O desafio de comunicar más notícias: 90% dos médicos não se sentem capacitados
Pesquisa revela que a falta de habilidades gera angústia nos médicos, compromete a autonomia dos pacientes e sobrecarrega os leitos de UTI do SUS

Comunicar más notícias para pacientes e familiares é um desafio para 90% dos médicos no Brasil. É o que mostra um estudo publicado na Revista Bioética, realizado com 2.418 médicos candidatos aos programas de residência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Embora a maioria dos entrevistados reconheça o direito do paciente de saber a real gravidade de sua condição, a falta de preparo prático gera angústia, incertezas e resulta frequentemente em uma transmissão ineficaz de informações.
Muito dessa dificuldade se deve à ausência de um treinamento específico durante a graduação médica: aproximadamente 40% dos entrevistados relataram nunca ter recebido qualquer capacitação sobre o tema na faculdade.
Fisioterapeuta, docente universitário e um dos autores da pesquisa, Daniel Antunes Alveno — que atua com cuidados paliativos na Unifesp há cerca de 15 anos — explica que o gargalo começa na própria estrutura do currículo acadêmico.
“As disciplinas tradicionais de ética ou de psicologia médica não dão conta de formar profissionais aptos a comunicar más notícias. E essa é uma função técnica diária do médico: comunicar diagnósticos difíceis, prognósticos ruins e propor tratamentos que, muitas vezes, não são os que gostaríamos de oferecer, mas que são necessários. Para saber o que dizer e como dizer, precisamos de treinamento prático específico.”
Além disso, Alveno desconstrói o mito de que a habilidade de comunicação se desenvolve naturalmente com o passar dos anos na profissão.
“Por muito tempo, acreditou-se que a habilidade de comunicação vinha puramente com a maturidade profissional. Mas a ciência mostra o oposto: os médicos menos experientes costumam ser avaliados por pacientes e familiares como mais empáticos e cuidadosos. Justamente pela insegurança da pouca prática, eles tomam mais cuidado e acabam sendo mais humanos. Comunicação é uma habilidade técnica treinável, assim como qualquer procedimento cirúrgico. Não é um dom inato.”
O estudo: como comunicar más notícias?
A pesquisa consistiu em um estudo transversal do tipo survey (aplicação de questionários). Os dados foram coletados a partir de um questionário autoaplicável elaborado por uma equipe multidisciplinar de especialistas e validado por um estudo-piloto.
A avaliação mediu o perfil sociodemográfico, experiências prévias, percepções éticas sobre a verdade no diagnóstico e o conhecimento técnico do protocolo SPIKES — um roteiro estruturado em seis etapas que orienta a transmissão de informações difíceis na saúde.
Protocolo SPIKES: o desafio de acolher emoções
Embora 65% dos médicos conheçam o protocolo SPIKES — sigla em inglês para as seis etapas que estruturam a conversa: S (setting up, ou preparação do ambiente), P (perception, ou percepção do paciente), I (invitation, ou convite para saber a verdade), K (knowledge, ou transmissão da informação), E (emotions, ou manejo das emoções) e S (strategy, ou estratégia e resumo) —, a etapa “E”, dedicada ao manejo das reações de pacientes e familiares, foi apontada como a fase mais difícil e desafiadora de toda a comunicação.
“Por mais que a gente saiba o que dizer e quando dizer, do ponto de vista técnico, quando envolve a emoção, entra outra habilidade: a de conseguir acolher”, pontua Alveno.
O dado reflete a insegurança do médico em lidar com reações como raiva, medo e choro. Há também o receio infundado de que demonstrar empatia (como oferecer um abraço ou se emocionar junto) possa ser interpretado como fraqueza ou falta de controle profissional.
“A má notícia nunca vai virar uma boa notícia, mas existem formas compassivas de ajudar o paciente a enfrentar aquela condição. Lidar com o medo e a tristeza do outro é uma habilidade que historicamente foi delegada apenas ao psicólogo, o que é um erro. Todo profissional de saúde precisa saber acolher as emoções que aparecem à sua frente todos os dias. Sem treino prático para isso, o médico tende a se sentir perdido quando o paciente desaba.”
Clínicos x cirurgiões: o distanciamento da técnica
O estudo revelou divergências marcantes entre os perfis profissionais. Os candidatos a especialidades cirúrgicas demonstraram um perfil mais pragmático, menor preparo emocional e maior resistência à atuação da equipe multidisciplinar em comparação aos médicos da área clínica.
“Existe uma predisposição dos profissionais de perfil cirúrgico a serem mais frios. Um percentual maior deles respondeu que acha errado chorar ou abraçar o familiar durante uma má notícia. Parece que a ideia da prática cirúrgica distancia o médico do paciente do ponto de vista humano. Há uma visão de que a cirurgia é algo puramente pontual — operar e resolver o aspecto físico —, o que desconsidera as necessidades psíquicas, sociais e espirituais do paciente. É um equívoco que precisa ser corrigido.”
A contradição ética
Outra revelação da pesquisa é o abismo entre o que o médico deseja para si e o que ele pratica com o paciente. Quase 99% dos médicos declararam que, se fossem pacientes, gostariam de receber o diagnóstico diretamente e de forma completa.
Contudo, mais de 30% admitiram que compactuariam com a chamada “conspiração do silêncio” — que consiste em esconder o diagnóstico do paciente a pedido dos familiares. Essa prática, motivada pelo medo de gerar conflitos ou processos judiciais, infringe o Código de Ética Médica e destrói a autonomia do paciente.
“Quase um terço dos médicos comete essa infração sem saber que ela é tecnicamente errada e antiética. Muitos cedem às pressões e ameaças da família por puro despreparo. Essas ameaças de processo quase nunca se sustentam juridicamente; na verdade, elas são apenas sintomas de sofrimento daquela família. Concordar com o silêncio destrói a credibilidade do serviço médico e tira do paciente o direito de tomar decisões sobre a própria vida.”
O impacto no SUS: comunicação falha gera falta de leitos
O impacto de uma má comunicação não é apenas humanitário; ele é financeiro, social e logístico. A incapacidade das equipes de conversar de forma clara sobre limitações terapêuticas e a irreversibilidade de certas doenças frequentemente resulta em distanásia — o prolongamento artificial e doloroso de uma morte inevitável.
“Uma comunicação inadequada gera desperdício de recursos críticos. Vemos com muita frequência pacientes com doenças terminais graves sendo entubados e enviados para a UTI sem indicação clínica real. Eles passam semanas ou meses ocupando leitos de altíssimo custo no SUS e sofrendo de forma desnecessária porque a equipe não soube conversar com a família e explicar que a UTI não traria cura.”
Quando não se usa a comunicação adequada, a família entende os cuidados paliativos como “desistência” ou “abandono”. O resultado é que vagas de UTI acabam ocupadas por pacientes crônicos que deveriam estar recebendo cuidados de conforto em outros setores, impedindo que pessoas com chances reais de recuperação consigam acesso ao leito.
“Esse é um problema crônico e diário nos grandes hospitais”, alerta o especialista.
Como solucionar? A força da equipe multidisciplinar
Como solução para mitigar a sobrecarga dos médicos e humanizar o atendimento, a pesquisa aponta que a responsabilidade da comunicação não deve ser centralizada em um único profissional, mas compartilhada com equipes multidisciplinares (psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas).
“Dividir a responsabilidade não elimina a carga de trabalho de um hospital sobrecarregado, mas alivia o peso solitário das costas do médico e gera confiança mútua. A melhor forma de implementar isso é por meio de discussões multiprofissionais no dia a dia, como os rounds e as visitas conjuntas de leito. É o momento em que a equipe avalia o paciente sob todos os aspectos — físico, emocional e social — e ajuda o médico a tomar a decisão mais humana e adequada.”