‘Fadiga de compaixão’: debate nas redes se desloca da tragédia palestina à guerra no Irã
Levantamento inédito mostra como, nos 9 meses desde o anúncio de paz entre Hamas e Israel, atenção global trocou situação palestina em Gaza pela guerra no Irã

Um levantamento inédito da Ativaweb DataLab que acaba de ser concluído mostra como o ambiente digital relacionado aos conflitos no Oriente Médio segue marcado por forte polarização e equilíbrio entre narrativas concorrentes, mas com nítida mudança do foco da atenção global de Gaza e da questão palestina para a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.
O estudo sobre o comportamento digital em relação à região analisou 119.192.989 menções públicas em redes sociais, plataformas digitais, fóruns e ambientes de notícias envolvendo Israel, Palestina, Irã e Estados Unidos ao longo dos últimos nove meses – desde o anúncio da primeira fase de um acordo de paz entre Israel e Hamas para encerrar a guerra em Gaza, que tinha deixado, até aquele momento, um número estimado de 73 mil mortos.
Os dados mostram que o ambiente digital esteve longe de apresentar uma narrativa dominante nesse período. Ao contrário: a guerra foi acompanhada por uma intensa disputa entre diferentes interpretações políticas, religiosas, humanitárias e geopolíticas, refletindo um cenário de elevada polarização e equilíbrio entre visões opostas.
A análise de sentimento identificou que 48,3% das menções apresentaram caráter negativo, impulsionadas principalmente por críticas às operações militares, mortes de civis, destruição, temor de uma escalada regional e preocupação com os impactos econômicos do conflito. Aqui, o estudo registra uma espécie de democratização das críticas, com desaprovação generalizada a atitudes de Hamas, Israel, Estados Unidos e comunidade internacional.
Por outro lado, 35,5% das publicações foram classificadas como positivas, reunindo mensagens de solidariedade, defesa do cessar-fogo, ajuda humanitária e esperança de soluções diplomáticas. Outros 16,2% mantiveram perfil predominantemente informativo, concentrando notícias, análises e comunicados oficiais.
Para a Ativaweb DataLab, a distribuição dos sentimentos demonstra que o conflito ultrapassou a esfera militar e passou a ser interpretado de maneiras distintas por diferentes públicos ao redor do mundo. O estudo evidencia que não houve uma narrativa única predominando nas redes sociais, mas uma disputa permanente por atenção, influência e legitimidade.
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A “fadiga de compaixão” que tirou a questão palestina do centro
Outro achado relevante mostra que a atenção digital global mudou de direção ao longo do período analisado. Embora Gaza permaneça no centro da crise humanitária, a escalada militar envolvendo o Irã, Israel e os Estados Unidos passou a concentrar maior volume de interações, impulsionada pelo risco de expansão regional, pelas ameaças ao programa nuclear iraniano, pelas tensões no Estreito de Ormuz e pelos impactos econômicos concretos da disrupção no mercado internacional de energia.
A queda de atenção sobre Gaza reflete a chamada “fadiga de compaixão”: após longos períodos de exposição a imagens de sofrimento, o público reduz sua reação emocional. O tema continua grave, mas deixa de produzir o mesmo nível de engajamento.
O tema perde força nos mecanismos de distribuição orgânica das plataformas. Imagens similares geram menos reação, sinalizando ao algoritmo para reduzir a distribuição. Quanto mais uma tragédia se prolonga, maior o risco de ela se tornar invisível. O público migra do acompanhamento contínuo para reações apenas nos momentos de escalada.
As diferenças entre as plataformas
O levantamento também identificou diferenças significativas entre as plataformas. O Instagram liderou a circulação de conteúdos relacionados ao conflito, consolidando-se como o principal ambiente para imagens, vídeos e relatos de forte apelo emocional. O X concentrou o debate político em tempo real, campanhas de influência, disputas narrativas e posicionamentos oficiais. Já o YouTube destacou-se como espaço para análises geopolíticas, entrevistas e conteúdos explicativos de maior profundidade.
No Brasil, a repercussão acompanhou a polarização observada no cenário internacional. O estudo aponta que a discussão foi impulsionada por fatores políticos, religiosos, econômicos e humanitários, reproduzindo nas redes sociais brasileiras as mesmas divisões observadas no debate global. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal lideraram o volume da conversação nacional, seguidos por Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Ceará e Paraíba.
Outro aspecto analisado foi o avanço da inteligência artificial na guerra da informação. O estudo registrou crescimento da circulação de conteúdos manipulados, vídeos sintéticos, imagens fora de contexto e campanhas coordenadas de desinformação, reforçando o desafio de verificar informações durante conflitos internacionais.
A tragédia continua, a atenção digital sumiu
Para Alek Maracajá, cientista de dados e diretor da Ativaweb DataLab, o principal resultado do levantamento vai além do volume de publicações.
“Os dados mostram que não existe uma narrativa única sobre este conflito. Existe uma disputa permanente entre diferentes versões da mesma guerra. As redes sociais passaram a refletir um ambiente dividido, onde sofrimento humanitário, interesses geopolíticos, religião, economia e política competem simultaneamente pela atenção das pessoas. O algoritmo não decide quem tem razão, mas influencia quais histórias permanecem visíveis.”
Segundo Maracajá, outro ponto importante é que a permanência de uma tragédia não garante a permanência da atenção pública.
“Gaza continua sendo uma das maiores crises humanitárias do planeta. O que mudou foi o foco da atenção digital. A guerra envolvendo o Irã apresentou novos atores, riscos nucleares, impactos econômicos e imagens de alto potencial de viralização. O resultado foi uma migração do interesse global para uma nova etapa do conflito.”
Principais resultados do estudo
- 119.192.989 menções analisadas em plataformas digitais e ambientes públicos.
- 48,3% das publicações apresentaram sentimento negativo.
- 35,5% foram classificadas como positivas.
- 16,2% mantiveram perfil predominantemente informativo.
- Instagram liderou a circulação das narrativas.
- X concentrou o debate político e informacional.
- A atenção global migrou progressivamente de Gaza para a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.
- O Brasil reproduziu nas redes sociais a polarização observada no cenário internacional.
- O estudo identificou crescimento da utilização de inteligência artificial e conteúdos manipulados na disputa informacional.