Reportagem

Epidemia de vape e alta no tabagismo acendem alerta no Dia Mundial Sem Tabaco

Enquanto consumo de cigarro eletrônico dispara entre jovens, a pneumologista Margareth Dalcolmo analisa o impacto da superdosagem de nicotina

por Luiza Barufi
Publicado em 31/05/2026 às 06:00
Dia Mundial sem Tabaco
Número de fumantes no Brasil subiu superlativos 25% entre 2023 e 2024 (foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

O Brasil chega a este 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, enfrentando um cenário alarmante. Se por décadas o país foi referência global na redução do tabagismo, os dados mais recentes revelam que a engrenagem de combate ao fumo estancou. O retrocesso coincide com a popularização avassaladora dos cigarros eletrônicos (vapes), dispositivos que seduziram as novas gerações sob uma falsa roupagem de tecnologia, aroma frutado e inocência.

O Brasil interrompeu uma histórica linha de declínio no consumo de tabaco convencional. Após um período de estagnação iniciado em 2019, o número de fumantes no país registrou uma alta expressiva. Segundo apontamento do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 25% no número de fumantes no Brasil entre 2023 e 2024 (dados de 2025 ainda não saíram). Ainda de acordo com o governo federal, cerca de 174 mil pessoas morrem a cada ano por doenças causadas pelo tabaco.

Esse aumento de 25% significa que, hoje, 11,6% da população adulta se declara fumante de cigarro convencional, contra 9,3% registrados em 2023. Os dados são da pesquisa preliminar anual da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico). Além das perdas humanas irreparáveis, o impacto total do tabagismo no SUS é de R$ 153 bilhões por ano, sendo que apenas 5% desse valor é arrecadado em impostos com a venda de cigarros.

Além disso, o avanço das políticas públicas enfrenta o forte lobby da indústria. Em 2012, a Anvisa aprovou uma norma técnica proibindo substâncias que conferem sabor e aroma aos produtos de tabaco. Contudo, ações judiciais movidas pelo setor tabagista travam a implementação efetiva da medida até hoje.

A epidemia invisível do vape entre adolescentes

Se entre os adultos o uso de cigarros eletrônicos manteve-se estável desde 2019, o cenário entre os mais jovens descreve uma epidemia. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, a experimentação de cigarros eletrônicos (também conhecidos como vapes, pods ou e-cigarettes) subiu de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024 entre adolescentes de 13 a 17 anos. Praticamente um em cada três adolescentes brasileiros já testou o dispositivo.

O crescimento é ainda maior quando observado o uso recente (nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa), que saltou de 8,6% para 26,3%, um aumento superior a 300% no período.

Proibidos no Brasil pela Anvisa desde 2009, os vapes tiveram sua proibição mantida e ampliada em 2024, estendendo-se para fabricação, distribuição, armazenamento e transporte. Na prática, porém, o mercado ilegal dita as regras: o comércio ambulante e sites da internet entregam os dispositivos em minutos na porta dos consumidores.

Alertas no Dia Mundial sem Tabaco

A gravidade do consumo dos dispositivos eletrônicos e de tabaco aquecido é detalhada pela pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e doutora em Medicina pela Unifesp. Em entrevista ao Amado Mundo, ela desconstrói o “glamour” do dispositivo e alerta para os danos irreversíveis à saúde dos jovens.

“Estudos demonstraram que a exposição aos dispositivos eletrônicos é altamente prejudicial pela alta concentração de nicotina que eles encerram, que chega a ser praticamente 100 vezes superior a um cigarro convencional (que tem aproximadamente 1 mg). Eles chegam a passar de 90 a 100 mg”, explica. “Como os jovens ficam expostos à inalação desses vapes durante muitas horas ao longo do dia, estudos publicados demonstraram que a adição (vício) se estabelece em apenas cinco dias e que eles fumam o equivalente a 400 cigarros convencionais em uma semana.”

Sintomas imediatos

De acordo com a médica, o consultório já reflete essa realidade. Jovens e adolescentes têm buscado ajuda médica manifestando tosse crônica e perda de performance física: “Eles começam a manifestar uma situação clínica muito semelhante ao enfisema pulmonar, com diminuição da capacidade aeróbica.”

A pesquisadora cita um estudo do Departamento de Química da PUC-Rio, realizado com amostras apreendidas, que revelou altas concentrações de propileno-glicol — um álcool que, associado a aldeídos e éteres voláteis gerados no aquecimento, entra na corrente sanguínea e causa danos profundos: “Isso compromete o parênquima pulmonar, fazendo a caracterização de uma doença muitas vezes irreversível e muito precoce: a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), em uma faixa etária na qual não é comum desenvolver esse tipo de patologia.”

Taxação no Brasil

Para a pesquisadora, o formato dos vapes é uma estratégia predatória e “maliciosamente criada pela indústria do tabaco, cujo único interesse é ganhar dinheiro”. Ela aponta que o Brasil perdeu o protagonismo na asfixia financeira do setor.

“Faz parte da diminuição do consumo taxar os cigarros com as mais altas taxas do mercado. O Brasil teve um momento em que isso aconteceu. No entanto, hoje o país tem a terceira taxa de impostos mais baixa na América Latina, o que é um absurdo. Há uma pressão da indústria dentro dos órgãos legislativos, Senado e Câmara, de maneira quase obscena para que se mantenha assim.”

O exemplo do Reino Unido

A busca por soluções para frear o avanço do fumo e da nicotina coloca duas abordagens mundiais em evidência: a proibição total com foco no mercado ilegal versus a regulação estrita com viés de redução de danos.

Recentemente, o Reino Unido adotou uma medida histórica e radical para banir o fumo por gerações: proibiu definitivamente a venda de produtos de tabaco para qualquer pessoa nascida a partir de 2009. A meta é criar, de forma progressiva, uma geração totalmente livre de nicotina.

Para Dalcolmo, a nova postura britânica funciona quase como uma “redenção” de um erro estratégico anterior do sistema de saúde daquele país (NHS), que no passado chegou a distribuir cigarros eletrônicos gratuitamente para adultos como alternativa para parar de fumar: “Isso foi um tiro pela culatra, porque ninguém que entra no vape para de fumar, na medida em que a adição é muito maior pela alta concentração de nicotina. Eles não conseguiram o objetivo que almejaram no início e, por isso, criaram essa nova medida. Eu a vejo de maneira histórica e a ser emulada. No Brasil, que tem uma política antitabagista madura e bem constituída, essa postura do Reino Unido é muito inspiradora”, defende a médica.

Como abordar o jovem 

Diferente do cigarro de papel, que nas últimas décadas se concentrou majoritariamente nas classes de menor renda devido ao preço e ao estigma social, o vape redesenhou o perfil do usuário. Ele virou símbolo de status, tecnologia e estilo de vida em escolas particulares e festas da classe média alta. O adolescente atual não se enxerga como “fumante”.

O caminho realista para combater essa nova epidemia, aponta Dalcolmo, passa longe da passividade: “A única maneira que vejo é o ganho de consciência social. As pessoas entenderem que o que tem de glamour, na verdade, não tem nada de inofensivo. É uma questão de não esmorecermos: estarmos nas escolas orientando as crianças e alertando as famílias, muitas das quais ainda pensam que o vape é ‘menos pior’ do que o cigarro tradicional.”

PLAYLISTS