Reportagem

Eleições deste ano impactam legado da Copa do Mundo feminina de 2027, diz especialista

Gestão realizada após o mundial será fundamental para modalidade; candidatos não apresentaram propostas sobre futebol feminino

por Weslley Neto
28/09/2026 às 05:59 · Atualizado há 1 semana
Brasil vai sediar a Copa do Mundo feminina em 2027
Seleção brasileira feminina segue em preparação para o mundial de 2027 (Livia Villas Boas/CBF)

Quem assumir a presidência da República em janeiro de 2027 vai governar o Brasil durante a realização da Copa do Mundo feminina, que será disputada entre os dias 24 de junho e 25 de julho do ano que vem. Mas, principalmente, comandará o país no período posterior ao mundial, considerado fundamental para a manutenção do legado deixado pela competição.

Neste aspecto, o resultado eleitoral influencia diretamente na evolução do esporte no Brasil, segundo Gabi Sabino, especialista em políticas públicas e idealizadora do “Elas Jogam”, projeto de futebol voltado para a valorização, o incentivo e a visibilidade de meninas e jovens atletas na base do esporte.

“Não é responsável dizer que determinado resultado eleitoral pode prejudicar a realização da Copa do Mundo. O Brasil já assumiu compromissos como país sede, existe uma lei geral da Copa e há uma estrutura institucional montada para organizar o evento. A preocupação maior é com o legado dessa competição”, afirma Sabino em entrevista ao Amado Mundo.

Leia mais: A Copa é das mulheres, mas o jogo segue sendo dos homens

Um Plano Nacional de Legado Social Esportivo está sendo elaborado por uma secretaria extraordinária, criada pelo Ministério do Esporte, com foco na realização do mundial do ano que vem. A agenda envolve ampliação da base, profissionalização de atletas, formação de mulheres e maior acesso de meninas ao esporte.

“É fundamental sabermos a forma como essa agenda vai ser concebida, realizada e monitorada. E, além disso, a própria lei geral da Copa do Mundo de 2027 estabeleceu como princípios a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, estímulo financeiro e a consolidação desse legado social”, detalha a especialista.

O que dizem os candidatos?

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) são os candidatos que se destacam na disputa presidencial. Nenhum deles incluiu propostas detalhadas exclusivamente dedicadas ao futebol feminino em seus programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Considerando vias indiretas de fomento, o plano de Lula foca no desenvolvimento do Ministério do Esporte, enquanto Flávio cita o apoio aos programas Bolsa Atleta e o Forças no Esporte (PROFESP), diretamente ligados às Forças Armadas.

Presidente Lula durante cerimônia de apresentação das taças do Mundial 2026 e da Copa do Mundo Feminina de 2027 (Valter Campanato/Agência Brasil)
Presidente Lula durante cerimônia de apresentação das taças do Mundial 2026 e da Copa do Mundo Feminina de 2027 (Valter Campanato/Agência Brasil)

O desafio é entender o que será feito a partir de janeiro conforme o novo cenário de governo, segundo Sabino. “Organizar uma Copa do Mundo é uma coisa, e aproveitar a Copa para mudar estruturalmente o futebol feminino brasileiro e o futebol feminino de base é outra coisa. Essa segunda parte depende muito de prioridade política, orçamento e continuidade”.

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Respaldo político

A legislação imposta pela lei geral da Copa do Mundo é importante para o avanço da modalidade. Porém, também há uma Estratégia Nacional para o Futebol Feminino, existente desde 2023, que trata da inserção e da permanência de mulheres na modalidade. A ideia é de que o plano seja impulsionado pelo Projeto de Lei (PL) 4578 de 2025, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino nacional.

O PL foi aprovado pelo Senado Federal no início de setembro e seguiu para sanção presidencial. Com a existência de leis e estratégias sólidas para a evolução da modalidade, é momento de analisar indicadores e aproveitar o contexto de Copa do Mundo para impulsionar os bons resultados, afirma Sabino.

Leia mais: O futebol brasileiro já existia antes das bets; e sem precisar endividar os torcedores

“2027 é um ano importante para aumentar o número de meninas jogando e pensando em participar do futebol de maneiras diferentes, não só dentro dos gramados. É sobre fomentar espaços seguros, qualificação e segurança. A menina precisa ter condições não só de entrar no futebol, mas de permanecer. E o futebol feminino de base está ligado ao futebol feminino profissional, então as duas coisas têm que amadurecer nesse caminho.”

Além do PL 4578 de 2025, a legislação conta com outras leis estruturais, decretos e projetos recentes desenvolvidos para impulsionar e financiar o esporte feminino. Entre elas, a Lei Geral do Esporte, a Lei de Incentivo ao Esporte, o Programa Nacional de Fomento ao Futebol Feminino e a lei de reconhecimento da modalidade como manifestação cultural.

Copa é uma oportunidade histórica

O Estado brasileiro tem responsabilidade histórica no atraso do futebol feminino. E não só por uma questão de desinteresse, analisa Sabino. Mulheres passaram 41 anos proibidas de praticar determinadas atividades esportivas, incluindo o futebol, o que deixou claro o interesse de impedir o desenvolvimento do esporte feminino.

“As mulheres não começam essa corrida no mesmo lugar que os homens, a nível de investimento e de preocupação. Quando alguém compara o nível de estrutura, de mercado, de formação, de profissionalização do futebol, o masculino e o feminino, sem considerar o que aconteceu na história, acaba ignorando décadas em que um pôde se desenvolver, enquanto o outro enfrentava barreiras que poderiam levar à prisão.”

“Por isso, 2027 oferece uma oportunidade histórica. Não para corrigir esses 40 anos em um mês, porque seria impossível, mas para acelerar uma mudança que já deveria ter acontecido há muito tempo”, aponta Sabino.

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A Copa do Mundo feminina de 2027 movimentará R$ 8,8 bilhões na economia nacional ao longo de todo o ciclo do evento, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) apresentado durante o International Football Summit (WIFS), evento realizado no dia 15 de setembro no Rio de Janeiro.

“Os dados mostram que há um público imenso esperando por um ambiente amigável: 72% das pessoas no Brasil que nunca pisaram num estádio de futebol são mulheres. A Copa de 2027 é o momento perfeito para mudar esse cenário e acolher essas torcedoras”, afirmou o diretor de gestão e inovação do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Roberto Gevaerd, em nota oficial.

Sabino avalia que uma Copa do Mundo bem-sucedida no Brasil pode aumentar a audiência, o interesse dos patrocinadores e a participação das mulheres, além de trazer visibilidade para as atletas, pressão social por investimentos e enraizar culturalmente o futebol feminino, trazendo um ambiente político favorável ao desenvolvimento da modalidade no país.

“O sucesso da Copa não vai ser medido apenas pelo público, apesar de esperarmos e acreditarmos que vai ser a maior e melhor Copa do Mundo. E também não será medido por audiência ou pelo desempenho da seleção brasileira. O que fica para a gente que trabalha e acredita no futebol feminino é ver quantas meninas seguem com a gente, quais espaços alcançamos, quais políticas conquistamos e a priorização do orçamento que ficará depois do apito final”, conclui a especialista.

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