Por que a extrema direita perdeu na Suécia — e o que o Brasil pode aprender
Principal lição é que a extrema direita pode perder quando suas contradições ficam expostas e quando os eleitores não radicais percebem os riscos

A eleição sueca de 13 de setembro de 2026 representou um revés para a extrema direita europeia. Os Democratas Suecos (extrema direita) caíram de 20,5% para 17,5% dos votos, perderam cadeiras e deixaram de ser a segunda maior força do Parlamento. Foi a primeira vez que o partido caiu em votação desde a sua criação na década de 1980. Ainda assim, a disputa pelo governo foi muito apertada: o bloco de centro-esquerda conquistou 176 cadeiras, contra 173 da aliança formada pela direita tradicional e a radical.
Uma das principais razões para a derrota foi o receio de que a extrema direita assumisse diretamente cargos importantes no governo. Durante quatro anos, a direita tradicional dependeu do apoio dos Democratas Suecos, sem, no entanto, que seus membros ocupassem posições de destaque. Ao prometer cargos ministeriais ao partido, porém, tornou mais evidente o custo dessa aliança. Para alguns eleitores mais moderados, votar na direita passou a significar entregar postos relevantes do governo à ala mais radical.
Leia mais: O líder da extrema direita alemã celebrou entre dois austríacos
Essa experiência oferece uma lição importante para o Brasil. Em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, a possibilidade de integrantes da ala ideológica ocuparem posições estratégicas — como a hipótese ventilada de Eduardo Bolsonaro assumir o Ministério das Relações Exteriores — pode afastar eleitores mais pragmáticos que não desejam um governo submetido às pautas mais radicais do bolsonarismo.
Outro fator importante foi a questão da interferência externa. Na Suécia, denúncias de uma suposta infiltração russa atingiram um eleitorado especialmente sensível às ameaças de Moscou. Antes da invasão da Ucrânia, essa proximidade ideológica não era vista como uma questão eleitoral tão relevante. Com a postura cada vez mais agressiva de Vladimir Putin, porém, os suecos passaram a conviver com a lembrança de que o país poderia estar entre os alvos da política de pressão e expansão russa — inclusive por meio de uma eventual agressão territorial.
O clã Bolsonaro e a extrema direita dos Estados Unidos
No Brasil, a proximidade de Flávio e Eduardo Bolsonaro com Donald Trump e com a direita radical norte-americana pode produzir efeito semelhante, caso seja interpretada como disposição de subordinar os interesses brasileiros à agenda política dos Estados Unidos. Trump também adota uma postura de intervenção, similar à de Putin, sobre sua esfera de influência, especialmente na América Latina. O Amado Mundo publicou uma apuração sobre um plano que envolveria a entrega das reservas brasileiras de terras raras aos Estados Unidos, uma denúncia que amplia o debate sobre soberania nacional e interferência externa.
A eleição sueca, contudo, não significou o fim da extrema direita no país. O partido continua forte e conserva uma base eleitoral expressiva. A principal lição é que a extrema direita pode perder quando suas contradições ficam expostas e quando os eleitores não radicais percebem que sua chegada ao governo envolve responsabilidades concretas de política pública, escolhas controversas e possíveis conflitos institucionais e internacionais.
Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!
Para o Brasil, a disputa também deve ser decidida por diferenças mínimas. Mais do que escolher entre esquerda e direita, os eleitores precisarão avaliar quem terá o controle real do governo, se a ala ideológica aceitará limites institucionais e se o próximo presidente defenderá os interesses nacionais. Em uma eleição apertada, essas questões podem definir não apenas o resultado das urnas, mas principalmente o posicionamento do Brasil em um mundo em transformação.