Eleições 2026: orgia e ménage na política
Entre bacanais VIP e discursos moralistas de campanha, a hipocrisia política expõe o duplo padrão de quem condena o prazer alheio e esconde o próprio

A orgia virou pauta de campanha nessas eleições. Nas conversas, no feed das redes sociais e nos grupos de WhatsApp, o assunto não é a taxa de juros nem o saneamento básico: é quem estava em qual suíte, quem dividiu o quê com quem e como o submundo do poder se diverte quando as câmeras estão desligadas.
A fofoca atravessa o espectro político sem cerimônia. Os progressistas debocham e criam memes reivindicando o direito histórico de retomar o monopólio dos fetiches, já que o “cidadão de bem” parece ter privatizado a bacanal. A direita conservadora se divide entre o constrangimento velado, os que fingem choque e ainda, os que continuam bradando em defesa da família tradicional enquanto apagam conversas no aplicativo.
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A comoção pública diante de orgias e ménages não nasce da descoberta de que seres humanos fazem sexo em grupo. Nasce do abismo entre o púlpito e o lençol. É aquele velho debate entre o público e o privado, o sagrado e o profano: o erótico para uns e a promiscuidade para outros, a depender sempre de quem detém o poder sobre o ato.
O mesmo discurso que santifica o matrimônio monogâmico, prega a pureza moral, exalta a Virgem e condena qualquer fornicação como decadência espiritual é frequentemente o que financia os bastidores mais licenciosos das capitais do poder no Brasil. Para o eleitorado, reserva-se a vigilância dos corpos e o catecismo dos costumes; para os eleitos e seus patrocinadores, a carne livre de culpas.
Orgias: moralismo seletivo e o controle sobre o prazer
A máxima amplamente associada ao escritor Oscar Wilde de que tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo, que é sobre poder, nunca fez tanto sentido no Brasil recente.
As revelações trazidas pela revista “piauí” e pelas apurações do portal “PlatôBR” sobre a engrenagem operada pelo banqueiro Daniel Vorcaro e seus convidados VIP desnudaram o que investigações batizaram informalmente de “departamento de entretenimento e sexo”. Uma operação milimetricamente calculada de cooptação institucional. Tríplex blindado, suítes de luxo na Barra da Tijuca, jatinhos particulares cruzando o Atlântico com modelos e promoters especializadas em recrutar presenças femininas.
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O detalhe mais sintomático do esquema estava na paranoia protocolar: vetar celulares, apagar registros e garantir sigilo absoluto — sobretudo com a aproximação das eleições. Na arena pública, a moralidade vende voto; no privado, a quebra de todas as interdições compra lealdade.
O sexo profano como moeda de troca institucional
É aí que o sexo profano, culposo e culpado, entra na engrenagem política. Ele deixa de pertencer ao território do afeto, do tesão ou do autocuidado e se transforma em moeda de troca e pacto de silêncio. Nada une tanto homens com mandatos e togas quanto a cumplicidade do que julgam ser uma “fraqueza” compartilhada no escuro. Compartilhar uma mesa de negociação gera contratos; compartilhar um ménage gera cumplicidade e culpa mútua (apenas se descobertos).
E enquanto a orgia for mantida no escaninho do escondido e do reprovável, ela continuará sendo condenada inclusive por aqueles que fingem repulsa, mas dela usufruem — e muito bem. O sexo seguirá sendo aprisionado nesse estigma de pecado conveniente.
Obscenidade, ménage e sexo como ferramenta de dominação
Nesse ponto, torna-se impossível dissociar o momento da escritora Hilda Hilst, que escancarou a grande hipocrisia sobre os limites do pudor: “O que é obsceno? Obsceno? Ninguém sabe até hoje o que é obsceno. Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade, a nossa época é obscena”. A ironia da política nacional é que os mesmos guardiões que apontam o dedo para o que julgam obsceno na cama alheia acabam agora reféns e condenados pelo próprio monstro que criaram: a cartilha da moral e dos bons costumes que forjaram para demonizar o sexo livre.
E nesse vaivém de falsos purismos, quem perde é o espaço para um debate honesto sobre o prazer e sobre a sexualidade. A grande farsa brasileira mora na conveniência: o sexo só vira “pecado mortal” quando serve para tutelar a vida da população vulnerável, regular o aborto, censurar livros didáticos e ditar o que mulheres e minorias podem fazer com a própria genitália. Quando praticado pelos homens do poder com recursos ilimitados, o pecado vira entretenimento VIP, assessorado por concierge e justificado como mero deslize de quem trabalha sob alta pressão.
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O problema de escândalos como o de Vorcaro e seus convidados influentes nunca foi a prática do sexo entre múltiplos parceiros, o fetiche ou a busca do gozo desprovido de amarras convencionais. A questão é o duplo padrão pornográfico de um sistema que criminaliza o prazer alheio enquanto usufrui dele para selar pactos oligárquicos.
Enquanto a moralidade for usada como cortina de fumaça eleitoral para encobrir o balcão de negócios das suítes de luxo, o sexo continuará sendo, antes de qualquer coisa, uma refinada e perversa ferramenta de dominação.