‘Divisor de águas’, evento de insolvência desafia clubes afundados em dívidas bilionárias
Novo regulamento exige responsabilidade financeira no futebol brasileiro e aplica punições para os clubes que não seguem as regras

O Grêmio foi o primeiro clube brasileiro a ser punido em decorrência dos chamados “eventos de insolvência”, adicionados às novas regras do Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (RSSF), implementado a partir do dia 1º de janeiro deste ano. Para checar se os clubes estão seguindo as recentes determinações, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), entidade independente com quadro técnico especializado.
São quatro os eventos de insolvência listados no novo regulamento: apresentação de planos de pagamento coletivo; pedido de recuperação judicial; recuperação extrajudicial; e adiamento de planos de recuperação existentes. O clube gaúcho foi punido por desrespeitar o primeiro item ao levar um plano de pagamento coletivo de credores para a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD).
“O impacto não será necessariamente brutal no futebol brasileiro neste primeiro momento, mas certamente será relevante e, principalmente, educativo. O caso do Grêmio mostra que o novo sistema deixou de ser apenas uma discussão conceitual e passou a ter consequência prática”, afirma Fábio Wolff, especialista em marketing e negócios no futebol e sócio-diretor da Wolff Sports, em entrevista ao Amado Mundo.
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Corinthians, Atlético-MG, São Paulo e Botafogo ultrapassam os R$ 2 bilhões em dívidas, segundo levantamento realizado pelo Globo Esporte em junho deste ano. Foram analisados os demonstrativos contábeis dos 20 clubes que disputaram a Série A em 2025. Foram consideradas as dívidas de curto prazo, a serem pagas em até 12 meses (circulante) e as de longo prazo, após 12 meses (não circulante).
O cálculo mostra que outras sete equipes (Palmeiras, Cruzeiro, Internacional, Flamengo, Santos, Vasco e Fluminense) já ultrapassaram uma dívida de R$ 1 bilhão. O Grêmio, punido pela nova regra, apresenta apenas a 12ª maior dívida entre os clubes da primeira divisão (R$ 935 milhões).
“É natural que, neste primeiro momento, alguns clubes tenham dificuldades para se adaptar, principalmente aqueles que carregam passivos muito elevados. Mas é justamente essa transição que pode criar uma cultura de maior responsabilidade financeira no futebol brasileiro”, opina Wolff.
O maior desafio dos clubes grandes
Para Fábio Wolff, o principal desafio é fazer com que os clubes mudem a maneira como enxergam as dívidas. O que antes era administrado como um problema para o futuro, agora precisa estar incorporado ao planejamento de curto prazo. “Não basta aumentar a receita. É preciso ter previsibilidade de caixa, controlar custos e cumprir rigorosamente os compromissos assumidos”, detalhou o especialista.
A lógica do novo regulamento é mais sofisticada do que uma mera contenção de gastos, segundo artigo escrito pelos advogados especializados Marcelo Doval Mendes e Gustavo Favero Vaughn no portal Migalhas em julho deste ano.
“O propósito é induzir os clubes a operar dentro de suas realidades financeiras, controlar custos de maneira racional, reduzir o endividamento excessivo, ampliar a transparência das demonstrações contábeis e incentivar investimentos compatíveis com o futuro de médio e longo prazo. O foco não é apenas repressivo, mas também organizacional e cultural”, avaliaram os autores sobre as novas regras.
“Para os grandes clubes, existe ainda um desafio adicional, que é equilibrar a pressão por resultados esportivos com a necessidade de disciplina financeira. O dirigente continuará sendo cobrado para montar um elenco competitivo, mas terá cada vez menos espaço para fazer isso sem olhar para a sustentabilidade da operação”, completa Wolff.
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Trabalho da Anresf vai além de insolvência
A agência reguladora criada pela CBF causa impactos diretos no futebol brasileiro logo em seu primeiro ano de existência. Além da punição ao Grêmio pelo evento de insolvência, a Anresf iniciou, recentemente, um procedimento formal para avaliar um possível conflito de interesses na venda da SAF do Vasco para o grupo comandado pelo empresário Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
A Anresf não atua como um órgão público, mas tem total autonomia em relação à CBF. A agência analisa o passado contábil, o cumprimento atual de obrigações e a capacidade dos clubes de seguir operando dentro dos parâmetros regulatórios, detalharam Marcelo Doval Mendes e Gustavo Favero Vaughn.
Os requisitos de solvência exigem que os clubes comprovem, em datas periódicas, a inexistência de pagamentos em atraso perante outros clubes, atletas, comissão técnica, funcionários, autoridades públicas e a própria CBF. São analisados valores decorrentes de transferências de atletas, indenizações por formação, mecanismos de solidariedade, salários, direitos de imagem, bônus, obrigações trabalhistas, tributos, FGTS, contribuições previdenciárias e sanções financeiras impostas pela Anresf.
O não pagamento das obrigações, com exceção de acordos formais, decisão suspensiva ou controvérsia substancial, pode gerar consequências imediatas, incluindo o bloqueio de registro de novos atletas, como ocorreu com o Grêmio. Dessa forma, a inadimplência deixa de ser um problema patrimonial ou judicializado, passando a gerar impacto na gestão esportiva do elenco dos clubes.
“O clube que conseguir construir uma operação saudável terá uma vantagem competitiva importante. E isso é positivo porque transforma a boa gestão em parte da estratégia esportiva, e não apenas em uma obrigação administrativa”, avaliou Fábio Wolff.
Clubes que entraram com pedidos de recuperação judicial antes do dia 30 de abril não serão impactados pela nova regulamentação — a data foi estabelecida pelo RSSF. Foi o caso do Botafogo, que iniciou a medida cautelar preparatória nove dias antes deste prazo, conforme divulgado pelo jornal O Globo na época.
Por isso, o time carioca poderá contratar jogadores normalmente e não será submetido a um limite de gastos mesmo vivendo um evento de insolvência. Cruzeiro, Vasco, Coritiba e Chapecoense vivem a mesma situação, além de outros 32 clubes de divisões inferiores do futebol nacional, apontou reportagem do UOL publicada em agosto.
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O futuro do futebol brasileiro
O mais importante é preservar o princípio da sustentabilidade, segundo Wolff. Em caso de mudanças nas regras, será preciso buscar um equilíbrio entre a realidade financeira dos clubes e a necessidade de manter uma competição justa, e não aderir a um “afrouxamento” de normas caso os clubes aleguem enfrentar dificuldades de adaptação aos eventos de insolvência.
“Em cinco ou dez anos, vamos olhar para esse momento como um divisor de águas na gestão do futebol brasileiro. A tendência é que o clube deixe de pensar apenas em quanto pode investir e passe a pensar em quanto consegue sustentar. Isso muda inclusive a lógica do mercado: planejamento, governança, controle de custos, formação de atletas, exploração comercial da marca e geração recorrente de receitas passam a ter ainda mais valor”, concluiu o especialista.