinaffo explica que os principais termômetros são o prejuízo funcional e a perda da capacidade de escolha.
“A criança ou o adolescente passa a utilizar as telas numa quantidade cada vez maior, e o uso vira o regulador oficial das suas emoções. A única diversão é jogar; a única forma de lidar com a irritabilidade e com o estresse também é a tela. Quando a falta do aparelho gera isolamento, queda de rendimento e brigas constantes, já não estamos falando de uso recreativo”, explica.
Os jogos online e as redes sociais focadas em vídeos curtos (como reels do Instagram e o TikTok) são milimetricamente desenhados para prender a atenção por meio do sistema de recompensa do cérebro. Eles liberam microdoses de dopamina a cada nova interação ou arrastada de dedo.
“A imprevisibilidade do que vem a seguir cria um ciclo vicioso em que o cérebro precisa ser nutrido por estímulos digitais o tempo todo”, complementa o psiquiatra.
Férias sem telas: uma missão possível
De acordo com o coordenador da Elibré, tentar cortar o acesso à internet de forma abrupta, violenta e sem planejamento não funciona. Essa atitude costuma desencadear crises severas de choro, isolamento e agressividade — um quadro clínico conhecido como abstinência digital. A melhor estratégia, portanto, é apostar em um desmame gradual, afetivo e previamente combinado.
Veja cinco estratégias práticas sugeridas pelos especialistas para aplicar em casa já nesta semana:
1. Crie uma rotina mínima (mesmo nas férias)
O maior erro dos pais é deixar os dias do recesso completamente livres, sem horários para nada. É fundamental manter uma estrutura básica para o relógio biológico. Se na época de aulas seu filho dorme às 22h, nas férias ele pode ir para a cama às 23h, mas nunca de madrugada. O mesmo vale para o horário de acordar. Essa previsibilidade reduz drasticamente a ansiedade.
2. Faça combinados antecipados
Não tire o celular da mão do seu filho de surpresa no meio do dia. Sente-se com ele no início da semana e monte um planner ou um cartaz visual bem simples. Deixe claro quais serão os blocos de horários permitidos para as telas, quais são as obrigações domésticas que ele precisa cumprir e quais serão os momentos em família. Antecipar as regras zera a reatividade dos jovens.
3. Estabeleça “zonas livres de tecnologia”
A tecnologia não deve invadir instantes sagrados de convivência e afeto familiar. Defina espaços físicos da casa onde o celular é estritamente proibido. O melhor exemplo para começar é a mesa de refeições.
Vale lembrar que a regra precisa ser cumprida também pelos adultos: de nada adianta proibir o tablet do filho se os pais continuam respondendo e-mails de trabalho ou rolando o feed das redes sociais durante o almoço.
4. Use ferramentas de controle parental
Se você trabalha fora e seu filho vai passar o dia em casa, use a tecnologia a seu favor para monitorar os excessos. Aplicativos de parentalidade permitem bloquear o funcionamento do smartphone após atingido o limite diário de horas ou restringir o uso de redes sociais em períodos específicos. Isso ajuda a proteger o jovem cuja capacidade de autocontrole ainda não está madura.
5. Amplie o repertório e leve movimento para a vida
Ao reduzir o tempo de tela do seu filho, você precisa obrigatoriamente preencher esse vazio com outras vivências. “Ficar sentado olhando para a parede ele não vai”, lembra Emílio.
Substitua o ócio digital por movimento, presença e criatividade. Resgate jogos de tabuleiro antigos, incentive oficinas manuais (como desenho, pintura, cerâmica ou crochê) e envolva os filhos em pequenas tarefas da dinâmica da casa, como ajudar no preparo do jantar.
A cura fora das telas: o poder do contato com a natureza
Como principal alternativa de saúde para contrapor ao universo virtual, a Sociedade Brasileira de Pediatria defende fortemente o resgate das atividades ao ar livre. O contato com o meio ambiente funciona como um desinfetante mental e um calmante natural para o cérebro que passa o dia hiperestimulado por notificações e luzes artificiais.
“O olho da gente precisa ir lá fora, ver o horizonte, perceber uma claridade diferente e contemplar uma imagem sem limites físicos”, ressalta Beatriz Bermudez.
Assistir ao pôr do sol, fazer caminhadas ou piqueniques em parques da cidade, visitar os avós e resgatar as brincadeiras de rua com os amigos ajudam a criar memórias afetivas reais e duradouras.
Apostar no diálogo e no olho no olho durante as férias de julho não traz benefícios apenas para os filhos, mas transforma a saúde mental de toda a casa, agindo como uma barreira de proteção essencial contra transtornos de humor contemporâneos, como a ansiedade e a depressão.
Diretrizes de tempo recomendadas pela SBP
Para balizar os pais e ajudar na divisão dos horários, a Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece limites diários máximos de exposição às telas, divididos por faixa etária:
- 0 a 2 anos: Zero telas. A exposição deve ser nula, mesmo de forma passiva. A única exceção aceitável são videochamadas curtas e monitoradas com familiares distantes.
- 2 a 5 anos: No máximo 1 hora por dia. O acesso deve acontecer sempre com a supervisão direta e a mediação ativa de um adulto responsável.
- 6 a 10 anos: Entre 1 e 2 horas por dia. Sempre com pausas frequentes ao longo do uso e monitoramento rigoroso dos conteúdos acessados.
- 11 a 19 anos: Entre 2 e 3 horas por dia. O uso recreativo jamais deve substituir as horas necessárias de sono, o tempo dedicado aos estudos ou as atividades físicas.
“Muitos países já caminham para recomendar que os pais só deem um smartphone com acesso a redes sociais a partir dos 16 anos. É preciso ensinar os filhos a dominarem a internet, e não deixar que a internet os domine”, alerta a pediatra Beatriz Bermudez.