Mês do Orgulho LGBTQIA+: o que se celebra e pelo que se luta?
O arco-íris tem duas faces: o orgulho entre a celebração da diversidade e o custo real da exclusão

Junho chega e as vitrines mudam. O comércio se veste com as cores da bandeira LGBTQIA+, os monumentos mundo afora ganham iluminação especial e as marcas correm para atualizar seus logotipos. É o Mês do Orgulho LGBTQIA+, um período legítimo de celebração da diversidade, visibilidade e das duras conquistas que nos trouxeram até aqui, com o seu ápice em 28 de junho, o Dia Internacional do Orgulho. Mas basta um rápido mergulho nos dados reais para perceber que, enquanto as redes sociais se enchem de cor, as estatísticas continuam dolorosamente monocromáticas.
O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos e violência contra a população LGBTQIA+. O país ocupa a primeira posição tanto no número total de mortes violentas dessa população quanto nos índices específicos de assassinatos de pessoas trans e travestis. Falar de sexualidade nunca foi apenas sobre quem a gente ama ou deixa de amar entre quatro paredes. Deveria ser. Mas não é.
Por isso, ao longo dos últimos seis meses nesta coluna, discutimos como os rótulos se transformam, como as novas gerações estão chacoalhando velhas estruturas e como o prazer é uma construção individual, cultural e social. Defendemos a educação sexual para que, no futuro, esses termos importem cada vez menos. Mas a realidade bate à porta com violência e nos lembra: em um país que nos mata no topo das estatísticas, falar de amor, corpo e desejo é, inevitavelmente, falar de política.
O peso do custo econômico (e humano)
A exclusão tem um preço — e ele é astronômico. Um estudo recente do Banco Mundial revelou que a discriminação de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho brasileiro provoca uma perda anual estimada em R$ 94,4 bilhões, o equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Estamos falando de um público que enfrenta índices muito mais altos de desemprego, inatividade e trabalho informal.
Quando barramos o talento, o afeto e a força de trabalho por puro preconceito, não é apenas a dignidade do indivíduo que é violada; a sociedade inteira empobrece.
Se por um lado celebramos novas formas de vivência e fluidez — como o crescimento de 193% na busca pelo termo heteroflexibilidade, que nos faz questionar se estamos expandindo horizontes ou apenas criando nomes mais confortáveis para evitar estigmas —, por outro, falhamos no básico. E o básico é garantir a sobrevivência e o bem-estar mental de quem tenta apenas existir.
Esse cenário de conquistas sob constante ameaça se reflete no relatório global da Ipsos sobre o Orgulho LGBT+ de 2026, que aponta uma estabilização das atitudes em 26 países, mas também uma forte reação contrária de pautas conservadoras. Embora o apoio ao casamento homoafetivo siga firme em países como Holanda (80%) e Espanha (74%), ele desaba para 16% na Turquia, evidenciando abismos regionais profundos.
Interseccionalidade: não existe hierarquia da dor
Não existe saúde mental sem saúde integral e sem atendimento humanizado nos serviços públicos. Os indicadores elevados de depressão, ansiedade, abuso de substâncias e risco de suicídio na nossa comunidade não nascem do nada. Eles não são inerentes à nossa identidade; são o resultado direto de um combo perverso de rejeição: violência verbal e física, discriminação crônica, exclusão familiar e portas fechadas no mercado profissional. É impossível analisar o todo sem olhar para a interseccionalidade que cruza gênero, raça e classe.
E há ainda o envelhecimento, um privilégio em que mesmo a população heterossexual enfrenta desafios. Muitas vezes afastadas dos vínculos familiares biológicos e sem terem formado famílias nos moldes tradicionais, as pessoas LGBTQIA+ enfrentam a velhice sob o signo da solidão e da falta de uma rede de suporte social estruturada. Envelhecer com dignidade é um direito humano básico, mas para nós, no Brasil, chegar à terceira idade ainda é um privilégio de poucos e uma linha de chegada incerta.
Celebrar o Mês do Orgulho LGBTQIA+ é vital. Ocupar as ruas com nossos corpos, nossas vozes e nossas cores é um ato de resistência necessário. Mas que em junho — e nos outros 11 meses do ano — a gente não esqueça de que a verdadeira emancipação só acontece quando o arco-íris deixar de ser apenas uma campanha temporária de marketing e se transformar em política pública perene, acolhimento familiar e carteira assinada.
Como Angela Davis tão certeiramente nos anunciou, “a liberdade é uma luta constante”. Liberdade para os corpos, para os desejos e para a desobediência pacífica das normas de gênero que nos são impostas num mundo que já existe pronto quando nascemos. Lutamos para que, muito em breve, não exista mais a necessidade dolorosa de “sair do armário”, mas sim o direito pleno, fluido e inegociável de apenas ser.