Alertas de desmatamento na Amazônia caem 36% e chegam a menor nível da série histórica, diz Inpe
A área sob alerta de desmatamento na Amazônia em 2026 atingiu o menor patamar da série histórica do sistema Deter

A Amazônia registrou o menor índice de desmatamento de sua série histórica recente em 2026. De acordo com os dados consolidados do sistema Deter, divulgados nesta sexta-feira (7/8) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área sob alerta de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026 — período correspondente ao ano fiscal do monitoramento ambiental — caiu para 2.874 km². O índice representa uma redução de 36% na comparação com o ciclo anterior, que contabilizou 4.495 km².
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“Os números apresentados hoje são históricos, fruto de políticas sérias de proteção ambiental, e provam que é plenamente possível cumprir o compromisso assumido pelo país de zerar e reverter o desmatamento até 2030”, disse o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini.
O recuo abre caminho para que o Brasil registre um recorde histórico na diminuição da taxa oficial de desmatamento quando o sistema Prodes, também do Inpe, divulgar suas estimativas consolidadas de fim de ano. Caso a redução de quase um terço observada no monitoramento em tempo real se repita nas imagens de alta resolução do Prodes, o país poderá alcançar a menor taxa oficial de desmatamento desde o início das medições via satélite, iniciadas em 1988.
Redução de emissões e impacto nos incêndios
A redução na perda da cobertura florestal gerou impactos imediatos na agenda climática e ambiental brasileira. Estimativas do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa), do Observatório do Clima, indicam que o desmatamento evitado desde 2023 impediu o lançamento de 2,238 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e) na atmosfera. Essa economia de carbono se equipara ao total bruto de emissões de gases de efeito estufa produzidas por todo o território nacional em um único ano.
Segundo o estudo, a conservação da floresta também mitiga desastres ecológicos locais em períodos de instabilidade climática. Com menor volume de mata derrubada, o acúmulo de material orgânico combustível no solo reduz, o que diminui a probabilidade de incêndios florestais fora de controle, semelhantes aos incidentes severos ocorridos nos anos de 2023 e 2024.
Eficácia dos embargos e tensões políticas
O Observatório do Clima atribui o recuo expressivo dos alertas de desmatamento principalmente ao retorno de políticas públicas focadas na fiscalização de campo. Para a organização, as estratégias operacionais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), com ênfase na aplicação de embargos coletivos de áreas degradadas e de embargos remotos por imagens de satélite, desempenharam papel fundamental nesse cenário.
Em 2026, as ações de fiscalização resultaram no embargo de 350 mil hectares de áreas com desmatamento irregular na região amazônica. Desde o ano de 2023, o monitoramento remoto do Ibama viabilizou o embargo de 815 mil hectares em todo o país — o equivalente a quase metade dos 2 milhões de hectares embargados no Brasil ao longo do período. No agregado do governo Lula três (2023–2026), os alertas de destruição na floresta somaram 19.642 km², com a redução de 41% se comparado ao intervalo de 2019 a 2022, que alcançou 33,4 mil km².
O sucesso dessas medidas, contudo, atraiu contra-ataque de setores do agronegócio e de lideranças políticas regionais. A reação resultou na aprovação, pela Câmara dos Deputados em maio, de um projeto de lei que visa proibir a aplicação de embargos ambientais remotos, proposta que atualmente aguarda tramitação no Senado.
Agronegócio registra alta recorde em meio à preservação
De acordo com um estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP), o PIB do agronegócio brasileiro avançou 12,2% em 2025, impulsionado por um crescimento de 6,76% no volume físico de produção. A pesquisa revelou que o faturamento gerado pelo setor agropecuário escalou de R$ 2,5 trilhões em 2022 para R$ 3,2 trilhões no ano passado.
Desafios no horizonte para o fim do desmatamento na Amazônia
Apesar dos marcos comemorados, o avanço ambiental enfrenta ameaças. No Congresso Nacional, deputados e senadores articulam uma ofensiva que reúne propostas legislativas voltadas ao enfraquecimento do poder fiscalizatório do Ibama, anistia a grileiros de terras públicas, diminuição da extensão territorial de Unidades de Conservação e flexibilização das regras do Código Florestal.
Além disso, contradições internas no próprio Executivo federal colocam a preservação em risco. Em junho de 2026, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), subordinado ao Ministério dos Transportes, concedeu autorização para obras de pavimentação em trechos da rodovia BR-319 (Porto Velho–Manaus) sem a devida conclusão do licenciamento ambiental.
“A redução dos índices de desmatamento é o maior legado ambiental do governo Lula e uma das maiores contribuições dada à agenda de clima nos últimos anos”, afirmou Astrini.
Ele conclui que “o fim da destruição de nossas florestas só será possível com uma grande mudança no Parlamento, além de equacionar contradições dentro do próprio governo”.