Irã, Trump, Malvinas e racismo contra Mbappé: os conflitos políticos e ideológicos da Copa
Copa do Mundo de 2026 também ficou marcada por conflitos fora dos gramados

A Copa do Mundo de 2026, que terá sua final disputada por Espanha e Argentina no próximo domingo (19), também reuniu embates políticos e ideológicos durante a realização do evento nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Os conflitos envolveram guerras, declarações racistas e até a interferência de um chefe de estado em questões esportivas.
Pedido de Trump após cartão vermelho
Folarin Balogun, atacante da seleção dos Estados Unidos, foi expulso na partida contra a Bósnia após uma entrada imprudente em um adversário. Na sequência do torneio, a equipe, que representou uma das sedes do torneio, enfrentou a Bélgica, pelas oitavas de final da competição.
O próprio Donald Trump confessou publicamente que entrou em contato com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para reverter o cartão vermelho e a anulação da suspensão do atacante dos Estados Unidos, que naturalmente ficaria de fora da partida com os belgas. Sem aprofundar detalhes da decisão, a entidade máxima do futebol anunciou, um dia antes do confronto, que Balogun estava liberado para jogar.
A situação irritou o elenco da Bélgica, que chegou a apresentar uma contestação diante do caso. Em campo, os belgas apresentaram uma postura dominante e venceram os Estados Unidos por 4 a 1. O último gol da partida foi marcado pelo atacante Romelu Lukaku, que provocou o presidente local — atletas belgas reproduziram uma dança feita por Trump em diferentes oportunidades.

Faixa proibida pela Fifa
Nesta quarta-feira (15) foi a vez de a seleção da Argentina fazer uma provocação à Inglaterra após vencer o confronto válido pelas semifinais por 2 a 1. “As Malvinas são argentinas”, dizia o cartaz apresentado pelos jogadores, fazendo referência a um conflito histórico entre os países sobre a disputa do território.
A Guerra das Malvinas aconteceu em 1982 e durou apenas 74 dias. A Inglaterra mandou um exército experiente para garantir o controle da região, enquanto os argentinos optaram por enviar jovens que não tinham vivência em guerras. O conflito terminou com mais de 600 argentinos mortos e desistência do país sul-americano.
O fato jamais foi esquecido pelos argentinos e ganhou ainda mais importância em 1986, quando as seleções se encontraram na Copa do Mundo disputada no México. Na época, Diego Armando Maradona centralizou as polêmicas, marcando um gol com a mão esquerda e, na sequência, driblando cinco ingleses para marcar um dos gols mais bonitos da história das Copas.
Desde então, o clima de rivalidade vem dominando as partidas entre Argentina e Inglaterra. Não foi diferente na Copa do Mundo de 2026. Em uma partida muito disputada no meio-campo, os ingleses até abriram o placar, mas sofreram a virada nos minutos finais. Vencedores em campo, os argentinos, mais uma vez, fizeram questão de lembrar a disputa pelas Ilhas Malvinas.
Antes da partida, a Fifa emitiu uma determinação para que fossem proibidas as entradas de torcedores com qualquer faixa ou cartaz em referência à Guerra das Malvinas no estádio de Atlanta, segundo informações divulgadas pelo site Globo Esporte.
Em seus regulamentos, a entidade não permite manifestações políticas em suas competições.
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Conflito entre Irã e Estados Unidos
As incertezas atrapalharam o planejamento logístico da seleção do Irã, país que manteve conflito com os Estados Unidos até dias antes do início da Copa do Mundo. A base de treinos do país foi estabelecida em Tijuana, no México, apenas no dia 24 de maio. Anteriormente, a previsão era de que a seleção iraniana ficasse em Tucson, no Arizona, nos EUA.
Antes do final do conflito, a embaixada do Irã no México sugeriu publicamente que as partidas da primeira fase fossem disputadas em território mexicano. A ideia não foi aceita pela Fifa. Os iranianos disputaram os jogos em Los Angeles (contra Nova Zelândia e Bélgica) e depois em Seattle (contra o Egito).
A emissão de vistos dos jogadores e de toda a delegação do Irã foi concluída apenas no dia 4 de junho. A viagem da seleção para o México aconteceu apenas dois dias depois, em 6 de junho. A demora gerou preocupações e incertezas nos iranianos, segundo apuração do Globo Esporte. A Fifa teria intermediado um contato entre iranianos e autoridades mexicanas para garantir a emissão dos documentos.
A participação do Irã seguiu prejudicada durante o torneio. Por não obterem a liberação para manter a sua delegação nos Estados Unidos por mais de 24 horas, os iranianos precisaram fazer viagens de chegada e partida nas datas das partidas, aumentando ainda mais o desgaste dos atletas na competição.
Irã, Egito e as manifestações LGBTQIA+
As federações de Egito e Irã pediram à Fifa para que, em respeito à cultura muçulmana, não fossem exibidos qualquer símbolo, representação ou manifestação LGBTQIA+, segundo o portal The Athletic. As seleções se enfrentaram na terceira rodada da fase de grupos da competição.
Mesmo diante do pedido, a Fifa negou qualquer proibição para o jogo. A entidade ressaltou que bandeiras que representam orientações sexuais e identidades de gênero são bem-vindas, desde que seguindo o protocolo usual de entrada aos estádios, segundo nota oficial.
A ideia de criar um “Pride Match” na cidade de Seattle durante a Copa do Mundo existia desde o início da organização do torneio. O comitê da cidade via como uma oportunidade casar a semana do orgulho com o jogo.
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Racismo contra Mbappé
A senadora Celeste Amarilla, do Partido Liberal Radical do Paraguai, publicou comentários racistas sobre Kylian Mbappé após a vitória da França sobre o Paraguai nas oitavas de final da Copa do Mundo.
Amarilla chamou Mbappé de “camaronês colonizado” e afirmou que o atacante fingia ser francês. A senadora também afirmou que o atleta era um “ressentido, arrogante, novo-rico e feio”, insinuando que ele havia crescido em uma selva com macacos.
Os comentários foram feitos nas redes sociais após Mbappé provocar atletas paraguaios durante o confronto entre as seleções.

“Senhora Celeste Amarilla, você é uma mulher desprezível e indigna do seu cargo. Você não representa o Paraguai, país que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição. Com sua imprudência e seu racismo descarado, o mundo inteiro já se esqueceu da trajetória e do esforço histórico que seus jogadores realizaram nesta Copa do Mundo, abrindo caminho para uma mulher incompetente que transmite a pior imagem possível de seu país”, respondeu Mbappé, também nas redes sociais.
“Jamais permitirei que pessoas como ela espalhem seu ódio e racismo pelo mundo”, concluiu o atacante da França. A federação do país europeu também se manifestou sobre as afirmações de Celeste Amarilla, destacando que as falas eram “absolutamente repugnantes e inaceitáveis”.
Restrições de entrada nos Estados Unidos
A aplicação de decretos migratórios severos por parte dos Estados Unidos afetou diretamente atletas e membros de comissões técnicas de nações que estavam sob restrições de viagem (Somália, Haiti, Senegal, República Democrática do Congo e Costa do Marfim, por exemplo).
Um dos casos de maior repercussão envolveu o árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor do continente africano em 2025. Ele foi interrogado durante 11 horas pelas autoridades norte-americanas e teve a sua entrada recusada no país, gerando revolta de organizações internacionais. A Fifa não se posicionou sobre o caso, e Omar retornou para a Somália.
A comitiva da seleção de Senegal denunciou publicamente o tratamento recebido ao desembarcar e passar pela imigração nos Estados Unidos. Segundo o posicionamento oficial, os jogadores foram isolados e forçados a ficarem descalços para vistorias invasivas.
Outro caso de repercussão envolveu o torcedor símbolo da República Democrática do Congo, Michel Kuka Mboladinga. Ele foi convidado pela federação de seu país para acompanhar os jogos da equipe, mas não conseguiu entrar nos Estados Unidos por não ter o visto aprovado.