Crítico não cura. O que cura é remédio!
Enquanto o curador pode se dar o luxo de apontar os escolhidos, o crítico tem que olhar também aos rejeitados. Um fala só da cura; o outro, também da doença

Há, no Brasil, uma certa confusão entre crítica literária e curadoria literária. Eu, que nasci pobre e fiz do pragmatismo um modo de vida, gosto de simplificar as coisas até que elas caibam nas minhas gavetas, que são bem pequenas. Vamos lá: a crítica literária mostra o processo, já curadoria entrega o serviço pronto. Quando você tem um vazamento em casa, você não quer uma aula sobre hidráulica. Você quer um encanador que faça o serviço. É basicamente a mesma coisa: curadoria lhe entrega a decisão pronta, crítica lhe dá as ferramentas para você decidir sozinho da próxima vez.
Se para você não importam os porquês de um livro ser bom, mas importa muito ele ser de fato bom, você está atrás de curadoria. Se você quer saber por que o personagem disse isso e não aquilo, por que essa editora publicou esse título e não outra, qual o futuro do livro na sociedade de consumo, bem daí o seu papo é com a crítica.
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Crítico que só elogia é encanador que nunca acha o vazamento
Eventualmente a crítica faz inimigos, porque ela nega elogio fácil. E é justamente essa recusa que dá valor ao elogio que sobra. Num mundo onde só existe elogio, elogio vira ruído. E crítico que só elogia é encanador que nunca acha o vazamento. Uma vez um grupo de leitores – indignados por eu ter achado ruim um livro ruim que eles achavam muito bom – pediu que eu nunca mais escrevesse uma linha sobre livro algum, nunca mais. Não adiantou muito.
Para cada revoltado com a opinião de um crítico existem cinco pessoas silenciosamente agradecidas por ter alguém, em algum lugar, que diga a verdade. Não é muita coisa, mas, para quem gosta de literatura, as pequenas coisas – aquelas que cabem nas minhas gavetas – importam bastante.
Numa época em que existem mais livros publicados por ano do que uma vida inteira de leitura daria conta, é sempre bom receber ajuda. O problema nunca foi a curadoria existir; o problema são aqueles que acham que ela pode substituir a crítica literária. Enquanto a curadoria pode se dar o luxo de apontar os escolhidos, a crítica tem que olhar também para os rejeitados. A primeira pode falar só da cura. A segunda tem que falar também da doença.
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