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Análise

Eleições sem fronteiras: a influência estrangeira entra na disputa de 2026

Velhas estratégias de interferência ganham novas formas com plataformas, mercados de previsão e criadores digitais

30/09/2026 às 19:26 · Atualizado há 1 semana
Temor de interferência de Trump nas eleições
O presidente dos EUA, Donald Trump: interesse nas eleições brasileiras. Crédito: Jim Watson / AFP

Operações de influência estrangeira em temas político-eleitorais não são novidade. Tampouco é nova a preocupação dos Estados com soberania. A internet, entretanto, viabilizou uma mudança na escala, na velocidade e na potencial eficácia dessas operações. Plataformas globais permitem que atores públicos e privados atravessem fronteiras e alcancem milhões de pessoas sem necessariamente passar por instituições que tradicionalmente mediam a circulação de informação político-eleitoral.

Autores como Benjamin Bratton vêm chamando a atenção para isso há anos. No livro “The stack”, Bratton argumenta que a computação em escala planetária criou uma infraestrutura que atravessa as fronteiras políticas tradicionais. Esses softwares formam novas camadas de poder que convivem e competem com a soberania dos Estados e podem colocar em xeque a soberania territorial.

Não faltaram sinais do que esse novo paradigma significaria para as democracias. O escândalo da Cambridge Analytica, de 2018, nos Estados Unidos, revelou como dados coletados de dezenas de milhões de usuários do Facebook foram utilizados para perfilamento e direcionamento de propaganda política. Nesse mesmo ano, ocorreu, paralelamente, uma grande operação de influência russa nas eleições dos EUA. Desde então, pesquisadores, empresas e governos vêm documentando inúmeras outras operações associadas a variados países, que, geralmente, empregam contas ou sites falsos, publicidade microsegmentada e enormes quantidades de conteúdo produzido e/ou amplificado de maneira coordenada.

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Em 2022, por exemplo, uma investigação da Graphika e do Stanford Internet Observatory detalhou uma rede de operações de influência que promovia narrativas favoráveis aos Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio e na Ásia Central. Twitter e Meta indicaram Estados Unidos e Reino Unido como países presumidos de origem de partes daquela atividade. Há também estudos sobre operações associadas à Coreia do Norte, especialmente voltadas à Coreia do Sul, além dos casos amplamente documentados envolvendo a China e a Rússia.

Neste ano, Israel adicionou uma camada a esse repertório: a tentativa de influenciar respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial. Documentos registrados nos Estados Unidos revelaram uma campanha financiada pelo governo israelense que envolveu a criação do chamado Hanover Institute for Public Policy, um site que se apresenta como instituto de pesquisa para publicar, em grande escala, textos sobre Israel e Gaza estruturados para aumentar suas chances de serem recuperados e citados por ferramentas como ChatGPT e Perplexity. A empresa de Relações Públicas responsável pelo projeto o descreve como um serviço de produção de conteúdo “otimizado” para a forma como modelos de linguagem avaliam credibilidade.

Influência e interferência nas eleições brasileiras de 2026

No Brasil, temos grupos atentos ao impacto dessas operações no processo eleitoral. Nas últimas semanas, conforme revelou a Folha, pelo menos 11 contas estrangeiras publicaram no X conteúdos pagos sobre as eleições brasileiras, destacando de maneira favorável as cotações de Flávio Bolsonaro na Polymarket. Entre elas estavam influenciadores políticos e a UHN Plus, empresa sediada na Flórida que declara ser “powered by Polymarket”. A campanha do candidato afirmou não ter conhecimento das publicações.

A Polymarket é uma plataforma de “mercado de previsão”, não um instituto de pesquisa. Seus percentuais refletem os preços pelos quais pessoas negociam contratos sobre determinado resultado futuro. Ainda assim, esses números passaram a circular como uma espécie de termômetro eleitoral. Alguns candidatos por aqui também compartilharam seus gráficos como evidência de vantagem na disputa.

Uma das contas associadas a essa campanha estrangeira, a UHN Plus, tem como coproprietário Javier Negre, empresário espanhol ligado ao La Derecha Diario, rede de comunicação presente em diferentes países latino-americanos. Recentemente, uma investigação da LatamChequea identificou centenas de publicações dessa rede utilizando dados da Polymarket em contextos eleitorais na região.

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Mas os movimentos não param por aí. Como mostrou a revista Veja, no final do primeiro semestre deste ano, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo promoveu encontros com influenciadores brasileiros ligados à direita. Segundo uma participante, as reuniões abordaram temas como liberdade de expressão e desafios enfrentados por jornalistas e criadores no ambiente digital. O encontro veio a público no mesmo período em que uma delegação dos EUA teve seus vistos negados por pretender desacreditar o sistema eleitoral do Brasil, segundo autoridades brasileiras, conforme relatado no The Washington Post.

Há, ainda assim, uma conversa necessária sobre a distinção entre diplomacia pública e operações de influência, comportamento inautêntico coordenado e interferência indevida. Desde sempre, governos e veículos estrangeiros cobrem eleições e cidadãos de outros países opinam sobre política brasileira. A preocupação começa quando entram em cena práticas ocultas, enganosas, coordenadas ou financiadas de forma pouco ou nada transparente para interferir no ambiente informacional de outro país. Precisamos mapear e conhecer as táticas empregadas por esses atores, como faz o DISARM Red Framework.

A distância entre um Estado estrangeiro e um eleitor brasileiro diminuiu. A soberania, como Bratton já apontava, deixou há algum tempo de caber confortavelmente dentro das fronteiras de um mapa. As eleições de 2026 estão dando bons motivos para aprofundar essa discussão.

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