Repórter mulher é ‘gata’, enquanto profissional homem é ‘ídolo’: chat da CazéTV na Copa expõe machismo
Levantamento do Reglab analisou comentários do chat na Copa e mostrou como repórter mulher é avaliada pelo corpo, e o homem, pelo trabalho

Eu já sabia, você já sabia, mas agora temos um número pra provar: o mundo do esporte ainda trata repórter mulher e repórter homem de um jeito completamente diferente. O Centro de Pesquisas em Mídia e Tecnologia Reglab debruçou-se sobre 8.981 comentários deixados em 24 vídeos da CazéTV durante esta Copa do Mundo pra descobrir exatamente o que o público fala quando aparece um repórter na tela.
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O centro analisou os três vídeos mais vistos de cada um dos oito profissionais da emissora, sendo quatro mulheres (Fernanda Gentil, Vic Leite, Isa Pagliari e Bárbara Coelho) e quatro homens (João Barretto, Chico Moedas, Fred Caldeira e Diogo Defante). E separou só os comentários dirigidos à pessoa do repórter — não ao jogo nem aos jogadores.
O resultado é de doer. Quando é homem, o comentário é sobre competência. João Barretto foi chamado de “excelente profissional” ao entrevistar Cristiano Ronaldo; Diogo Defante virou “gênio”, “o melhor repórter da Copa”, “ídolo”.
Quando é mulher, o corpo entra na conversa de um jeito que simplesmente não acontece com eles: 18% dos comentários dirigidos às repórteres foram sobre aparência, corpo ou coisa sexualizada. Para os quatro repórteres homens, esse número foi zero. Zero.
E não para por aí. Tem uma variante que só aparece com elas: o comentário que transforma trabalho em paquera. “Ela tá tão na sua”, “deu em cima do jogador para conseguir exclusividade” — como se fazer entrevista fosse flerte, e não profissão. Tem também a pergunta de sempre “qual o nome da repórter?”, que foi feita 30 vezes, mesmo com o nome escrito no próprio vídeo.
Olhando para o recorte de competência, a diferença continua. De cada 100 comentários que elogiam o trabalho em si, 66 vão para os homens e só 34 pras mulheres. E, quando o tom do assunto é camaradagem, zoeira, ídolo (aquele clima de torcida que a gente cria com quem admira), 84% vão para os homens e só 16% pras mulheres.
Mas também me chamou a atenção que esta Copa bateu recorde de mulheres na cobertura. Entre influenciadores credenciados, 74% eram mulheres, segundo um levantamento da BrandLovers. Nas cabines de transmissão, o número também cresceu, tanto na Globo quanto na CazéTV. Só que, na reta final do torneio, entre as quartas de final, semifinais e final, só sobrou homem nas cabines. E, coincidência ou não, o número de comentários sobre a aparência deles? Zero, de novo.
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Mas antes que você ache que é só balde de água fria, tem uma notícia boa no meio disso: o próprio chat está cobrando. O Reglab encontrou o público reagindo em tempo real ao comportamento machista. No vídeo de um repórter homem sem formação em jornalismo, celebrado pelo público, um espectador escreveu: “Pq é homem. Quando falaram que uma mulher ia ser repórter da Copa sem faculdade de jornalismo, foi crucificada.” Em um vídeo de uma repórter mulher, outro comentou: “Por que os homens se sentem no direito de assediar uma mulher que só está fazendo seu trabalho?” E, ainda: “Ah, se fosse um homem repórter…”.
Esse tipo de comentário, que contesta a objetificação em vez de praticar, apareceu em cerca de 9% dos comentários dirigidos às repórteres. Longe de ser a maioria, mas é sinal de que uma parte da audiência já não deixa passar batido.
Falta menos de um ano pra Copa aqui no Brasil, com o país inteiro de olho na cobertura. E a pergunta que fica não é se vamos ter mulheres trabalhando no futebol — isso já é fato consumado. A pergunta é se a gente vai finalmente aprender a olhar pra elas do mesmo jeito que olha pros homens. Pelo trabalho, e não pelo corpo.