Reportagem

Ozempic, Mounjaro e genéricos: o que muda entre as canetas?

Novos registros derrubam preços nas farmácias; conheça as diferenças biológicas entre as gerações e os alertas da Anvisa

por Luiza Barufi
Publicado em 03/10/2026 às 05:50
Canetas injetáveis de semaglutida ao lado de fita métrica ilustrando a diferença entre as canetas e opções no SUS
Canetas injetáveis de semaglutida e nova geração de análogos: queda de preços e novos registros ampliam opções de tratamento no país (Anilorax/freepik)

O Ministério da Saúde anuncia avanços na corrida da caneta que entrará no SUS para o tratamento de diabetes e obesidade, enquanto o mercado busca novas versões e aperfeiçoamentos do medicamento. A endocrinologia, no entanto, alerta contra a redução de uma terapia séria a um mero produto estético. Para o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o termo “caneta emagrecedora” mascara a real complexidade da abordagem clínica: “O tratamento farmacológico da obesidade deve perdurar por anos para assegurar melhora metabólica, funcional e redução de riscos como infarto, AVC e diabetes”.

Hoje, quem entra em uma farmácia brasileira encontra as prateleiras com diversos novos nomes comerciais: Ozivy, Olire, Semaclique, Liraclick, Yluméc e versões genéricas diretas. Um cenário diferente do que antes era resumido por duas ou três marcas importadas com valores que facilmente ultrapassavam os R$ 1.000 mensais.

Dados oficiais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o país concedeu, desde a chegada da primeira formulação até hoje, 27 registros para medicamentos agonistas de GLP-1 e duplos agonistas (remédios que copiam o hormônio natural da saciedade em vias simples ou que combinam dois hormônios intestinais para acelerar o controle metabólico). O levantamento revela a velocidade dessa virada: mais da metade de todas as aprovações já emitidas pela agência — 14 produtos — foi autorizada em um único ano, 2026, impulsionada pelo fim de patentes e pela expansão da indústria farmacêutica nacional.

A multiplicação de marcas e a queda de preços trazem dúvidas imediatas: os remédios nacionais mais baratos têm o mesmo efeito dos pioneiros? Qual é a diferença biológica entre cada substância? Todas essas canetas foram feitas para emagrecer?

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A caneta que pode chegar ao SUS em 2027

Com tantas opções nas drogarias, a dúvida que se impõe na ponta pública é qual dessas tecnologias de fato está mais próxima dos postos de saúde. O pedido formal que o Ministério da Saúde submeteu à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) tem como foco as duas moléculas pioneiras da classe que já perderam a proteção de exclusividade de patente: a liraglutida (substância de uso diário vendida sob marcas como Saxenda e Victoza) e a semaglutida (versão semanal mais potente e popularizada pelo Ozempic e Wegovy).

A estratégia governamental prioriza essas substâncias justamente porque a quebra das patentes e a chegada de concorrentes nacionais viabilizam a compra em grande escala com projeções de até 90% de desconto. A corrida para ingressar na rede pública, contudo, divide-se entre a formulação diária (liraglutida) e a semanal (semaglutida). Embora a liraglutida tenha sido o primeiro análogo avaliado no SUS em submissões anteriores, a semaglutida desponta com maior apelo clínico por exigir apenas uma aplicação a cada sete dias — fator determinante para garantir a adesão de pacientes crônicos no longo prazo.

Enquanto a Conitec inicia a análise teórica dos dossiês, o Ministério da Saúde já testa a aplicação prática na rotina assistencial. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou em nota no site da pasta, que o impacto econômico faz parte da estratégia do Ministério, ao lado do estudo sobre o uso em pacientes do SUS. Ele apresentou os primeiros resultados observados no primeiro paciente a receber o medicamento pelo sistema público, no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre (RS).

Leia também: Para acelerar inclusão de canetas emagrecedoras no SUS, Saúde pede análise da Conitec

“O primeiro paciente que recebeu essa medicação pelo SUS estava na fila da cirurgia bariátrica. Ele já perdeu seis quilos e reduziu a circunferência. E o que é mais legal: ele conta que já mudou os hábitos de vida. Começou a ajudar a mãe em casa, a sair de casa e a fazer atividade física”, contou Padilha.

Para o estudo, denominado Real-Bari, foi implementado um protocolo de pesquisa para o uso da semaglutida em pacientes com obesidade, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a equipe técnica do GHC. O objetivo é garantir maior segurança aos participantes e estabelecer diretrizes para o acompanhamento contínuo por médicos especialistas da unidade. Ao todo, serão acompanhados 250 pacientes do SUS atendidos pelo hospital com obesidade grave ou associada a outras morbidades.

Genérico x referência: o remédio mais barato funciona igual?

Em tese e sob as exigências regulatórias da Anvisa, as versões nacionais e genéricas liberadas pelo órgão sanitário utilizam o mesmo princípio ativo sintético e precisam comprovar equivalência farmacêutica e bioequivalência. Isso significa demonstrar em testes laboratoriais que o remédio atinge a circulação na mesma velocidade e quantidade que o medicamento de referência, garantindo o mesmo padrão de segurança e eficácia terapêutica exigido por lei.

No setor farmacêutico e na prática médica, contudo, o tema costuma levantar debates sobre pequenas nuances de resposta individual. A diferença mais visível para o consumidor permanece no bolso: enquanto os medicamentos pioneiros mantêm preços de prateleira elevados, as formulações nacionais chegam ao varejo por cerca de R$ 333 a unidade em planos de fidelidade (em torno de R$ 10 ao dia).

Os dados da Anvisa revelam que quase a totalidade das novas semaglutidas nacionais e genéricas aprovadas em 2026 recebeu autorização estrita em bula para Diabetes Mellitus tipo 2. Isso significa que para a perda de peso pura, a indicação formal em bula permanece restrita a formulações específicas, como Saxenda (liraglutida) e Wegovy (semaglutida), além do Mounjaro (tirzepatida) e do Olire (liraglutida). Na prática, quem compra as novas semaglutidas mais baratas para emagrecer realiza um tratamento em caráter off-label — uma conduta legal na medicina quando respaldada por receita médica, mas que exige acompanhamento profissional para o ajuste adequado de dosagem.

Guia das gerações de canetas: potência, mecanismo e resultados

Para compreender a diferença de ação e eficácia entre os produtos disponíveis, a ciência divide essa classe terapêutica em três fases principais.

A primeira fase começou com a liraglutida, substância presente em marcas conhecidas como Saxenda e Victoza, além dos novos nacionais Olire e genéricos. Essa molécula foi a pioneira a reproduzir no corpo o hormônio natural da saciedade produzido pelo intestino, retardando o esvaziamento do estômago e avisando o cérebro que o corpo já está alimentado. Por ser eliminada com rapidez pelo organismo, ela exige uma injeção diária e proporciona uma redução média de peso mais modesta, entre 5% e 8%. Apesar de ter sido superada em potência, ela ainda é uma ferramenta útil para quem precisa calibrar a dose dia a dia ou não tolera remédios de ação longa.

O salto seguinte veio com a segunda fase, dominada pela semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, que agora também ganha o mercado com versões mais acessíveis como Ozivy e genéricos. O grande diferencial dessa fórmula foi uma modificação que faz o princípio ativo durar muito mais no sangue, permitindo que o paciente tome apenas uma picada por semana. Além da comodidade, a semaglutida elevou o patamar de eficácia para cerca de 15% de perda de peso nas doses máximas contra a obesidade, tornando-se a molécula mais popular do planeta e a principal responsável pela recente queda de preços no país.

No topo dessa escala de potência está a fase mais recente, representada pela tirzepatida, vendida sob a marca Mounjaro. Enquanto as antecessoras atuam em apenas um hormônio, a tirzepatida é uma molécula dupla que estimula simultaneamente duas vias biológicas da saciedade, o GLP-1 e o GIP. Essa ação combinada atua tanto no cérebro quanto diretamente no tecido de gordura, melhorando a sensibilidade à insulina e acelerando a queima energética. Também aplicada uma vez por semana, ela alcança entre 20% e 22% de redução de peso nos estudos clínicos, o que a torna hoje o medicamento mais potente à venda nas drogarias brasileiras.

Nova fronteira: CagriSema e a eficácia

A disputa farmacêutica não estagnou na tirzepatida. Anúncios recentes da farmacêutica Novo Nordisk revelaram dados promissores de uma nova candidata em fase final de testes clínicos: o CagriSema.

A fórmula combina a semaglutida com a cagrilintida — substância sintética análoga da amilina, hormônio secretado pelo pâncreas em conjunto com a insulina. Paulo Miranda explica essa combinação: “A amilina vem sendo estudada ao longo das últimas décadas e é um dos hormônios envolvidos tanto na capacidade secretora de insulina quanto no apetite. O CagriSema é a primeira medicação que utiliza um amilinomimético a caminho do mercado. São atuações sinérgicas que potencializam o efeito sobre o controle do apetite e da glicemia”.

Comparativo entre as canetas

Liraglutida – Novo Nordisk (Saxenda e Victoza), EMS (Olire e Lirux) e genéricos registrados por laboratórios nacionais como Germed e Eurofarma:

  • Frequência: diária.
  • Mecanismo: agonista do receptor de GLP-1.
  • Perda média de peso: entre 5% e 8% do peso corporal.
  • Indicação principal na Anvisa: tratamento de obesidade crônica e sobrepeso com comorbidades (Saxenda e Olire) ou Diabetes Mellitus tipo 2 (Lirux e Victoza).

Semaglutida: Novo Nordisk (Ozempic e Wegovy), EMS (Ozivy), além de genéricos e similares nacionais como Semaclique (Germed), Yluméc (Eurofarma), Zempneo (Biolab) e Orsema (Aché).

  • Frequência: semanal (com versão em comprimido diário no caso do Rybelsus, da Novo Nordisk).
  • Mecanismo: agonista do receptor de GLP-1 de ação prolongada.
  • Perda média de peso: cerca de 15% do peso corporal.
  • Indicação principal na Anvisa: tratamento de Diabetes Mellitus tipo 2 (Ozempic, Ozivy e a maioria dos similares nacionais) ou obesidade e sobrepeso crônico (Wegovy).

Tirzepatida: Eli Lilly (Mounjaro)

  • Frequência: semanal.
  • Mecanismo: duplo agonista (atua simultaneamente nos receptores de GLP-1 e GIP).
  • Perda média de peso: entre 20% e 22% do peso corporal.
  • Indicação principal na Anvisa: controle glicêmico no Diabetes tipo 2, controle crônico de peso (obesidade/sobrepeso) e apneia obstrutiva do sono associada.

CagriSema (Em fase final de testes clínicos): Novo Nordisk.

  • Frequência: semanal.
  • Mecanismo: duplo hormonal (associa o agonista de GLP-1 semaglutida ao análogo de amilina cagrilintida).
  • Perda média de peso: superior a 21% do peso corporal em obesidade e 12,4% em diabetes.
  • Indicação prevista: tratamento avançado de obesidade severa e diabetes tipo 2 (em submissão regulatória internacional, com previsão de chegada a partir de 2027).

Alerta sanitário: o perigo do uso sem acompanhamento

A facilidade de compra e a proliferação de vídeos nas redes sociais criaram a falsa ilusão de que as canetas funcionam como atalhos cosméticos isentos de riscos. Dados do sistema VigiMed, repassados pela Anvisa, mostram que, desde a implantação da plataforma (2018) até setembro de 2026, foram registradas 3.942 notificações de eventos adversos associados a canetas de GLP-1 no Brasil, incluindo 87 notificações de suspeitas de óbito em investigação técnica.

O coordenador da SBEM, Paulo Miranda, faz um alerta contra a busca apressada por novidades científicas em canais paralelos. A circulação clandestina de substâncias em fase de teste e sem registro sanitário, como a retatrutida e fórmulas falsificadas vendidas na internet, representa risco grave à vida: “O uso seguro dessas tecnologias exige encarar a obesidade como uma doença crônica complexa, amparada na mudança perene do estilo de vida, suporte multidisciplinar e supervisão médica rigorosa”.

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