Do streaming à IA: alta demanda acirra disputa sobre quem paga pela infraestrutura da internet no Brasil
O tema foi debatido durante a 1ª edição do Brasília Tech Summit, evento promovido pelo Amado Mundo, que reuniu Fabio Andrade, da Claro, e Alessandro Molon, da DIG.IA.

O avanço de tecnologias de alto consumo de dados, como a inteligência artificial e o streaming em alta resolução, acirrou a disputa no setor de telecomunicações sobre quem deve financiar a infraestrutura da internet. Esse embate, conhecido no mercado como “fair share” (justa contribuição), opõe as operadoras – que exigem uma divisão de custos com as gigantes de tecnologia – e as organizações de direitos digitais – que alertam para os riscos à neutralidade da rede.
O tema foi debatido em uma mesa do Brasília Tech Summit, evento promovido pelo Amado Mundo nesta quinta-feira (28), que reuniu o vice-presidente de Relações Institucionais da Claro, Fabio Andrade, e o diretor-executivo da Aliança pela Infraestrutura Digital e Internet Aberta (DIG.IA), Alessandro Molon.
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O gargalo da infraestrutura e o avanço da IA
Representando o setor de telecomunicações, Andrade sustentou que embora o consumo de dados cresça de forma acelerada, os recursos das operadoras para investimento são finitos. Segundo ele, a sobrecarga gerada pelo streaming atual será pequena perto da demanda das novas tecnologias.
“Se há dois anos a gente estava preocupado com streaming de Netflix e hoje a gente tem preocupação do jogo em 4K e 8K, a nossa preocupação é muito maior em relação à inteligência artificial”, alertou, prevendo que os agentes de IA vão gerar um tráfego imenso ao buscar informações em milhões de sites.
Para o vice-presidente da Claro, a solução passa pela colaboração financeira das grandes plataformas para evitar uma pane no sistema. “A rede é igual unha, rapaz. Só cresce o uso de dados, só cresce”, ilustrou o executivo, defendendo que as big tech “ajudem a construir a rede e manter a rede”.
Risco de dupla cobrança da internet e a defesa do usuário
Para Alessandro Molon, o cenário de colapso traçado pelas operadoras não corresponde à realidade técnica e financeira do país. Ele se baseou em estudos que indicam que as empresas de conexão são “financeiramente muito saudáveis” e que, embora o tráfego de dados no Brasil suba ano a ano, ele cresce “numa velocidade cada vez menor”.
Molon defendeu que a premissa de cobrar as plataformas é conceitualmente falha, pois a demanda parte de quem acessa o conteúdo. “O gerador do tráfego não é quem tem o seu conteúdo acessado. O gerador do tráfego é o usuário”, afirmou. O diretor-executivo da DIG.IA ressaltou que instituir uma taxa de rede criaria uma cobrança em cascata para os clientes.
“No fim, vai fazer o usuário pagar duas vezes por um único serviço”, explicou, alertando que os custos inevitavelmente seriam repassados nas assinaturas, o que “vai penalizar sobretudo um usuário mais pobre, que tem menos renda”.
O embate sobre a regulação e a neutralidade da rede
A divergência entre as partes se estendeu também aos projetos de lei em tramitação no Congresso. Andrade criticou propostas que barram a cobrança de tráfego, classificando-as como um entrave que impede parcerias para baratear os pacotes de serviços para o consumidor final.
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“É uma mordaça em qualquer negociação. É uma gerência dos negócios privados, uma negociação que pode beneficiar vocês no futuro”, criticou o executivo da Claro, argumentando que proibir acordos comerciais pode deteriorar a qualidade da infraestrutura.
Molon declarou que a intenção da proposta não é travar parcerias empresariais, mas sim, impedir taxas unilaterais que firam a neutralidade de rede garantida pelo Marco Civil.