Sem Cerrado, não há futuro: o Dia do Meio Ambiente exige mais do que comemorações
Comemorado todo 5 de junho, o Dia do Meio Ambiente no Brasil nos permite celebrar uma redução no desmatamento, mas cabe reconhecer que o Cerrado segue sendo o bioma mais devastado
Yuri Salmona*

No Dia do Meio Ambiente, celebrado mundialmente nesta sexta-feira, 5 de junho, o Brasil tem motivos para reconhecer avanços importantes na redução do desmatamento em alguns de seus biomas. Mas qualquer comemoração precisa ser acompanhada da constatação de que o Cerrado continua sendo, pelo terceiro ano consecutivo, o bioma mais desmatado do país, o que impede que os avanços ambientais sejam celebrados plenamente.
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Muitas pessoas ainda enxergam o Cerrado como uma paisagem menos exuberante do que a Amazônia. Esse olhar equivocado ajuda a explicar por que sua destruição nem sempre desperta a mesma indignação pública. No entanto, estamos falando de um dos ecossistemas mais importantes do planeta e da principal caixa d’água do Brasil.
Não é por acaso que o Cerrado é conhecido como o “coração das águas”. Dele nascem rios que abastecem algumas das maiores bacias hidrográficas da América do Sul. A água que movimenta a agricultura, gera energia, abastece cidades e sustenta a biodiversidade brasileira depende diretamente da saúde desse bioma.
Desmatar o cerrado hoje é comprometer a água de amanhã
Quando a vegetação nativa é derrubada, não perdemos apenas árvores e espécies. Perdemos também a capacidade do solo de armazenar água, comprometemos nascentes, intensificamos os períodos de seca e criamos condições para incêndios cada vez mais severos. Ao reduzir a disponibilidade hídrica, o desmatamento do Cerrado prejudica inclusive a própria agropecuária, que depende da água para manter sua produtividade. O desmatamento do Cerrado de hoje é a escassez de água de amanhã.
O mais preocupante é saber que essa destruição não é inevitável. Existem cerca de 33 milhões de hectares de pastagens degradadas ou subutilizadas apenas no Cerrado que poderiam ser recuperadas e incorporadas à produção agropecuária, segundo dados do Atlas das Pastagens da Universidade Federal de Goiás (UFG). Em outras palavras, é possível produzir mais sem derrubar mais vegetação nativa. A falsa escolha entre conservação e desenvolvimento já não se sustenta diante das evidências científicas. O desafio não é expandir a fronteira agrícola sobre áreas nativas, mas tornar mais eficiente e sustentável o uso das áreas já abertas.
Proteger o Cerrado não é uma pauta restrita aos ambientalistas. É uma questão de segurança hídrica, econômica e social. O bioma alimenta algumas das principais bacias hidrográficas do país, garantindo a oferta de água para milhões de brasileiros. Sua degradação ameaça o abastecimento urbano, a produção de alimentos, a geração de energia e o desenvolvimento econômico.
Dia do Meio Ambiente representa chamado à responsabilidade coletiva
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, a reflexão mais necessária é que não podemos medir o sucesso ambiental do país apenas pelos avanços alcançados em alguns territórios enquanto um bioma estratégico continua perdendo sua cobertura vegetal em ritmo alarmante.
O Cerrado não é apenas uma paisagem do interior brasileiro. É a fonte invisível que sustenta grande parte da vida econômica e social do país. Defender sua proteção é defender a água, a produção de alimentos e o futuro do Brasil.
Que o Dia Mundial do Meio Ambiente seja um chamado à responsabilidade coletiva. Porque, se o coração das águas parar de pulsar, todos sentiremos as consequências.
*Yuri Salmona é geógrafo, diretor executivo do Instituto Cerrados e uma das lideranças da Campanha Cerrado Coração das Águas