Com seus celulares, Vorcaro ignorou ‘lições’ da Odebrecht que complicaram até o FBI
Conteúdo dos celulares de Vorcaro complica sua delação, enquanto Odebrecht geria pagamentos com sistema sofisticado e informações criptografadas

O modo descuidado com que Daniel Vorcaro fazia suas negociações e acertos não-republicanos se tornou o maior obstáculo ao ex-banqueiro para conseguir fechar uma delação premiada. Ao se aprofundar em somente parte dos diversos celulares de Vorcaro apreendidos, afinal, a Polícia Federal já conseguiu mapear com clareza algumas de suas peripécias, registradas em mensagens e documentos. “Competindo” com esse conteúdo, o empresário terá de oferecer informações qualificadas se quiser passar menos tempo na cadeia.
A falta de cuidado do ex-banqueiro, que deixou para os investigadores um rastro considerável de provas, contrasta com a sofisticação da Odebrecht, cujos 77 delatores balançaram a política brasileira há dez anos.
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A empreiteira tinha nada menos que um setor destinado somente ao pagamento de propinas, o “setor de Operações Estruturadas”. O departamento usava dois sistemas, os famosos Drousys e MyWebDay, para registrar as entregas de dinheiro sujo e promover a comunicação entre os responsáveis pelo serviço — tudo mediante apelidos, codinomes e contrassenhas.
O acesso ao conteúdo não era trivial. As informações ficavam em servidores na Suíça, devidamente trancados com criptografia e códigos alterados diariamente. Em 2017, conforme noticiou o repórter Jamil Chade, o FBI respondeu a um pedido de ajuda da PGR com um dado que faria Vorcaro corar por seu estilo mambembe: com toda sua tecnologia, os americanos levariam 103 anos para quebrar as camadas de proteção dos servidores da Odebrecht.