Bastidores do caso Henry Borel: a apuração além do tribunal
Justiça do Rio vive o desfecho do julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e Monique Medeiros, acusados da morte do menino Henry Borel, 4 anos

Na madrugada de 8 de março de 2021, o Rio de Janeiro e o Brasil foram confrontados com um dos crimes mais brutais e chocantes da história recente do país: a morte de Henry Borel Medeiros, de apenas 4 anos. O menino deu entrada em um hospital da Barra da Tijuca já sem vida, levado pela mãe, a professora Monique Medeiros, e pelo então padrasto, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho. A versão inicial apresentada pelo casal, de que a criança teria sofrido um acidente doméstico e caído da cama, desmoronou em poucos dias diante da investigação policial.
O laudo do Instituto Médico Legal (IML) foi o primeiro divisor de águas do caso, apontando categoricamente que Henry morreu em decorrência de hemorragia interna e laceração hepática provocadas por ação violenta. O corpo do menino apresentava 23 lesões graves, incompatíveis com qualquer queda de mobiliário residencial. A farsa foi sepultada definitivamente quando a Polícia Civil, por meio de softwares forenses, recuperou mensagens de WhatsApp apagadas do celular da babá da criança. Os textos revelavam que Henry vinha sendo torturado por Jairinho semanas antes e que Monique tinha pleno conhecimento da violência, tendo inclusive ignorado os alertas desesperados do filho.
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O perfil dos envolvidos acrescentou uma camada extra de indignação pública ao caso. Dr. Jairinho era uma figura influente na política carioca, exercendo seu quinto mandato consecutivo na Câmara Municipal e ostentando o peso de uma família com fortes raízes de poder na Zona Oeste do Rio. À medida que o inquérito avançava, ex-namoradas do parlamentar romperam o silêncio e revelaram que seus próprios filhos também haviam sido trancados em quartos e agredidos pelo médico anos antes, revelando um modus operandi antigo. Do outro lado, Monique passou a ser acusada de homicídio por omissão, sob a tese de que escolheu fechar os olhos para o sofrimento do filho em nome do padrão de vida luxuoso que o relacionamento lhe proporcionava.
A Lei Henry Borel
Jairinho teve seu mandato cassado por unanimidade pelos colegas de plenário, e Monique foi formalmente demitida de seu cargo no funcionalismo público municipal. Para além das punições administrativas, a tragédia gerou comoção nacional e mobilizou o Congresso a aprovar a Lei Henry Borel, que tornou o homicídio de menores de 14 anos um crime hediondo e endureceu os mecanismos de proteção ao redor da infância.
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Após cinco anos de uma longa batalha jurídica marcada por recursos, manobras de bastidores e adiamentos das defesas, o caso atinge seu ápice com a realização do julgamento pelo Tribunal do Júri no Rio de Janeiro – que chegou ao seu oitavo dia. Se o noticiário diário se ocupa do embate jurídico e dos depoimentos em plenário, compreender a engrenagem que levou àquela madrugada exige recuar no tempo. É o que mostra o livro “Caso Henry – Morte Anunciada” (Editora Máquina de Livros), escrito pela jornalista Paolla Serra.
Cobrindo o caso desde o primeiro dia pelo jornal O Globo, Paolla mergulhou em mais de 1.500 páginas de documentos e 50 mil arquivos digitais, além de realizar cerca de 200 entrevistas, para traçar o perfil dos réus e o histórico de violência que antecedeu o crime.
Em entrevista ao Amado Mundo, Paolla Serra analisa os bastidores da apuração, os limites éticos para narrar a violência e o papel do livro diante do veredicto.
Leia a entrevista na íntegra
A cobertura diária de um crime dessa magnitude na imprensa costuma ser muito fragmentada e focada no choque. Em que momento da sua apuração você percebeu que o factual não dava mais conta e que a história do Henry precisava do fôlego de um livro para ser explicada?
O julgamento de Jairinho e Monique está acontecendo esta semana no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) — e é impossível não pensar em como chegamos até aqui. A cobertura diária de um caso dessa magnitude é necessária, mas ela opera no imediato: o que aconteceu, quem disse o quê, qual será o próximo passo da investigação. O que ela não consegue fazer, pelo menos não no ritmo do noticiário, é mostrar o conjunto. Quem eram essas pessoas antes daquela madrugada? O que veio antes de Henry? Foi essa pergunta que tornou o livro necessário.
Me aprofundei nos bastidores, na vida dos protagonistas dessa história — há no livro detalhes sobre a trajetória pessoal e profissional de cada um deles, as escolas que frequentaram, as notas que tiraram, os relacionamentos anteriores, os caminhos que os levaram àquele apartamento. A história que precisava ser contada começava muito antes de 8 de março de 2021.
O grande trunfo do livro é mapear o modus operandi do Jairinho e a omissão da Monique muito antes daquela madrugada. Como foi reunir essas informações dispersas e costurar a cronologia do passado deles sem deixar que a narrativa ficasse parecendo um anexo do processo judicial?
Havia muita informação dispersa — em boletins de ocorrência, laudos médicos, prontuários hospitalares, depoimentos de diferentes pessoas que cruzaram a vida do casal. O trabalho foi reunir e organizar esse material para entender o que havia acontecido antes. Reconstituir essa cronologia exigiu analisar mais de 1.500 páginas de documentos, 50 mil arquivos digitais e realizar cerca de 200 entrevistas ao longo de oito meses. Todo esse material está no livro. A conclusão cabe ao leitor — e, nesta semana, ao júri do maior julgamento da história do TJRJ.
Escrever sobre crimes reais exige fazer escolhas narrativas duras, principalmente sobre o que omitir para não cair no sensacionalismo. Qual foi o seu principal limite ético e editorial na hora de descrever a rotina de agressões sofridas pelo Henry?
O primeiro guia foi o documento. Cada informação que entra no livro tem lastro — um depoimento, uma mensagem, um laudo, um prontuário. Henry tinha 4 anos e sua morte provocou uma dor coletiva — a sociedade queria saber o que havia acontecido naquele apartamento. Havia uma fronteira clara: narrar o suficiente para que o leitor entendesse a dimensão do que estava em julgamento, sem transformar o sofrimento de uma criança em espetáculo. O segundo guia foi a imparcialidade. O livro apresenta documentos, relatos e evidências, e há espaço para as versões de todos os envolvidos. Quem lê tem acesso às contradições, às inconsistências e também às explicações que cada um ofereceu.
No livro, você traz à tona a rede de influência do Jairinho na Zona Oeste do Rio. Qual foi o tamanho da resistência ou do silêncio que você enfrentou nas fontes de bastidores quando começou a mexer nesse vespeiro que ia além do crime doméstico?
O silêncio foi, em muitos casos, mais eloquente do que qualquer declaração. Há pessoas que tinham conhecimento de episódios anteriores e, por razões diversas, preferiram não falar — ou falaram menos do que sabiam. O livro contextualiza o ambiente político em que o caso se desenvolveu: Jairinho era um nome conhecido nas instituições, médico, com cinco mandatos consecutivos como vereador, filho do Coronel Jairo, deputado estadual — uma família com raízes profundas na Zona Oeste do Rio e uma rede de relações consolidada.
A dificuldade maior foi reunir informações enquanto o processo ainda estava em curso e os envolvidos, em liberdade. À medida que a investigação avançou e o processo se aprofundou, algumas fontes foram gradualmente se dispondo a falar com mais detalhe — o que é natural em casos dessa natureza.
Quase cinco anos após o crime e com o julgamento em curso, qual peça daquela dinâmica familiar e de poder você sente que a opinião pública ainda custa a compreender e que a sua investigação tentou deixar evidente?
A complexidade da situação de Monique. A pergunta que as pessoas fazem com mais frequência é: como uma mãe deixa isso acontecer? É a mesma que sempre me angustiou mais do que qualquer outra nesse caso — mais até do que a suposta participação de Jairinho. Ele era parlamentar democraticamente eleito — uma figura pública com um histórico que o livro reconstrói. Monique era a mãe. E essa distinção, para mim, nunca foi simples de encarar.
O que os documentos mostram — as mensagens com a babá, a carta escrita na prisão — é uma mulher cuja versão dos fatos o livro apresenta sem filtro, para que o leitor possa avaliá-la por conta própria. O livro não está ali para condenar nem para absolver. Está ali para oferecer contexto — e esse contexto, esta semana, importa mais do que nunca.