Reportagem

Dia contra obesidade infantil: doença atinge 16,5 milhões de jovens no Brasil

Projeções indicam que metade dos menores será afetada até 2040; em entrevista, a SBP alerta para os riscos do "ambiente obesogênico" e a urgência de novas políticas públicas

por Luiza Barufi
03/06/2026 às 06:00 · Atualizado há 4 meses
Foto: Freepik

Até 2040, 50% das crianças e adolescentes do país terão sobrepeso ou obesidade se a tendência atual for mantida, projetam os dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026. Atualmente, essa realidade já sufoca o presente de 16,5 milhões de jovens entre 5 e 19 anos — o equivalente a um em cada um cinco brasileiros nessa faixa etária. Quando o recorte foca especificamente nos adolescentes, as notificações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional mostram um cenário ainda mais agudo: um em cada três já apresenta excesso de peso.

Neste 3 de junho, Dia da conscientização contra a obesidade infantil, o debate público deixa de ser uma preocupação estética e passa a focar na urgência da saúde pública.

O prato e a tela: o que mudou na rotina das famílias?

A escalada da obesidade não acontece por acaso; ela acompanha uma transformação profunda na rotina social e econômica do país, tendo como principal motor a mudança radical no padrão alimentar. “Os estudos têm mostrado a troca da alimentação ou a substituição dos alimentos in natura, minimamente processados, preparados em casa, por alimentos ultraprocessados. Hoje, eles representam de 30% a 35% da oferta energética total da população em geral”, explica Fabíola Suano, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A especialista aponta que o problema é multifatorial e envolve um “ambiente obesogênico” difícil de combater de forma isolada, onde as famílias competem com forças desleais do cotidiano moderno:

O sedentarismo digital: a inatividade física está diretamente ligada ao aumento do tempo de tela.

Falta de segurança urbana: a perda de espaços seguros para o brincar livre nas ruas reduziu o gasto energético natural das crianças. “Não estou falando nem de atividade física programada, mas para brincar mesmo”, pontua a especialista.

Apelo comercial agressivo: estratégias de marketing direcionadas ao público infantil sabotam o esforço familiar: “Na Copa do Mundo, por exemplo, o álbum de figurinhas tem uma parte que você só conseguia se comprasse um refrigerante e colasse naquele lugar. A criança nem consumia, mas para completar o álbum, começou a comprar. Esse tipo de estratégia é muito desleal com a criança e com as famílias que lutam todos os dias para promover a saúde coletiva”.

Nos grandes centros urbanos, os ultraprocessados tornaram-se mais baratos e fáceis de acessar do que a comida de feira, penalizando as famílias de baixa renda. Por outro lado, nas faixas socioeconômicas mais altas, o mercado se disfarça com um apelo comercial sofisticado. “Alimentos como barrinhas de cereais e produtos ricos em proteína, que até são ultraprocessados, são considerados saudáveis por populações de melhor renda. Ele se disfarça de características que são importantes”, alerta a médica.

A conta do futuro: a inflamação que sufoca o SUS

Aquilo que muitas famílias ainda enxergam com complacência — o antigo mito de que a criança “acima do peso” é sinônimo de saúde — esconde problemas biológicos de longo prazo.

“O excesso de peso não é só o tecido adiposo hipertrofiado, com acúmulo de gordura maior do que deveria. Ele não é só um tecido de sustentação ou de depósito, ele é um tecido que é inflamado”, detalha a presidente do departamento da SBP. “Quanto mais precoce é a obesidade e quanto mais intensa ela for, maior o risco de o indivíduo vir a se tornar um adulto com as categorias mais graves da doença.”

As consequências dessa inflamação precoce acompanham o indivíduo até a vida adulta, elevando drasticamente o risco de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que hoje são as maiores causas de morte no país. Entre os impactos de curto prazo, que aparecem ainda na infância, e as ramificações crônicas na maturidade, destacam-se complicações como hipertensão, distúrbios metabólicos, colesterol elevado, diabetes e graves eventos cardiovasculares, a exemplo do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular cerebral (AVC).

As doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis por 74% das mortes no Brasil. Grande parte disso está associada à obesidade. “Muitas famílias não entendem isso como doença e deixam passar. O problema é que a obesidade acaba se instalando na família como um todo e a família acaba não vendo a criança com o excesso de peso. Menores desvios são mais fáceis de serem tratados do que quando a condição já está instalada.”

O ato de comer além dos nutrientes

A especialista reforça que a detecção precoce do ganho de peso inadequado deve começar nos rituais de casa e no acompanhamento médico contínuo, como as consultas de rotina no pediatra. Além disso, reestruturar a relação emocional e cultural com a comida é urgente.

“O ato de comer não é só ingerir nutrientes. O comer tem a ver com hábito cultural, tem a ver com preferências familiares. Valorizar a refeição como algo que faz parte do dia a dia e não simplesmente algo que funciona para preencher a barriguinha da criança é importante. A criança aprende isso com o adulto”, pondera a especialista.

Ferramentas para frear o avanço da obesidade

Embora o Brasil possua ferramentas exemplares de conscientização, como o reconhecido Guia Alimentar para a População Brasileira, e regras estruturadas no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) — que limita a presença de ultraprocessados nas merendas públicas —, os dados provam que o aconselhamento isolado não é suficiente para frear a epidemia. De acordo com a SBP, a educação nutricional não vencerá a batalha se não for respaldada por políticas públicas macroeconômicas coercitivas que mexam no bolso da indústria e no bolso do consumidor.

“O guia sozinho não faz verão nem inverno, ele precisa de implantação. Os países que melhoraram seus índices de obesidade foram aqueles que aprimoraram a tributação. Por exemplo, taxando a bebida açucarada para reduzir o preço de alimentos ditos mais saudáveis, controlando severamente a publicidade e propaganda de alimentos direcionadas para criança e estimulando a agricultura familiar. Hoje a gente ainda está precisando muito de políticas públicas que protejam a criança e suas famílias.”

Apesar do sinal de alerta ligado, a nutrologista ressalta que o Brasil ainda consome mais alimentos frescos do que mercados hiperindustrializados como Estados Unidos e Inglaterra, onde 80% do que se consome vem de ultraprocessados. “Não estamos caminhando bem, mas nós temos muita chance de melhorar. Para isso a gente tem uma lição de casa grande aí para fazer ainda.”

O Dia da Conscientização contra a Obesidade Infantil deixa, portanto, um recado fundamental: combater o excesso de peso na infância não é uma escolha de estilo de vida ou uma falha de força de vontade individual.

“A obesidade não é uma escolha. A pessoa não é obesa — ainda mais a criança — porque é preguiçosa ou porque gosta de comer coisas erradas. Viver no ambiente obesogênico que a gente vive, com disponibilidade excessiva de alimentos, menor prática de atividade física, estresse, falta de tempo e falta de sono… Se a gente bobear, qualquer um de nós ganha muito peso. Ela é uma doença da sociedade a ser enfrentada de forma coletiva, e temos que trabalhar junto como cidadãos nesse sentido”, conclui.

PLAYLISTS