Drauzio na ABL: Mariana Varella explica rapidez na candidatura para sucessão de Zuenir
Jornalista detalha bastidores do convite, pontua prazos rígidos do Petit Trianon e ressalta que anúncio não partiu de pressa pessoal

O médico e escritor Drauzio Varella, aos 83 anos, vai efetivar a candidatura à Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL). A vaga foi aberta com a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, sétimo ocupante da cadeira, que morreu nesta semana.
Com a formalização da postulação, Drauzio desponta como forte favorito para ingressar no Petit Trianon. Sua chegada à cadeira — que já pertenceu também a Manuel Bandeira — reforça tanto a tradição dos médicos-escritores no quadro acadêmico quanto o espaço para cronistas dedicados a decifrar as complexidades e fraturas do Brasil urbano.
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O rito da ABL e o timing da candidatura
O anúncio da postulação logo após a morte de Zuenir Ventura responde à liturgia e aos prazos estritos da própria ABL, e não a uma precipitação pessoal de Dráuzio.
A jornalista Mariana Varella, filha de Drauzio, explicou os bastidores e esclareceu que a postulação do médico e escritor vinha sendo amadurecida há anos por insistência de um grupo expressivo de imortais da ABL, mas esbarrava em dúvidas do próprio médico quanto à sua rotina profissional.
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“Claro que ele teve receios, até porque tem uma agenda muito, muito cheia. Sempre que vai assumir qualquer compromisso novo, ele pensa dez vezes. Mas essa conversa vinha sendo realizada há muitos anos. E, com a morte do Zuenir, surgiu essa oportunidade e ele resolveu efetivar a candidatura”, pontua Mariana.
A comunicadora também tratou diretamente sobre o curto intervalo entre a perda do colega e a abertura do processo sucessório.
“O processo da ABL é rápido. Muita gente pode achar estranho: ‘Acabou de morrer e já tem candidatura?’. Acontece que é sempre assim. Sempre que abre uma vaga, a ABL se mexe de forma muito rápida para já ocupar essa vaga. Essa rapidez é comum, sempre foi desse jeito. Não foi uma iniciativa dele se candidatar com tanta rapidez; é um procedimento da própria Academia, cujo prazo era muito curto”, explica.
Mariana ressaltou ainda que a decisão de concorrer não decorreu de laços de amizade direta com Zuenir — embora Drauzio Varella nutrisse profunda admiração pelo escritor —, mas sim do respeito mútuo cultivado pelos membros da instituição e pelo papel histórico da ABL.
De Bandeira a Suassuna: o histórico da Cadeira 32 da ABL
Criada sob o patronato de Araújo Porto-Alegre, a Cadeira 32 reúne uma linhagem de forte peso cultural e literário.
Zuenir Ventura foi eleito em 30 de outubro de 2014, sucedendo o dramaturgo e escritor paraibano Ariano Suassuna, e recebido formalmente em sessão solene no dia 6 de março de 2015 pela acadêmica Cleonice Berardinelli. Antes de Suassuna, o assento pertenceu ao poeta Manuel Bandeira, consolidando uma tradição de ocupantes conectados à identidade e à alma brasileira.
A literatura do jaleco: Drauzio Varella e a tradição dos médicos-escritores
Drauzio Varella ingressa na disputa amparado por uma sólida trajetória literária, que vai muito além de sua relevância na saúde pública. Autor de obras consagradas — entre as quais o best-seller “Estação Carandiru” (Companhia das Letras), vencedor do Prêmio Jabuti no ano 2000 na categoria não ficção —, o médico consolidou uma obra que traduz as entranhas da sociedade brasileira a partir do sistema prisional e do convívio direto com as populações mais vulneráveis.
Sua eventual eleição renova no Petit Trianon a tradição dos médicos-escritores na literatura nacional e na própria ABL, linhagem historicamente ilustrada por figuras como Guimarães Rosa, Pedro Nava, Ivo Pitanguy e Moacyr Scliar. Em títulos como “Carandiru”, “Carcereiros” e “Por um fio”, o olhar clínico de Drauzio não funciona como manual de medicina, mas como lente de alta literatura de testemunho, conferindo dimensão humana e crueza documental à narrativa brasileira contemporânea.