Reportagem

Canetas no SUS: corrida à rede pública avança com desconto até 90%

Governo aciona a Conitec para liberar canetas após queda de preços; processo exige até 270 dias de análise e prevê acesso a público restrito

por Luiza Barufi
Publicado em 03/10/2026 às 05:55
Governo federal projeta orçamento de R$ 1,5 bilhão ao ano para disponibilizar canetas injetáveis no SUS
Ministério da Saúde avalia incorporar canetas no SUS a partir de 2027 para pacientes com obesidade grave (Fernando Frazão- Agência Brasil)

As chamadas canetas no SUS podem se tornar realidade na rede pública a partir de 2027, com descontos de 80% a 90% em relação aos preços do mercado privado. A estimativa é do Ministério da Saúde, que projeta um orçamento de cerca de R$ 1,5 bilhão por ano para bancar o tratamento gratuito contra a obesidade no SUS para um público prioritário formado por pacientes com obesidade mórbida (grau III) e histórico de falha terapêutica, candidatos na fila da cirurgia bariátrica ou pessoas com alto risco de eventos cardiovasculares graves.

Na corrida das canetas que pretendem ingressar no Sistema Único de Saúde para tratar diabetes e obesidade, a comunidade médica rejeita o rótulo popular de “emagrecedores milagrosos”. Segundo o médico endocrinologista Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o tratamento da obesidade é uma terapia de longo prazo para uma doença crônica complexa, voltada a controlar riscos graves e melhorar a qualidade de vida.

“O tratamento farmacológico deve perdurar por anos. Opções terapêuticas que levam a perdas de peso semelhantes não necessariamente são equivalentes, e a abordagem clínica visa reduzir o impacto de complicações severas ao longo do tempo”, pontua o especialista.

Leia mais: Para acelerar inclusão de canetas emagrecedoras no SUS, Saúde pede análise da Conitec

A previsão da oferta para 2027 leva em conta os prazos legais de até 270 dias para a avaliação técnica da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e mais 180 dias para a distribuição logística após eventual aprovação governamental. O plano avançou após uma ofensiva regulatória conduzida pela pasta em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que barrou a prorrogação de patentes, estimulou a concorrência e derrubou o valor das formulações nas farmácias em cerca de 70% em menos de um ano.

Diante do novo ambiente produtivo, o governo formalizou, nesta semana, um pedido na Conitec para avaliar a oferta de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida. “Fizemos uma série de ações que favorecem um novo cenário. Barramos a tentativa de prorrogação da patente, viabilizamos a produção nacional e chamamos fabricantes a registrar novos produtos no país. Conseguimos ampliar o acesso. Deixou de ser só para ricos”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em comunicado no site da pasta.

Segundo ele, o ganho de escala nas compras públicas viabiliza a conta fiscal: “Na farmácia, o preço já está 70% mais barato. Quando você pensa na escala de compras do SUS, com produção local, isso nos traz a possibilidade de uma redução de 80% a 90% do preço. Estamos projetando que, a um custo de R$ 1,5 bilhão ao ano, a gente consegue trazer esses produtos e incorporar no SUS”.

Como será a incorporação das canetas no SUS

O Ministério da Saúde ressalta que a incorporação será conduzida com cautela e sob protocolos clínicos restritivos, sem distribuição indiscriminada. “Quando a gente fala em incorporar ao SUS, não estamos falando de incorporar um milagre estético. Estamos falando de incorporar uma medicação que, combinada com outras ações de alimentação e atividade física, certamente poderá ter um impacto muito positivo, inclusive nos custos do sistema de saúde. Vai reduzir o volume de cirurgias bariátricas, de internações por doenças cardiovasculares e de internações por recidiva de câncer”, pontuou Padilha.

O respaldo técnico do projeto ancora-se na diretriz global da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgada no fim de 2025, que defende o acesso equitativo a terapias com agonistas de GLP-1 integradas à atenção primária para conter o avanço do sobrepeso. No Brasil, a prevalência de obesidade na população adulta subiu de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.

Para estruturar o acompanhamento multidisciplinar obrigatório de estilo de vida, a pasta credenciou 582 polos do programa Academia da Saúde em 448 municípios, destinando R$ 80,7 milhões para a contratação de nutricionistas, fisioterapeutas e profissionais de educação física.

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Testes práticos no SUS: o estudo Real-Bari

Para calibrar a eficácia e o impacto financeiro da terapia antes de uma distribuição nacional em massa, a rede pública já conduz testes de mundo real. No Rio Grande do Sul, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), instituição 100% vinculada ao SUS em Porto Alegre, desenvolve o estudo clínico Real-Bari.

A pesquisa acompanha 250 pacientes com obesidade grave que aguardam na fila da cirurgia bariátrica, utilizando canetas injetáveis de semaglutida combinadas a suporte nutricional e metabólico. O objetivo do projeto piloto é medir a redução do risco cirúrgico, o percentual de pacientes que conseguem evitar a operação definitiva pelo controle farmacológico e os custos assistenciais envolvidos, gerando dados práticos para balizar as futuras diretrizes do Ministério da Saúde.

Padilha apresentou os resultados preliminares observados no primeiro voluntário atendido pela iniciativa: “O primeiro paciente que recebeu essa medicação pelo SUS estava na fila da cirurgia bariátrica. Ele já perdeu seis quilos e reduziu a circunferência. E o que é mais legal: ele conta que já mudou os hábitos de vida. Começou a ajudar a mãe em casa, a sair de casa e a fazer atividade física”.

Para o coordenador Paulo Miranda, a chegada de fármacos potentes modifica a conduta médica especialmente para quem tem IMC acima de 35 e aguarda procedimentos invasivos. Embora a cirurgia mantenha papel relevante no tratamento da obesidade severa, o especialista pontua que resultados expressivos de redução de peso por via medicamentosa abrem espaço para reavaliar a necessidade cirúrgica em perfis selecionados de pacientes acompanhados no longo prazo.

O rito da Conitec e o histórico de análises

O protocolo formal deflagra os prazos da Lei Federal nº 12.401/2011, que estipula até 180 dias regimentais (prorrogáveis por mais 90) para a manifestação da Conitec, além de 20 dias de consulta pública aberta à sociedade civil. Após a eventual publicação da portaria no Diário Oficial da União, as áreas técnicas do SUS dispõem de até 180 dias para pactuar o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), calcular os tetos de compra na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e organizar a cadeia logística de frio.

O histórico da comissão, no entanto, mostra a complexidade do tema: atrasos de anos em diferentes etapas desse processo acabam freando a oferta de medicamentos que já deveriam estar incorporados na prática.

Em resposta oficial, o Ministério da Saúde informou que a Conitec já concluiu a avaliação de quatro pedidos de incorporação envolvendo liraglutida e semaglutida, cobrindo subgrupos como pacientes com obesidade, pré-diabetes, alto risco de doença cardiovascular e prevenção de infartos e AVCs. Há ainda uma quinta demanda em tramitação técnica. Os pareceres anteriores destacaram a necessidade de cautela fiscal em virtude da alta prevalência da doença e da dependência de uso continuado.

Enquanto a incorporação ampla não se concretiza, a judicialização gera despesas fragmentadas à União: entre 2024 e 2026, os depósitos judiciais e aquisições federais diretas para atender a liminares de liraglutida e semaglutida somaram R$ 465.327,73.

Concorrência nacional e semaglutida a R$ 10 ao dia

A abertura das discussões no governo coincide com uma guinada histórica no mercado farmacêutico nacional. Até 2025, o fornecimento desses medicamentos no país era restrito a importações de multinacionais, com preços elevados e episódios de desabastecimento. Após a expiração de patentes e um chamamento conjunto do Ministério da Saúde e da Anvisa para atrair produtores locais, o número de opções disparou.

Levantamento da agência reguladora aponta que, dos 27 registros concedidos na história para agonistas de GLP-1 (fármacos que imitam o hormônio da saciedade) e duplos agonistas (moléculas mais novas que combinam a ação de dois hormônios, o GLP-1 e o GIP), mais da metade — 14 registros comerciais — foi chancelada ao longo de 2026. A fila da agência segue com 12 processos em fase de análise técnica e outros nove pedidos de semaglutida aguardando início de avaliação.

Impulsionada pela expiração das patentes dos medicamentos de referência, a fabricante nacional EMS lidera a oferta no varejo e confirmou dispor de plataforma própria de biotecnologia no país voltada à síntese de peptídeos — moléculas que reproduzem hormônios metabólicos para estimular a sensação de saciedade e regular a insulina no organismo. Por meio de programa de fidelidade, a farmacêutica disponibiliza o Ozivy (semaglutida) a R$ 333 por unidade no combo de três canetas, fixando o custo diário em cerca de R$ 10 e derrubando as faixas históricas do setor, que superavam R$ 1.000 mensais no produto de referência.

Os dados da Anvisa apontam que quase a totalidade das novas semaglutidas nacionais e genéricas autorizadas em 2026 — a exemplo de Ozivy, Yluméc, Zempneo, Semaclique e Orsema — foi registrada formalmente com indicação restrita a Diabetes Mellitus tipo 2. Isso significa que, na prática médica e regulatória, quem recorre a essas versões para controle crônico de peso realiza um tratamento em caráter off-label. Para a indicação primária de obesidade em bula, as opções vigentes seguem circunscritas a formulações de referência como Wegovy e Saxenda, além do Mounjaro (tirzepatida) e do Olire (liraglutida).

Indústria de inovação defende novos modelos de compra pública

A política de descontos compulsórios negociada pela Saúde encontra resistência nos laboratórios de pesquisa. Questionado sobre a sustentabilidade do fornecimento ao SUS, o presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Renato Porto, avaliou que a entrada de genéricos e biossimilares após o vencimento de patentes é uma etapa “orgânica e saudável do ciclo de vida”, mas defendeu a superação de descontos unicamente lineares — modelo tradicional de compra governamental que se limita a impor um percentual fixo de desconto em tabela sobre o preço de fábrica.

A entidade propõe que a Conitec estruture modelos de compartilhamento de risco, vinculando os pagamentos governamentais aos resultados clínicos obtidos e à economia gerada com a redução de internações cardiovasculares. “O impacto orçamentário é uma dimensão importante para a sustentabilidade do SUS, mas não deve ser analisado de forma isolada. É fundamental considerar o valor em saúde gerado por uma inovação, incluindo seus benefícios clínicos e a capacidade de evitar complicações crônicas”, sustentou Porto.

A Interfarma cita ainda os gargalos de acesso no pós-registro. Segundo dados do estudo FIFARMA Patient W.A.I.T. 2026, apresentados por Porto, o Brasil leva em média 25 meses para aprovar uma nova molécula na Anvisa — abaixo da média regional de 36 meses —, mas acumula outros 41 meses até que o produto esteja de fato disponível nas prateleiras e nos hospitais. No total, a espera atinge cerca de 66 meses (5,5 anos) entre a aprovação global e a chegada ao paciente brasileiro.

Como exemplo, o próprio histórico das canetas no SUS ilustra esse funil: embora a Anvisa tenha aprovado o uso da liraglutida em 2016 e da semaglutida em 2018, o fornecimento regular na rede pública permaneceu travado nos anos seguintes por quatro pareceres desfavoráveis na Conitec e indefinições orçamentárias. No SUS, o filtro é rigoroso: das 216 moléculas inovadoras analisadas pelo levantamento no país, apenas 61 alcançaram distribuição na rede pública.

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