Argentina passa à final com federação mergulhada em escândalos de corrupção e abuso sexual de menores
Presidida por Claudio "Chiqui" Tapia, a AFA (Associação do Futebol Argentino) enfrenta investigações de evasão fiscal a abuso sexual de menores

Depois de vencer de virada a Inglaterra nesta quarta-feira (15), a seleção argentina vai à final da Copa do Mundo de 2026 no próximo domingo com uma campanha memorável, liderada pelos pés do gênio e ídolo Lionel Messi. Mas, enquanto a “Albiceleste” segue para disputar mais uma final no Mundial, a entidade que a comanda carrega um passivo bem menos glorioso.
A Associação do Futebol Argentino (AFA), presidida por Claudio “Chiqui” Tapia, é hoje o centro de uma teia de investigações judiciais que atravessa fronteiras e violações: evasão fiscal, lavagem de dinheiro nos Estados Unidos, manipulação de resultados em ligas de base e, no capítulo mais grave, denúncias de abuso sexual contra atletas menores de idade nas categorias de formação e no futebol feminino.
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O sucesso em campo, historicamente, funcionou como amortecedor para as crises internas da entidade. Mas a sobreposição de frentes judiciais — algumas já em fase avançada, outras apenas começando — coloca a gestão Tapia sob um cerco que o resultado esportivo dificilmente vai conseguir dissolver.
O rombo fiscal e o tesoureiro que decidia por telefone
A frente mais avançada, do ponto de vista judicial, tramita na Justiça Federal argentina. Segundo denúncia baseada em documentos da Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA), órgão argentino de arrecadação de impostos, a AFA reteve indevidamente impostos e contribuições previdenciárias por períodos superiores a 300 dias — dez vezes o prazo de 30 dias estabelecido pela lei tributária argentina. A entidade também teria se apropriado da taxa de 7,5% cobrada sobre a venda de ingressos de clubes do país, verba que por lei deveria ser repassada ao fundo de seguridade social.
O valor total do desvio soma mais de 19 bilhões de pesos argentinos, o equivalente a cerca R$ 65,4 milhões na cotação atual. Em março de 2026, o juiz federal Diego Amarante determinou a condenação da AFA e de seus dirigentes, com embargo de bens. A decisão foi confirmada em segunda instância em 26 de junho pela Câmara de Apelações em Matéria Penal Econômica. Tapia e o tesoureiro Pablo Toviggino tiveram bens pessoais embargados em 350 milhões de pesos (R$ 1,2 milhão), cada um, e seguem com proibição de saída do país — com exceções pontuais concedidas a Tapia para acompanhar a seleção nos Estados Unidos.
#Institucional El Presidente Claudio Tapia se reunió esta mañana con algunos miembros del Comité Ejecutivo de la @afa en la sede social de Pilar. pic.twitter.com/7UlJUf9Wpn
— AFA (@afa) May 22, 2026
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Uma funcionária do setor de contabilidade da entidade, ouvida na investigação, relatou que a liberação ou retenção dos pagamentos ao fisco dependia de “ordens verbais” diretas de Toviggino — um indício, segundo a acusação, de que o controle sobre o fluxo de caixa da AFA estava deliberadamente concentrado nas mãos do tesoureiro.
A rota americana: de Tofoni ao FBI
O caso ganhou dimensão internacional a partir de um processo cível nos Estados Unidos. O empresário Guillermo Tofoni, dono da World Eleven e desafeto declarado de Tapia, obteve na Justiça americana, por meio de um processo de obtenção de provas, mais de três mil páginas de registros bancários que passou a compartilhar com autoridades argentinas — entre elas o Ministério da Segurança — e que embasaram uma denúncia formal de lavagem de dinheiro.
A reportagem que primeiro revelou o esquema em profundidade foi publicada pelo jornal argentino “La Nación“. Segundo o levantamento, a Procuradoria de Criminalidade Econômica e Lavagem de Ativos (Procelac) validou a documentação e identificou o funcionamento de uma estrutura paralela batizada pelos investigadores de “lavagem inversa”: em vez de lavar dinheiro sujo, a cúpula da AFA teria desviado receitas legítimas de patrocínio — contratos que somam US$ 60 milhões da Adidas (R$ 304 milhões) e US$ 40 milhões da Warner (R$ 203 milhões) — para contas em bancos americanos como Bank of America, Synovus, JPMorgan Chase, Citibank e PNC Bank, misturando-as a gastos pessoais e investimentos imobiliários.
No centro do esquema estaria a empresa TourProdEnter LLC, registrada na Flórida pelo produtor teatral e ex-deputado provincial Javier Faroni e pela mulher dele, Erica Gabriela Gillette. Dos mais de US$ 260 milhões (R$ 1,3 bilhão) que teriam circulado pelas contas da empresa, pelos documentos obtidos, o “La Nación” identificou ao menos US$ 57 milhões sem justificativa econômica, incluindo empresas de fachada registradas em nome de pessoas de baixa renda em Bariloche, uma mansão de US$ 17 milhões (R$ 86,4 milhões) atribuída a Toviggino, cartões corporativos usados em compras de grife, aluguel de iates e hospedagens de luxo na Europa, além de uma transferência direta a María Florencia Sartirana, apontada como companheira do tesoureiro.
A movimentação pelo sistema financeiro americano levou o Departamento de Justiça dos Estados Unidos a abrir uma investigação preliminar, com pelo menos três procuradores federais envolvidos. Tofoni prestou depoimento de cerca de quatro horas ao FBI.
Apostas, árbitros e um processo arquivado
Outra frente de investigações expõe suspeitas de manipulação de resultados em divisões de acesso do futebol argentino, que já vinham sendo investigadas desde 2024. A denúncia formal partiu do legislador portenho Facundo Del Gaiso, da Coalizão Cívica, com base em uma investigação do jornalista independente Pablo Carrozza, publicada em seu canal no YouTube, que expôs conversas de WhatsApp e transferências em criptomoedas ligadas ao árbitro Nicolás Jara. O ex-árbitro Javier Castrilli divulgou provas adicionais em sua conta no X.
La punta del iceberg??? Investigación ya…!!! Declaración jurada de todos los árbitros… a ver si pueden justificar su patrimonio… Toviggino es el mariscal de la destrucción de la credibilidad en el fútbol…Pablito lo hizo… pic.twitter.com/o4oxYiHpBB
— Javier Castrilli (@castrillijavier) November 13, 2024
Jara, cuja ascensão na arbitragem chamou a atenção pela rapidez, é acusado de ter recebido pagamentos para atender a pedidos de apostadores — como garantir vitórias por margem exata de gols ou estender artificialmente o tempo de acréscimos até a marcação de um pênalti. Partidas específicas foram citadas na denúncia, que também alcançou o diretor nacional de arbitragem, Federico Beligoy, e novamente Toviggino — acusado, segundo mensagens obtidas na investigação, de coordenar o envio de “envelopes com dinheiro” para influenciar escalas de árbitros.
Apesar da robustez das provas digitais, um procurador federal arquivou o caso contra Jara e Beligoy no fim de junho de 2025, sob o argumento de que a Justiça Federal não teria competência para julgar fraudes esportivas de âmbito local. Toviggino também foi beneficiado pelo arquivamento.
Abuso sexual: do silêncio institucional às denúncias públicas
O capítulo mais grave da crise envolve relatos de abuso sexual contra atletas menores de idade. O caso mais emblemático é o do técnico Diego Guacci, que comandou as seleções argentinas sub-15 e sub-17 femininas e passou por clubes como River Plate e UAI Urquiza. A denúncia original foi apresentada em maio de 2021 ao Comitê de Ética da FIFA pela FIFPro, entidade que reuniu mais de 20 depoimentos de jogadoras relatando assédio sexual, ameaças e hostilização sistemática — parte delas ainda menores de idade, algumas com apenas 14 anos. A FIFA arquivou o caso em 2022 citando “provas insuficientes”, após ouvir apenas a versão do técnico.
O silêncio institucional só foi rompido em 31 de março de 2026, quando as jogadoras da seleção argentina Luana Muñoz, Gabriela Garton, Aldana Cometti e Camila Gómez Ares decidiram se identificar publicamente e relatar os episódios em entrevista à agência EFE. Segundo o relato, Guacci teria feito comentários de conotação sexual explícita nos vestiários e exercido coação psicológica sobre as atletas, condicionando espaço na seleção à submissão.
Uma quinta jogadora, sob anonimato, denunciou ainda assédio por videochamada. Apesar dos alertas da FIFPro e de protestos do futebol feminino argentino em frente à sede da AFA, sob o lema “Sí lo sabían” (“Eles sabiam”) em 2022, a entidade se limitou a não renovar o contrato de Guacci, sem qualquer processo disciplinar — o que permitiu que ele seguisse atuando em categorias de base e, depois, no exterior.

O caso ganhou novos contornos em março deste ano, quando o “La Nación” divulgou que o número de vítimas subiu de cinco para oito após a repercussão do caso na imprensa. A publicação também atribuiu a Guacci frases ditas a atletas durante o período denunciado.
“O que eu preciso fazer para que elas joguem bem? Colocá-las no chuveiro e transar com elas?” “Olha como você é linda!” “Esse penteado ficou ótimo em você!” “Que sorriso lindo você tem!” “Seus pais sabem que você é lésbica?” “Por que você não me manda fotos suas?” “Olha para mim. Isso nunca aconteceu comigo antes. Você me deixa assim.”
No último sábado (11), o jornalista francês Romain Molina retomou as denúncias apontando a AFA como parte de um esquema para acobertar o ex-técnico. No vídeo “A máfia do futebol argentino”, Molina aprofunda o caso e aponta uma falha grave na condução do processo pela FIFA: o anonimato das denunciantes era condição colocada pela FIFPro e pelas próprias vítimas para que a denúncia fosse formalizada, mas o relatório de 40 páginas produzido pela entidade — e obtido pelo “La Nación” — expôs os nomes de todas as jogadoras.
Para o jornalista, a AFA já conhecia o comportamento de Guacci, inclusive de passagens anteriores por clubes, e não tomou nenhuma providência antes ou depois de o caso se tornar público. Molina atribui o arquivamento a uma proximidade entre dirigentes da AFA e da FIFA, citando o diretor jurídico da federação argentina, Emilio García, como um dos nomes de influência nos bastidores; segundo o repórter, fontes ligadas à FIFPro já haviam sido avisadas, ainda em 2022, de que Guacci não seria condenado.
Após a repercussão inicial, o presidente da AFA, Claudio Tapia, chegou a publicar no X que a federação levaria o caso “às últimas consequências”, mas a entidade em seguida divulgou um comunicado no qual se isentava de responsabilidade.
Duas outras investigações mais antigas expõem falhas de proteção a menores nas pensões de clubes formadores. No River Plate, uma denúncia da ONG argentina AVIVI, baseada no testemunho de uma cirurgiã que trabalhou no clube até 2011, relata que jovens hospedados na pensão do clube entre 2004 e 2011 sofreram abusos sistemáticos por parte de uma pessoa que circulava livremente pelas instalações. A médica, cujo relato foi base da denúncia feita em 2018, acredita que seu afastamento do cargo, em 2011, tinha relação com o episódio.
Já no Independiente, o caso seguiu um caminho distinto: foi o coordenador da base do Independiente que apresentou denúncia formal às autoridades argentinas, o que resultou na prisão do relações-públicas Leonardo Cohen Arazi e de outros dois investigados —Alejandro Carlos Dal Cín e Juan Manuel Díaz Vallone— por uma rede de exploração de atletas de 14 a 17 anos alojados na pensão do clube.
Uma federação em guerra com o governo
As investigações se desenrolam em meio a um confronto político aberto entre a AFA e o governo de Javier Milei, que defende a entrada de capital privado nos clubes por meio das Sociedades Anônimas do Futebol (SAF) — modelo rejeitado por Tapia, que defende a manutenção das associações civis sem fins lucrativos. No auge da disputa, a Inspeção-Geral de Justiça (IGJ), órgão regulador federal, declarou irregular uma assembleia geral da AFA marcada para outubro de 2025, na qual Tapia pretendia antecipar sua reeleição — decisão contestada pelo presidente do Talleres de Córdoba, Andrés Fassi, aliado do governo.
Para escapar da fiscalização da IGJ, a AFA obteve na Justiça uma decisão que anulou a atuação do órgão regulador e transferiu sua sede social da tradicional rua Viamonte, em Buenos Aires, para o complexo de treinamento em Ezeiza — passando, assim, à jurisdição da província de Buenos Aires, governada por Axel Kicillof, opositor de Milei. Especialistas em direito público classificaram o movimento como uma manobra de “fuga jurisdicional”, num momento em que auditorias federais avançam sobre os milhões de dólares desviados no exterior.