Reportagem

Estudo vê vantagem do Brasil para atrair data centers com emissão menor de carbono

Pesquisa da Associação Brasileira de Data Centers aponta que operação no país pode gerar ao menos cinco vezes menos carbono que nos EUA

por Gustavo Silva
02/05/2026 às 06:00 · Atualizado há 5 meses
Operador do data center da empresa OVHcloud em Roubaix, no norte da França (Foto de Sameer Al-DOUMY / AFP)

A matriz elétrica brasileira virou argumento do setor de data centers para defender a atração de estruturas de computação e inteligência artificial ao país. Um estudo inédito da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) aponta que a operação de data centers no Brasil pode gerar, em média, ao menos cinco vezes menos carbono que estruturas equivalentes nos Estados Unidos, quando considerada a emissão ligada ao consumo de eletricidade.

A comparação foi feita a partir de uma régua comum, a energia necessária para manter em operação, ao longo de um ano, uma carga de 1 megawatt em servidores, armazenamento e equipamentos de rede. No setor, essa medida é chamada de 1 MW de TI. Quando entram também refrigeração, sistemas elétricos e demais estruturas de apoio, esse data center de referência consumiria 12,2 milhões de kWh por ano, energia suficiente para abastecer cerca de 6,4 mil residências brasileiras no mesmo período.

Com essa base, o estudo estima que a emissão ligada à eletricidade ficaria entre 613 e 1.226 toneladas de CO₂ equivalente por ano no Brasil. Nos Estados Unidos, a mesma operação geraria entre 4.292 e 4.906 toneladas. Na prática, segundo a ABDC, processar a mesma carga computacional em território americano pode emitir ao menos cinco vezes mais carbono do que no Brasil. A diferença decorre da maior presença de fontes renováveis na matriz brasileira, enquanto a geração americana ainda tem peso relevante de gás natural e, em algumas regiões, carvão.

Para Luis Tossi, vice-presidente da ABDC, a comparação reforça um argumento que o setor pretende usar no debate sobre a instalação de novos data centers no Brasil. Segundo ele, trazer cargas de TI hoje processadas nos Estados Unidos para o Brasil é uma questão de redução de emissões, para além da soberania digital.

“Quando falamos de trazer TI dos Estados Unidos para o Brasil, o apelo é: estamos reduzindo a emissão de carbono em no mínimo cinco vezes. É uma comparação direta, dado com dado” afirmou Tossi.

Pegada de carbono ao longo do tempo também é amortizada

A vantagem brasileira aparece sobretudo na operação diária, por causa da eletricidade mais limpa. Mas a conta completa de carbono de um data center não termina na energia consumida depois que ele entra em funcionamento. Também entram nessa conta as emissões geradas para construir o prédio, fabricar equipamentos, produzir baterias, montar sistemas de refrigeração e renovar servidores ao longo do tempo.

O estudo divide a pegada de carbono dos data centers em três escopos. O escopo 1 reúne emissões diretas, como diesel usado em geradores de emergência e vazamentos de fluidos refrigerantes. O escopo 2 trata da eletricidade consumida na operação. Já o escopo 3 inclui a cadeia de valor, como construção civil, aço, concreto, baterias, chillers, servidores, storage e demais equipamentos necessários para colocar a estrutura em funcionamento.

Segundo Tossi, o maior peso da indústria está no escopo 2. Isso porque a principal fonte de emissão de carbono de um data center é a energia elétrica usada para alimentar as máquinas e manter os sistemas de refrigeração.

“O escopo 2 é o grande gerador de carbono no mercado de data centers. Parte da eletricidade vai para os dados e outra parte para resfriar a operação”.

A leitura da associação também tenta colocar em perspectiva uma das críticas mais sensíveis ao setor: o uso de geradores a diesel. Esses equipamentos são poluentes e continuam sendo usados como última camada de segurança dos data centers, tanto em casos de falha no fornecimento de energia quanto em testes periódicos. Para Tossi, porém, o diesel não é o principal componente da pegada de carbono dessas estruturas. 

“Todos têm backup a diesel. É obrigatório por norma. Mas, quando se olha o todo, o impacto do diesel é irrisório”, defende.

Hidrogênio no lugar do diesel está em estudo

Em paralelo à tese defendida pela ABDC, uma iniciativa ligada à Itaipu Binacional mira justamente uma das emissões diretas do setor. O Itaipu Parque Tecnológico testa o uso de hidrogênio verde para substituir o diesel em geradores de backup de data centers.

O projeto ainda está em fase de laboratório e deve ter a validação técnica concluída até junho. Depois disso, será necessário verificar se a tecnologia funciona fora do ambiente controlado e se pode ser incorporada a operações reais.

A proposta é usar hidrogênio produzido a partir de fontes renováveis para alimentar sistemas de retaguarda, hoje movidos majoritariamente a diesel. A tecnologia, porém, ainda enfrenta desafios operacionais.

PLAYLISTS