Reportagem

Jogo com o Egito pode colocar Irã no rumo de um dramático confronto com os EUA nas oitavas

Se o Irã vencer os egípcios e a Bélgica não liderar grupo, os países que acabam de sair de uma guerra real podem se enfrentar um pouco à frente na Copa

por Eduarda Farias
Publicado em 27/06/2026 às 05:59
Seleção do Irã
Atacante Mehdi Taremi, que foi retido por horas na imigração no aeroporto de Los Angeles, e técnico do Irã, Amir Ghalenoei (foto: Patrick T. Fallon/AFP)

No sábado (27), em Seattle à 0h (horário de Brasília), Egito e Irã decidem o Grupo G da Copa do Mundo de 2026, mas o resultado em campo é só parte da história. A partida fecha uma campanha em que o Irã jogou a fase de grupos inteira como visitante de um país com quem estava em conflito declarado até dias atrás: a delegação iraniana se hospedou em Tijuana, no México, e só pôde entrar nos Estados Unidos na véspera de cada jogo, sendo obrigada a deixar o país horas depois do apito final.

A restrição tem origem direta na guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos, que começou em 28 de fevereiro de 2026 com um ataque contra o território iraniano e só foi encerrada concretamente –embora com memorando de entendimento, não acordo formal e integral de paz – em 14 de junho, na véspera da estreia do Irã na Copa.

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As sequelas dessa guerra atravessaram toda a preparação iraniana: os jogadores só receberam visto cerca de dez dias antes do início do Mundial, 14 integrantes da equipe administrativa tiveram pedidos negados, o que a federação iraniana chamou de “comportamento vingativo”, e os Estados Unidos proibiu a entrada de iranianos no país desde o início do ano.

É aqui que o adversário de sábado entra na história: o Egito não foi parte do conflito, mas teve papel ativo tentando impedir que ele acontecesse. Junto com Paquistão e Turquia, o país apresentou uma proposta de cessar-fogo temporário e reabertura do Estreito de Ormuz, enquanto é um aliado diplomático próximo dos EUA e signatário do tratado de paz com Israel de 1979. Ou seja, o país que pode eliminar o Irã da Copa é, na vida real, um dos que tentou evitar a guerra que hoje obriga a seleção iraniana a dormir no México.

Apoio egípcio ao Irã

Dentro de campo, o gesto se repetiu. Antes da decisão, o técnico egípcio Hossam Hassan se manifestou publicamente em apoio ao Irã, defendendo que todas as seleções devem ser tratadas de forma justa, segundo os princípios da Fifa.

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“Respeito e jogo limpo significam que todos devem se respeitar e que deve haver justiça entre todos. É por isso que desejo boa sorte a todos nós. A seleção iraniana é uma das que eu mais respeito”, afirmou em coletiva.

Da paz de 1998 ao tabuleiro de 2026

Nesta Copa, o roteiro pode ficar ainda mais impactante: se o Irã vencer o Egito e a Bélgica não assumir a liderança do grupo, Irã e Estados Unidos podem se cruzar nas oitavas de final. Em 2026, o encontro entre as duas seleções teria um simbolismo invertido ao ocorrido na década de 1970. Não é apenas um jogo entre os dois países, mas o Irã jogando dentro do território do rival.

Não seria o primeiro cruzamento entre Irã e Estados Unidos dentro de uma Copa do Mundo, mas o primeiro no qual o Irã estaria em solo norte-americano – e nessas condições. Em 1998, na França, as seleções se enfrentaram na fase de grupos daquele Mundial, num jogo que a imprensa internacional batizou de “Jogo da Paz”: os jogadores trocaram flores antes de a bola rolar, num gesto lido como mensagem de conciliação em meio a décadas de relações cortadas desde a Revolução Islâmica de 1979.

Agora, em 2026, em um torneio no qual começaram como inimigos em guerra, a comissão técnica iraniana chegou a classificar a situação como discriminatória, e o treinador Amir Qalinoi declarou que o Irã era “a seleção mais oprimida de toda a Copa do Mundo“.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA só flexibilizou a regra de entrada para esse último jogo, liberando a chegada da delegação do país persa dois dias antes. Ainda assim, com saída obrigatória no mesmo dia da partida.

Esportivamente, o Egito chega na frente: lidera o grupo com 4 pontos, depois de uma virada sobre a Nova Zelândia decidida por Mohamed Salah (assistência e gol). O Irã, com 2 pontos, precisa vencer para avançar direto — um empate só garante a vaga dependendo do resultado simultâneo entre Bélgica e Nova Zelândia, que jogam no mesmo horário em Vancouver.

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