Epidemia de solidão e exaustão sistêmica embalam aumento da abstenção nas urnas, diz pesquisa
Estudo aponta que colapso dos vínculos comunitários e fragilização da saúde mental ameaçam a democracia brasileira

Às vésperas do pleito de 2026, o Brasil encara uma massa de mais de 32 milhões de eleitores que está pronta para renunciar às urnas. Segundo o estudo “Termômetro do Bem Viver”, parceria entre Datafolha e o Projeto Desapocalíptica da Avaaz, a abstenção recorde não é um mero subproduto da polarização ideológica, mas o sintoma terminal de uma epidemia de solidão e exaustão sistêmica. O levantamento revela que o distanciamento da cabine de votação é, na verdade, um reflexo do colapso dos vínculos comunitários e da saúde mental.
Leia também: Datafolha: Lula lidera com 39% no 1º turno, e Flávio tem 35%; em eventual 2º turno, há empate técnico
Para uma parcela significativa da população, a participação cívica se tornou um luxo cognitivo impossível de arcar; quando a rotina consome cada grama de energia vital, o ato de votar é sufocado pelo imperativo da sobrevivência, o que evidencia a fadiga individual como um fenômeno que fragiliza a base da democracia.
Dados e perfil do eleitor ‘desvinculado’ e exausto
A investigação segmentou a sociedade em três perfis — “Vinculados”, “Relativamente Vinculados” e “Desvinculados” — para mapear como o nível de conexão com o próximo e com o meio ambiente dita o comportamento político. Enquanto 90% dos brasileiros “vinculados” comparecem religiosamente às urnas, quase metade (47%) dos “desvinculados” deixou de votar, ou o faz raramente. O dado mais alarmante reside nos 27% desse grupo que atribuíram “nota zero” ao seu comparecimento eleitoral, indicando uma deserção total do sistema.
Como contou R. S. (35 anos, contador) para os pesquisadores, o voto perdeu o sentido transformador para ele: “Eu voto mais por causa do meu título. Se cancelar, praticamente o meu documento todo é cancelado”. Para esses cidadãos, a urna não é mais uma ferramenta de voz, mas uma burocracia punitiva. Para o relatório, esse tipo de reação confirma que a ausência de vínculos comunitários retira o indivíduo da esfera da esperança coletiva.
Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!
A ‘política da exaustão’: o peso da estrutura social
O diagnóstico técnico aponta que a abstenção é um reflexo de “políticas da exaustão”, moldadas pela omissão legislativa e pela precariedade urbana. O cidadão brasileiro está exaurido por jornadas massacrantes — simbolizadas pela permanência da escala 6×1, segundo a entidade —, redes sociais desreguladas, que priorizam o engajamento através da raiva, e cidades áridas, desprovidas de áreas verdes para descompressão.
A diretora do Projeto Desapocalíptica,Nana Queiroz, aponta a responsabilidade institucional: “O brasileiro não cansou da democracia, cansou de ser ignorado por um Congresso comprometido com a política da exaustão”. A exaustão é, portanto, um projeto político que imobiliza. Como resume Nana: “Gente exausta não consegue esperançar”.
De acordo com ela, essa fadiga sistêmica corrói o valor da democracia, pois o trabalhador, privado de tempo e dignidade, passa a ver o sistema político como uma engrenagem que gira apenas para perpetuar seu próprio cansaço.
Democracia sob tensão: o valor dos vínculos
A crença na democracia se mostrou diretamente proporcional à interconexão social. O estudo revela que 79% dos “vinculados” consideram a democracia inegociável, índice que desaba para 30% entre os “desvinculados”. Para estes, o voto tornou-se uma ferramenta de “redução de danos” ou uma obrigação estéril.
Na visão dos autores do levantamento, a reversão dessa crise exige a institucionalização das “Políticas do Bem Viver” — conceito derivado da matriz indígena Sumak Kawsay, já presente nas constituições do Equador e da Bolívia, que tem o intuito de colocar a harmonia entre pessoas e natureza como bússola estatal.
Sem garantir o descanso digno e a vida em comunidade, o Estado vai continuar a falar para uma audiência que não tem forças para ouvir, dizem os pesquisadores.