Reportagem

Como o crime seguiu a digitalização financeira acelerada

Lideranças do setor de pagamentos inteligentes discutiram, no Brasília Tech Summit, riscos e soluções relacionados à digitalização financeira

por Henrique Fregonasse
28/05/2026 às 18:47 · Atualizado há 5 meses
Mesa sobre digitalização financeira e crimes
Mesa sobre digitalização financeira e crimes: especialistas alertam para golpes de engenharia social (foto: Paulo Cerqueira)

A transição acelerada do dinheiro físico para o digital eliminou burocracias, mas também transferiu o crime para a tela do celular, vitimando 15 milhões de brasileiros apenas no último ano. O alerta sobre os riscos inerentes à digitalização financeira foi dado pelo sócio da EXA Renato Ciuchini, durante sua participação no painel “Pagamentos inteligentes e suas infraestruturas: como IA, Pix e tokenização estão redefinindo os meios de pagamento?”. A mesa fez parte da primeira edição do evento Brasília Tech Summit, realizado pelo Amado Mundo nesta quinta-feira (28).

Ciuchini destacou que o grande desafio do setor de pagamentos inteligentes é o avanço dos crimes digitais de engenharia social, uma vez que são crimes que afetam especialmente pessoas de menor conhecimento técnico, mais idosas e mais vulneráveis. Segundo ele, 44 milhões de brasileiros já sofreram algum golpe digital, e 70% desses crimes, em 2025, foram relacionados à engenharia social.

“Existe uma revolução do mundo físico para o digital que, nos meios de pagamento, aconteceu muito rápido. O volume que o Pix cresceu nos últimos anos e a transformação do dinheiro físico para o dinheiro digital foi muito rápida. Só que acho que a população ainda não está preparada para tudo o que pode acontecer do âmbito de crimes”, argumentou.

Leia mais: Relator da IA e do Redata defende ‘lei viva’ para tecnologia e fala de ‘timing’ para data centers

Ciuchini defendeu, contudo, que o problema não é exclusivo do Pix e que é preciso ter cautela para não incorrer em uma demonização da ferramenta. Ele alertou para as ameaças oferecidas pela aplicação de inteligências artificiais a esses golpes, citando que a EXA já mapeou 40 tipos diferentes de golpes de engenharia social.

“O nosso olhar aqui não é só sobre o Pix, é um olhar muito mais amplo. E aí, quando a gente olha para a questão de que 70% dos crimes têm engenharia social, com IA, com deep fake, com tudo que a IA pode fazer, isso pode ficar ainda mais complexo e mais difícil”, complementou.

Vulnerabilidade acompanha digitalização financeira

Sócio da Oliver Wyman, Rogério Panca concordou com o argumento de que não se pode culpar o Pix, mas destacou que a ferramenta, de fato, potencializa a possibilidade de crimes. Ele afirmou que, com sete bilhões de transações mensais feitas pela ferramenta, o modelo de gratuidade, padronização e enforcement regulatório dificultam a fiscalização, principalmente com a instantaneidade da liquidação do pagamento.

“A gente está tirando dinheiro do mundo físico e jogando pro digital. O Pix, como tem um mecanismo de liquidação bruta em tempo real, acaba criando uma vulnerabilidade. O cartão, de alguma maneira, às vezes protege contra o crime, porque a liquidação vai acontecer no futuro, mesmo no caso de débito, eventualmente você consegue, a depender dos procedimentos. Mas o Pix não. É na hora. Isso se espalha rapidamente”, destrinchou.

Em busca de soluções

O sócio da QI Tech Roberto Amaral citou, durante o painel, uma série de medidas de segurança que a empresa costuma tomar buscando a mitigação das potenciais fraudes que ameaçam os pagamentos inteligentes. Ele citou soluções de “liveness”, que englobam uma série de ações automatizadas para identificar a autenticidade da transação. Mecanismos envolvem cobrança de prova de vida em todas as transações Pix, TED e assinatura de documentos, reconhecimento facial, checagem de documentos junto a bases de dados públicas e análises transacionais que identifiquem operações muito destoantes do comportamento padrão do usuário.

“A gente conseguiu construir isso com bastante machine learning, com inteligência artificial, e a gente conseguiu blindar todos os nossos clientes desse tipo de ataque. Eu acredito que a inteligência artificial está aqui principalmente para conseguir fomentar aquilo que nós já desenvolvemos. Então, mitigar risco transacional, risco de fraude, de engenharia social, como também para conseguir construir novas ferramentas transacionais”, destacou.

Também com foco em soluções de segurança, a vice-presidente da Cielo, Renata Daltro, afirmou que a empresa realiza 13 mil transações por segundo e, com isso, já conseguiu identificar e analisar 400 modelos de tentativas de fraude e ataque distintas. A executiva argumentou que a forma como a Cielo estrutura os dados é o que viabiliza a segurança.

Daltro destacou, ainda, que a Cielo tem buscado utilizar a tecnologia para mitigar as vulnerabilidades e ameaças relacionadas aos crimes digitais. Ela destacou a utilização de soluções como links autenticados e a tokenização de ativos como forma de garantir maior segurança para os usuários.

“A gente tem buscado trabalhar onde a tecnologia consegue ajudar a gente a mitigar o máximo possível, principalmente por uma questão de tokenização, pois 100% das nossas transações são tokenizadas, e é um passo para poder ajudar nisso. E o que eu observo, também, é uma resiliência das pessoas. Hoje, 90% dos meus clientes querem que o link tenha autenticação, porque é uma camada de segurança e a venda não não deixa de acontecer. A própria sociedade também quer se sentir segura fazendo aquilo. Então, tem uma questão de cultura aqui de como é que a gente consegue travar uma guerra contra todo o processo de fraude que a gente não sabe”, completou.

PLAYLISTS