Reportagem

Campanha começa com disputa soberania x segurança

À largada oficial da campanha, analistas políticos destrincham as estratégias de Lula, Flávio e os demais presidenciáveis

por João Pedro Bitencourt
16/08/2026 às 05:55 · Atualizado há 1 mês

A corrida presidencial de 2026 tem sua largada oficial neste domingo (16/8). Os primeiros movimentos já dão pistas de como cada campo vai jogar: na quinta-feira (13/8), Flávio Bolsonaro apresentou seu plano de governo apostando em discurso centrado na segurança pública e na retomada do poder de compra do brasileiro, enquanto o entorno de Lula já sinaliza que fará da soberania nacional, traduzida pelo Pix, parte de sua estratégia de campanha.

Flávio aposta na segurança

Flávio Bolsonaro apresentou as diretrizes do seu plano de governo, com foco em tratar facções criminosas como organizações terroristas e na construção de megapresídios. O documento também promete um “Tesouraço”, com corte de pelo menos 10 ministérios, redução de cargos comissionados e uma ampla revisão normativa, além da revisão da Reforma Tributária.

Para o consultor de marketing político Deividi Lira, a espinha dorsal da campanha de Flávio Bolsonaro será mesmo a segurança pública, mas associada ao combate à corrupção. Lira nota que a escolha de Alfredo Gaspar para vice, na semana passada, reforça essa tônica.

“Alfredo Gaspar foi promotor de Justiça, procurador-geral de Justiça de Alagoas, secretário de Segurança Pública do estado e ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS, com toda aquela história do ‘prende o Lulinha'”, explica Lira.

O cientista político Valdir Pucci concorda com a avaliação de que a segurança será o principal mote do bolsonarismo com Flávio e indica a corrupção como segundo eixo fixo do discurso da direita. Pucci também cita a CPMI do INSS, e lembra a proximidade dessas denúncias com nomes como o de Jacques Wagner para associá-las a Lula e ao PT.

O problema, chama atenção Lira, é que essa estratégia pode causar um efeito colateral que já apareceu nas pesquisas: o vazamento da conversa de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro e uma possível associação entre os dois.

“Temos observado nas últimas pesquisas o efeito da conversa vazada com o Daniel Vorcaro. Eleitores mais conservadores e evangélicos, que cobravam coerência de um filho do Jair Bolsonaro negociando com um banqueiro, começam a migrar para o eleitorado independente”, avalia Lira. Ele acredita que esse movimento possa beneficiar outro candidato: Renan Santos.

Lula aposta na soberania

Pucci avalia que haverá essa mudança de rota na campanha de Lula em relação a 2022. Naquele ano, o PT fez da defesa da democracia seu eixo central; agora, avalia, o discurso deve migrar para a defesa da soberania nacional, puxado pelo desgaste da relação com os Estados Unidos e pelas tarifas de Donald Trump.

Lira concorda sobre a origem do tema como mote da campanha, que se soma ao fato de o governo americano ter caracterizado o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, mas faz uma ressalva sobre o quanto ele de fato vai pautar a campanha.

“Para o eleitor de direita e o independente, os problemas do Brasil precisam ser resolvidos pelo governo brasileiro, sem interferência de uma nação externa. Mas eu não acho que o Lula vai focar tanto nisso. A própria equipe de campanha já percebeu que é um tema que não tem muita aderência. Ele vai usar o slogan ‘o Brasil é dos brasileiros’, mas o discurso central vai ser mais de proteção social, de continuidade”, diz Lira.

É nesse contexto que entra o Pix. Como mostrou a Coluna do Guilherme Amado, a campanha de Lula decidiu apostar no Pix como a tradução concreta do tema da soberania nacional para o eleitor. A leitura é de que a soberania, principal bandeira da campanha, no discurso abstrato, não chega ao eleitor. Já o Pix está no bolso de todo mundo.

Lira, especialista em marketing político, também aponta um desafio de comunicação para a campanha de Lula: transformar uma linguagem ainda muito institucional em marketing político de fato.

“A comunicação de Lula ainda é muito institucional. A campanha precisa trazer as realizações do governo, como o Desenrola 2.0, de forma mais assertiva e humanizada. O usuário não abre o Instagram para assistir a uma sequência de vídeos institucionais”, diz Lira.

Segurança pública pesa mais que soberania

Lira e Pucci concordam que as pautas da segurança pública e do custo de vida, motes de Flávio, têm mais aderência ao eleitorado do que o tema da soberania e da proteção social, eixos centrais da campanha de Lula.

“Tem muito mais aderência a pauta da segurança pública e do custo de vida, a própria bancada do PL fala muito nisso. Além disso, a segurança pública ainda é um telhado de vidro na campanha do presidente Lula”, acrescenta Lira.

Pucci vai além e diz que os temas que as campanhas escolhem para brigar não são necessariamente os que mais importam para quem vota. “Muitas vezes o eleitor não está preocupado com a questão da soberania, ele está mais preocupado com educação e saúde, temas que, inclusive, a gente não tem visto de forma contundente nas campanhas eleitorais”, diz o cientista político.

Zema, mais radical; Caiado, moderado

Entre os candidatos que orbitam fora do núcleo Lula-Flávio, os dois analistas traçam um contraste nítido entre Romeu Zema e Ronaldo Caiado, mais próximos a Flávio, mas com estratégias opostas. Pucci avalia que Zema tenta se posicionar até mais à direita do que o próprio Flávio, sobretudo nos ataques ao STF, construindo uma campanha pouco diversificada em temas.

“A campanha do Zema parece se resumir a lutar contra o STF e combater o PT, com propostas muito vagas. Ele tenta ser mais radical que a própria direita, buscando não só votos bolsonaristas, mas também de uma direita mais radical no sentido de medidas para o país”, avalia o analista.

Já Caiado, avalia Pucci, deve se posicionar como o grande moderado da campanha. “Ele tem facilidade para tratar de vários temas, pela sua longa história na política. Mas não acredito que essa posição no centro o leve ao segundo turno — que, na minha avaliação, será entre Lula e Flávio”, diz Pucci.

Lira aponta o desafio de Caiado em transformar um capital político regional em capital nacional. Ele destaca o desempenho de Caiado à frente do governo de Goiás — hoje avaliado entre 80% e 88% de aprovação.

“O Caiado e o Zema ainda não são conhecidos nacionalmente. O desafio do Caiado é transformar um discurso muito local, de Goiás, em discurso de presidenciável. Não acho que ele vai disparar nas pesquisas. Os dois ainda patinam atrás do Renan Santos em algumas pesquisas. Mas o Gilberto Kassab deve dar um impulso à campanha dele”, avalia Lira.

Os dois, avalia Lira, devem defender a anistia como forma de tentar capturar o eleitorado que se afasta de Flávio por causa do episódio Vorcaro e do filme “Dark Horse”.

Renan Santos: de outsider a candidato da “terceira via”?

Os dois analistas avaliaram uma mudança de figurino na postura de Renan Santos. Pucci vê uma migração do rótulo de outsider para uma identidade mais liberal, próxima ao ideário de Javier Milei. Lira prefere a chave da ruptura simultânea com os dois polos: Renan quer ocupar o espaço de quem rejeita tanto o PT quanto o bolsonarismo, vendendo-se como a real terceira via, inclusive disputando esse rótulo com o próprio Caiado.

“Ele se apresenta como um candidato de ruptura, tanto com o Lula quanto com o bolsonarismo. A candidatura foi lançada com críticas ao governo Lula e à família Bolsonaro ao mesmo tempo, ele vende isso como a verdadeira terceira via”, diz Lira. No entanto, o analista avaliou que o sinal de que Renan está disposto a negociar com outros poderes soa “superficial” diante desse discurso de ruptura.

Ambos os analistas relativizam o risco de Renan tirar votos de Flávio a ponto de desestabilizar sua campanha, e Lira detalha por que a força digital do candidato não se traduz automaticamente em competitividade nacional.

“O grande problema das candidaturas antissistêmicas é que ser bom em desconstruir os outros não significa estar preparado para governar. Ele precisa sair da condição de herói que vai salvar o país do PL e do PT para adquirir estrutura de candidato presidenciável. E o partido dele, o Missão, ainda não tem capilaridade nacional, ele precisa crescer para além das redes sociais, pelo interior do país”, avalia Lira.

Já Pucci defende que, nestas eleições, o eleitor não está procurando um outsider, um candidato antissistema, mas alguém que tenha respostas mais claras ou soluções mais viáveis para os problemas que ele tem atualmente.

“Não vejo o Renan como aquele grande roubador de votos do Flávio, capaz de prejudicar sua campanha. Ele tem grande entrada na internet entre os jovens, mas o eleitorado mudou: mais de 20% já é considerado eleitorado idoso, e boa parte dele se informa muito mais pelos meios tradicionais do que pela internet”, complementa Pucci.

Judiciário e Master saem da vitrine, mas não desaparecem

Ainda que o caso Master tenha perdido, nos últimos meses, o protagonismo que teve no início do ano — quando parecia capaz de colocar o Judiciário no centro do debate eleitoral —, o tema não deve sumir da campanha. Ao contrário: tende a ser recorrente entre os candidatos mais alinhados ao bolsonarismo e críticos do STF, cuja aposta é dupla: manter viva a crítica ao tribunal e tentar eleger uma bancada forte no Senado capaz de emplacar processos de impeachment contra ministros da Corte. Pucci avalia que essa perda de protagonismo é passageira.

“Esse tema ainda vai ser bem batido durante a campanha eleitoral pelos candidatos mais aliados ao bolsonarismo, ainda que tenha diminuído. O desejo de formar uma bancada forte no Senado para agir contra os ministros, tentando processos de impeachment, vai continuar recorrente entre os candidatos mais ligados a Flávio e ao discurso bolsonarista, não necessariamente da direita como um todo. Não está tão em voga agora, mas vai persistir durante toda a campanha”, diz Pucci.

Lira diz que Romeu Zema é quem mais gosta de bater nesse discurso. O candidato passou a postar vídeos nas redes chamando os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli de “intocáveis”, com fortes críticas.

Leia mais: Quem fala em nome do Brasil? O ‘Brazilcore’ e a disputa simbólica da política nacional

“Perseguição” a Bolsonaro

Um detalhe chamou atenção dos dois analistas na leitura do plano de governo de Flávio: ao contrário do que fez Fernando Haddad em 2018, cujo plano abria citando a arbitrariedade do Judiciário contra Lula, o texto de Flávio evita termos como “perseguição” ou “anistia” em relação ao pai. Para ambos, isso não significa que o tema ficará de fora da campanha, mas indica um cálculo eleitoral: o discurso de vitimização já convence quem já vota nele, e o desafio agora é o eleitor independente.

“Na campanha, ele vai usar sim esse discurso de vitimização, e Jair Bolsonaro vai estar sempre muito presente, porque é a base de sustentação do Flávio. Mas não vejo isso de forma tão radical — as pesquisas mostram que a maioria da população, incluindo boa parte dos independentes, é favorável às condenações do 8 de Janeiro e não vê isso como prioridade de governo”, explica Pucci.

Lira vai no mesmo sentido, mas aposta que o tom vitimista deve reaparecer com força. Ele cita a filiação fraudulenta de Flávio ao Partido Missão.

“Mesmo sem estar no plano de governo, acredito que ele vai continuar usando essa estratégia de vitimismo, de perseguição. A gente já viu isso nesta semana com a história do nome dele aparecendo associado a uma filiação: se der errado o registro da candidatura, ele vai colocar a culpa no sistema. Isso já faz parte da história da campanha dele, com o pai preso político, o irmão exilado por suposta perseguição dos ministros do STF”, diz Lira.

O analista lembra ainda que a força do sobrenome e da bênção de Jair Bolsonaro explica por que outro nome cotado no campo bolsonarista ficou de fora da disputa presidencial.

“No marketing político, a simbologia importa muito. O Flávio recebeu o sobrenome e a bênção do Jair Bolsonaro como candidato do PL. Por isso o Tarcísio foi cogitado no início, mas ficou de escanteio. Ele não tem o sobrenome nem recebeu a bênção, então era melhor concorrer à reeleição em São Paulo e fortalecer a base lá”, argumenta Lira.

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