Reportagem

Antes de rivalidade no futebol, grupo terrorista gerou tensão política entre França e Espanha

Atividade do grupo terrorista ETA gerou cobranças e desentendimentos entre França e Espanha

por Weslley Neto
Publicado em 14/07/2026 às 05:57
Comunicado oficial sobre o fim da operação armada do grupo terrorista ETA, realizado em 2011
Comunicado oficial sobre o fim da operação armada do grupo terrorista ETA, realizado em 2011 (Reprodução)

França e Espanha se enfrentam nas semifinais da Copa do Mundo de 2026, em um confronto marcado por rivalidade crescente em campo nas últimas duas décadas. Porém, no século 20, um clima de tensão política se instaurou entre os dois países após a criação de um grupo separatista espanhol.

O ETA (Euskadi Ta Askatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade, em português) foi criado em 1959 no País Basco, importante comunidade autônoma do norte da Espanha. A princípio, tratava-se de um grupo estudantil que se revoltou contra a ditadura imposta por Francisco Franco (que durou entre 1939 e 1975).

Com o passar dos anos, o grupo de estudantes aderiu à luta armada e passou a ser conhecido como a principal organização terrorista da Espanha. O primeiro ataque do ETA ocorreu em 1968, quando três jovens da organização atiraram em um agente da guarda civil espanhola em um posto rodoviário em San Sebastián. O ETA exigia a independência do País Basco.

Entre os anos 1960 e 1970, a França considerava membros do ETA como refugiados políticos em seu território, segundo pesquisa realizada por Marta Sádaba Zuera e Gema Martínez de Espronceda Sazatornil, jornalistas da Universidad de Zaragoza.

A colaboração francesa foi praticamente nula nos primeiros conflitos envolvendo o ETA e o governo espanhol, o que permitiu que o lado francês da fronteira entre os países servisse como uma “base” para o grupo planejar ataques em segurança.

A ditadura franquista fez cobranças públicas ao governo francês, que não colaborava em ações para impedir o crescimento do ETA. O grupo terrorista ganhou força em território espanhol e também no cenário internacional até realizar o seu primeiro atentado de maior impacto. O grupo foi responsável pela explosão do carro do então primeiro-ministro espanhol, o almirante Luis Carrero Blanco, conhecido como o braço direito de Francisco Franco.

“Talvez tenha havido uma falta de cooperação durante a década de 1970 e o início dos anos 1980, quando o ETA foi especialmente agressivo. […] As coisas mudaram rapidamente ainda durante os anos 1980, e houve um compromisso muito claro. Não houve mais refúgio para os integrantes do ETA na França”, analisou Jean-Michel Casa, embaixador francês na Espanha, ao ser questionado sobre o tema durante o Fórum da Nova Economia, realizado pelo governo espanhol em janeiro deste ano.

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Mudança de postura

A França só passou a colaborar no combate ao ETA após a chegada ao poder do presidente François Mitterrand, que governou o país entre 1981 e 1995. Diferentemente de seus antecessores, Mitterrand aceitou organizar grupos antiterroristas em parceria com Felipe González, presidente do governo espanhol a partir de 1982 — sete anos após a transição do governo ditatorial para a retomada da democracia no país.

Com o aval de ambos os presidentes, os GAL (Grupos Antiterroristas de Liberação) agiram diretamente contra os membros do ETA, inclusive cometendo assassinatos, sequestros e prisões — em parcerias com forças policiais locais e até mercenários contratados para combater os terroristas. Diante deste cenário, França e Espanha revisaram seus acordos fronteiriços em 1983, com o intuito de tornar a região mais segura.

A colaboração francesa só aumentou nos anos seguintes, possibilitando que o sul da França deixasse de ser considerado um refúgio do ETA. A parceria com os espanhóis parou de ser apenas policial, envolvendo também áreas jurídicas e de inteligência — possibilitando o julgamento de membros do grupo terrorista que, anteriormente, foram considerados refugiados na França.

O trabalho em conjunto dos países obteve tanto sucesso que, em 2011, o ETA anunciou oficialmente o fim de sua operação armada. Durante o período em que operou, o grupo terrorista foi responsável por 856 mortes, em aproximadamente 3.500 atentados, segundo dados divulgados pela emissora BBC.

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Semifinal da Copa do Mundo

No futebol, franceses e espanhóis disputam nesta terça-feira (14) a terceira semifinal em quatro anos. A Espanha foi responsável pelas eliminações da França na última Eurocopa, em 2024, e na disputa da Liga das Nações, em 2025.

A rivalidade esportiva entre os países ganhou força nos últimos 20 anos. Foram 11 confrontos, com sete vitórias da Espanha, um empate e três vitórias da França. O último jogo em uma Copa do Mundo aconteceu em 2006, na Alemanha, quando os franceses eliminaram os espanhóis nas oitavas de final.

O vencedor do duelo entre França e Espanha enfrentará a seleção que vencer a outra semifinal, disputada entre Argentina e Inglaterra. A final da Copa do Mundo de 2026 está marcada para o próximo domingo (19), às 16h, em New Jersey. Os espanhóis brigam pelo segundo título da competição, enquanto os franceses podem levantar a taça pela terceira vez.

Mas os perdedores das semifinais terão mais um compromisso nesta Copa do Mundo: a disputa pelo terceiro lugar. O jogo está marcado para o sábado (18), às 18h, em Miami.

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