Reportagem

Candidatas negras das periferias tentam driblar falta de recursos e de espaço

Total de mulheres pretas e pardas concorrendo a deputadas federal e estadual em São Paulo caiu de 12% em 2022 para 10% em 2026

por Jacqueline Maria*, Júllia Zequim*, Laura Sales*
28/09/2026 às 17:14 · Atualizado há 2 semanas
Da esquerda para a direita, Keila Pereira (PCdoB), Thayssa Oliveira (PSol), Stephany Figueiredo (Missão) e Sára Zara (Avante). Créditos: divulgação

Quando a candidata a deputada estadual Keila Pereira, 29 anos, sai em busca de votos por Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, ela conta com apoio de moradores da região para fazer a campanha. Concorrendo pelo PCdoB, ainda depende de voluntários e de pequenas doações para colocar a candidatura na rua e nas redes. Essa é a realidade de diversas candidatas negras do país.

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Neste ano, uma vaquinha online foi essencial para evitar a interrupção dos anúncios nas redes sociais, enquanto o recurso eleitoral do partido ainda não havia chegado. “A gente depende muito das pessoas que acreditam nesse projeto, que somam forças.”

Transformar uma candidatura em uma campanha competitiva é um desafio também para outras candidatas negras das periferias da Grande São Paulo, de diferentes espectros políticos. Entre os obstáculos estão acesso a recursos, apoio do partido, racismo, machismo e a necessidade de conciliar trabalho e cuidados familiares com a disputa eleitoral.

Essas barreiras ganham peso em uma eleição na qual a participação de mulheres negras entre os candidatos no estado de São Paulo diminuiu. Em 2022, pretas e pardas eram 12% das candidaturas a deputado federal e estadual em São Paulo. Neste ano, são 10%, ou 268 candidatas, mostram dados da Justiça Eleitoral levantados pela Agência Mural. 

Quando se analisa o número total de mulheres candidatas ao Legislativo, independentemente da raça, o total passou de 32,7% em 2022 para 33,4% em 2026. O percentual não é um acaso: os partidos são obrigados por lei a lançar ao menos 30% de candidaturas de mulheres. 

Dinheiro para chegar aos eleitores

Em Carapicuíba, na Grande São Paulo, a professora Eliana Fernandes Conceição, 46, também enfrenta dificuldades para financiar sua candidatura a deputada federal pelo Solidariedade. Ela afirma ter organizado a campanha com R$ 90 mil prometidos pelo partido, mas diz que o atraso no repasse deixou pagamentos da equipe pendentes. Até o fechamento da reportagem, ela havia recebido 30% do prometido.

“Hoje sou uma candidata que está devendo. Estou com todo o meu pessoal ainda para receber”, afirma. 

Para tentar dar conta dos custos, Eliana trabalha como professora e faz jornadas extras em uma clínica estética. Chegou a cogitar vender o carro, mas desistiu. Segundo ela, a falta de recursos interfere principalmente na capacidade de divulgar a candidatura e torná-la mais competitiva.

Aline Torres, 40, que é ex-secretária municipal de Cultura de São Paulo e concorre a deputada estadual pelo PSD, recebeu R$ 1,15 milhão entre fundos públicos e doações – valor igualmente distribuído a todos os candidatos do partido, homens e mulheres. Apesar do financiamento elevado, ela reforça que a desigualdade de verba é uma barreira para as mulheres pretas.

Isso porque candidaturas negras sem estruturas políticas consolidadas têm dificuldade para competir com grupos que acumulam recursos e presença eleitoral.

A dimensão geográfica do estado de São Paulo amplia o desafio. Deslocamentos, pagamento de equipes em diferentes municípios e preços dos materiais de divulgação aumentam os custos de uma candidatura. 

“A gente tem uma grande dificuldade de conseguir estourar essa bolha da internet”, diz Aline. “Tudo isso vai encarecendo e a gente vai voltando para o lugar do dinheiro.”

Racismo na campanha de candidatas negras

Para Thayssa Oliveira, 23, de Santo André, na Grande São Paulo, o desafio de fazer campanha está nas ruas. Estudante de História, ela integra como co-deputada estadual o Movimento Pretas (PSol), uma candidatura coletiva liderada por Mônica Seixas. Durante panfletagens, relata ter sido alvo de ataques racistas.

Thayssa já havia disputado uma vaga na Câmara de Santo André em 2024 e diz que a eleição estadual mudou a dimensão dos desafios, inclusive de segurança. “Não se trata só de uma representatividade vazia, mas de ter pessoas negras comprometidas com as nossas vidas.”

As mulheres negras enfrentam mais dificuldades para se candidatar, como um fator sistêmico. Elas têm menos tempo para se dedicar à vida política ativa porque estão nos piores postos de emprego, com jornadas duplas ou triplas, sendo responsáveis pelo trabalho e pelo cuidado com a família”, diz Thayssa.

Se o número de candidatas tem ficado estagnado, o total de mulheres eleitas pode seguir na curva de aumento. Em 2022, elas ocuparam 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 26% da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), contra 15% e 19% respectivamente, em 2018. 

No entanto, os números ainda estão longe da equidade de gênero – no Brasil, cerca de 51,5% da população é formada por mulheres.

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Também em Santo André, Stephany Figueiredo (Missão), 25, enfrenta outro tipo de desafio na primeira candidatura, a deputada federal: o fato de ser uma mulher jovem é utilizado por adversários para questionar sua preparação para o cargo. “As pessoas me julgam por me acharem muito nova, associando maturidade à idade.” 

As prioridades da candidata incluem saúde pública, atendimento à população em situação de rua e assistência psicológica e social nas escolas estaduais.Mas os desafios não são apenas na busca pelo voto. Para Sára Zara (Avante), 37, candidata a deputada federal, mulheres negras também precisam disputar espaço dentro dos próprios partidos. 

“Em qualquer legenda, nenhum preto vai ganhar nada de graça, tudo tem que ser muito conversado”, afirma. 

Ela escolheu o Avante como uma decisão pragmática: buscava uma legenda que lhe desse condições de disputar a eleição e a possibilidade de dialogar com eleitores “de centro” nas periferias.

Sára também relata que sua capacidade de formular estratégias é colocada em dúvida por ser uma mulher periférica sem formação acadêmica tradicional. 

Experiência da periferia vira proposta

As experiências nos territórios periféricos também aparecem nas propostas apresentadas pelas candidatas.

Sára Zara parte da própria trajetória. Antes de ganhar espaço nas redes sociais, trabalhou como frentista, atendente de telemarketing, faxineira e trancista. Hoje, coloca entre suas prioridades moradia e políticas de apoio às mulheres. 

Ela decidiu não fazer vaquinha eleitoral por considerar que pedir R$ 10 ou R$ 15 poderia pesar no orçamento de apoiadores de baixa renda.

Em Parelheiros, Keila defende a construção de escola técnica e faculdade, a instalação de uma Delegacia de Defesa da Mulher e mudanças na política habitacional. A ideia, segundo ela, é diminuir as distâncias percorridas pelos moradores para acessar serviços públicos.

Para a candidata, ampliar a participação das mulheres negras na política passa, portanto, por algo que começa antes da urna e até dos partidos: criar condições para que elas consigam participar da vida pública. 

“Se não há assistência à maternidade como deveria, se elas têm jornadas duplas ou triplas, teremos cada vez menos mulheres com condições de participar das eleições ou de outros espaços”, afirma.

O projeto “Territórios do voto” é uma parceria do canal Amado Mundo com os veículos independentes Voz das Comunidades, no Rio de Janeiro; Agência Mural, em São Paulo, e Marco Zero, em Pernambuco, na cobertura das eleições 2026.  A produção desse material conta com o apoio do Instituto Betty e Jacob Lafer (IBJL).

O texto foi editado por: Kátia Flora e Sarah Fernandes

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