Desinformação x imunização: o Brasil ainda é referência em cobertura vacinal?
Dados do Ministério da Saúde apontam recuperação nas coberturas vacinais, mas crescimento de grupos resistentes acende alerta no país

O Brasil reverteu a queda histórica na imunização, mas a desinformação ainda ameaça a cobertura vacinal. Celebrado no mês de junho, o Dia Nacional da Imunização convida o país a olhar para o atual momento da cobertura vacinal. Dono de um dos maiores sistemas de vacinação do mundo — o Programa Nacional de Imunizações (PNI) —, o Brasil sempre foi apontado como o modelo global a ser seguido. No entanto, o avanço das notícias falsas nos últimos anos criou um paradoxo: uma estrutura pública de excelência que, por vezes, patina na adesão popular devido a medos infundados por conta da desinformação.
Para o infectologista Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o cenário atual de cobertura vacinal desenha uma linha tênue entre a superação e a ideologia.
“Estamos caminhando em um cenário de estabilidade das coberturas. Mas hoje enfrentamos o fenômeno da hesitação vacinal, alimentado por grupos antivacina, que antes eram irrelevantes no país e hoje podem representar de 5% a 10% das famílias, incluindo profissionais de saúde. É uma luta constante para manter a confiança, especialmente quando as pessoas não se sentem mais ameaçadas por doenças que as próprias vacinas controlaram”, pondera o médico.
Imunização no SUS contra a desinformação
Apesar dos desafios, os dados mostram que a engenharia do SUS começou a reagir. Em nota enviada à reportagem, o Ministério da Saúde afirmou que reverteu a queda histórica na cobertura vacinal registrada nos anos anteriores, que havia sido agravada pelos impactos da pandemia de Covid-19 e de uma opção política do governo Bolsonaro.
Em 2025, todas as vacinas do calendário infantil apresentaram aumento de cobertura em relação a 2022:
- Tríplice viral: a vacina que protege contra sarampo, caxumba e rubéola chegou a 92,96% de cobertura (ante 80,7% em 2022), mantendo o Brasil livre do sarampo, mesmo diante do avanço de casos na América do Norte.
- Meningocócica ACWY: no caso da meningite, a cobertura passou de 45,8% em 2022 para 67,75% em 2025. O número de crianças protegidas é quatro vezes maior em 2025 na comparação com 2020.
- HPV: a vacinação também avançou significativamente. Entre meninas de 9 a 14 anos, a cobertura chegou a 86,11% (índice cinco vezes superior à média mundial), e entre meninos, a 74,46%. Além disso, 11 estados já atingiram a meta de 90% para o sexo feminino e três estados para o masculino, um resultado crucial para a prevenção do câncer de colo do útero.
O Ministério da Saúde reforça que a desinformação tem impacto direto na adesão aos imunizantes, podendo expor a população a doenças preveníveis. Diante desse cenário, a pasta destaca que segue intensificando políticas públicas, ampliando o acesso à informação qualificada e promovendo campanhas para proteger a saúde dos brasileiros e aumentar a cobertura vacinal.
Desinformação, antivacina e fake news
Embora o debate costume eleger as redes sociais como uma das grandes responsável pela queda na cobertura vacinal, especialistas alertam para transformações na rotina das famílias modernas, às quais o PNI ainda precisa se adequar. Na Atenção Primária — porta de entrada do cidadão ao SUS —, a imunização é o pilar central, oferecendo gratuitamente 49 imunobiológicos (sendo 22 vacinas de rotina). Contudo, acessar esse direito se tornou logisticamente complexo.
“O mundo mudou bastante. Hoje, pais e mães trabalham fora e o número de vacinas e visitas necessárias ao posto no primeiro ano de vida ampliou muito. Cumprir o calendário à risca ficou mais difícil”, explica Kfouri.
O médico argumenta que o sistema precisa parar de “esperar” o cidadão e ir ao seu encontro, adaptando aprendizados da pandemia para recuperar a cobertura vacinal. “Precisamos facilitar o acesso: criar mutirões, vacinar no metrô, em estádios de futebol. Eu defendo, inclusive, que a vacinação dê direito a dispensa do trabalho e transporte gratuito, nos moldes da doação de sangue.”
Outro ponto levantado pelo especialista é a necessidade de ler os índices de cobertura com precisão metodológica para evitar alarmismos. Embora a meta ideal de segurança coletiva seja de 95%, o atraso vacinal no primeiro ano de vida muitas vezes é recuperado aos 2, 3 ou 5 anos, quando a criança retorna ao serviço de saúde. É a chamada “taxa de abandono” sendo corrigida tardiamente ao longo das doses — um dado que as planilhas de cobertura instantânea nem sempre capturam com clareza.
Os perigos da baixa cobertura vacinal
Quando a cobertura vacinal fica abaixo do recomendado, o perigo iminente é a reintrodução de enfermidades já eliminadas.
“O sarampo costuma ser sempre a primeira doença a aparecer, porque é a de mais fácil transmissibilidade. E justamente nesse cenário de controle que nós tivemos, de eliminação do sarampo, as Américas estão vivendo o maior surto das últimas décadas. Então, vigilância, cobertura alta e monitoramento de casos importados são superfundamentais”, alerta Kfouri.
É preciso ainda reforçar a importância da homogeneidade das coberturas: “Não adianta o país ter 95% de média geral se houver microrregiões com 40% ou 50% de adesão”. Esses bolsões de pessoas suscetíveis são a porta de entrada perfeita para surtos locais, o que exige um microplanejamento com estratégias customizadas para cada município.
O desafio da “hesitação convicta”
Se a falha logística afasta os mais vulneráveis por falta de tempo, o excesso de informação também cria um obstáculo. Pais que deixam de vacinar os filhos, em sua maioria, não operam por negligência, mas por um medo fabricado de forma refinada. “Eles estão convictos de que a escolha de não vacinar protege o filho.”
Para conter esse ecossistema, o médico sugere uma postura firme das instituições reguladoras contra desvios éticos na própria categoria: “A responsabilização de profissionais da saúde com discursos antivacina é fundamental. Os conselhos de classe precisam atuar contra esses prestadores de desserviços, cujas atividades são criminosas contra a saúde pública”.
O caminho para o Brasil reaver o título de referência global exige, de um lado, o fortalecimento do letramento científico e da educação para que a população desenvolva um olhar crítico frente ao que consome nas redes sociais; de outro, a flexibilização dos postos de saúde para acolher uma sociedade que já não tem o mesmo tempo de outrora.
O PNI provou em 2025 que tem fôlego para reagir, mas a imunização total do país agora depende de vencer a guerra contra o algoritmo que espalha a desinformação. “Claro que sempre há um espaço para melhora, mas as nossas coberturas estão muito próximas do ideal, o que é uma luta constante. Sempre temos impactos em relação à disseminação de conceitos equivocados, novas famílias e novas crianças nascendo. É a busca diária por manter a confiança”, finaliza o infectologista.