Conto de fadas de Cabo Verde pode ter mais um capítulo histórico contra a Arábia Saudita
Vozinha e apelido de Cabo Verde são eternizados em homenagem na véspera do jogo que pode escrever mais um capítulo histórico na Copa

A um dia da partida que pode levar a seleção de Cabo Verde à classificação para a segunda fase de uma Copa do Mundo, o país já garantiu um capítulo eterno na própria história. Nessa terça-feira (23), a Câmara Municipal de São Miguel, no interior de Santiago, inaugurou duas ruas batizadas em homenagem à equipe: a Rua Vozinha, em referência ao veterano goleiro de 40 anos, e a Rua Tubarão Azul, apelido que domina toda a seleção.
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A cerimônia de descerramento das placas foi realizada na localidade de Ponta Verde, dentro das festas de São João, padroeiro da cidade. Segundo o presidente da Câmara, Herménio Fernandes, a homenagem a Vozinha é um reconhecimento direto à atuação do goleiro na estreia histórica contra a Espanha, quando o arqueiro foi peça central no 0 a 0 que abriu a campanha cabo-verdiana no Mundial.
A segunda rua, batizada com o apelido coletivo da equipe, estende a homenagem a todo o grupo: jogadores, comissão técnica e dirigentes da federação que ajudaram a construir a campanha de qualificação inédita.
Uma campanha que já é histórica
Para um país de pouco mais de 600 mil habitantes — pouco mais de 1% dos 48,8 milhões da Espanha, primeira adversária do grupo —, simplesmente estar em uma Copa do Mundo já seria motivo de festa. Cabo Verde é a terceira menor nação, em população, a se classificar para um Mundial, atrás apenas de Curaçao e Islândia. Mas os Tubarões Azuis foram além. Dois empates de tirar o fôlego, contra duas ex-campeãs mundiais (além da Espanha, o Uruguai), deixaram o país sonhando com algo que parecia impensável poucos meses atrás.

Depois do 0 a 0 contra a Espanha, garantido em grande parte pelas defesas de Vozinha, veio o 2 a 2 contra o Uruguai e a sensação, cada vez mais consistente, de que a equipe comandada pelo técnico Pedro Leitão Brito, conhecido como Bubista, não está ali de passagem.
“O segredo é simples: a nossa maior arma é nossa união dentro do grupo. Nossa irmandade. Estamos todos tranquilos. Sabemos da nossa qualidade e do que estamos a fazer. Não é um bicho de sete cabeças. Queremos mostrar ao mundo quem somos e colocar o nosso país em um nível muito mais alto”, resumiu o meio-campista Kevin Pina, em entrevista à Fifa, descrevendo o clima dentro do grupo após o duelo com a Espanha.
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A mesma serenidade aparece no discurso do treinador, que tem repetido o mantra da equipe ao longo de toda a campanha.
“Procuramos sempre estar tranquilos. Desfrutar do jogo com responsabilidade, mas competir sem medo”, afirmou Bubista antes do duelo com a Espanha.
Agora, depois de duas partidas que surpreenderam o mundo, reforçou sua mentalidade para enfrentar os sauditas.
“Nossa ideia é sempre competir com coragem, organização, mas também sem medo. Faremos, ou vamos tentar fazer o nosso jogo.”
Vozinha, o nome que virou rua e símbolo
Pouca coisa resume tão bem o espírito da campanha cabo-verdiana quanto a trajetória do goleiro que virou nome de rua. Aos 40 anos, Josimar José Évora Dias — batizado em homenagem ao lateral brasileiro Josimar, ídolo do pai do arqueiro na Copa de 1986 — soma 89 partidas pela seleção e está em sua quinta competição internacional. Contra a Espanha, foi o nome do jogo: sete defesas, prêmio de melhor em campo e a marca histórica de jogador mais velho a debutar em uma participação de seu país em Copas do Mundo.
A trajetória, construída longe dos grandes centros do futebol europeu, com passagens por Angola, Moldávia, Chipre e Eslováquia antes de chegar a Portugal, é hoje celebrada nas ruas reabilitadas de São Miguel como símbolo de uma geração que a presidência do país já chamou de “geração de ouro” do futebol cabo-verdiano.
A torcida que se reconhece longe de casa
Se dentro de campo a seleção surpreende, fora dele a torcida cabo-verdiana tem sido apontada por veículos do mundo todo como um dos fenômenos humanos do Mundial. A escolha dos Estados Unidos como parte da sede tríplice não é detalhe menor: o país abriga uma das maiores comunidades cabo-verdianas fora do arquipélago. Antes da estreia, a equipe já havia sentido o calor da torcida em amistoso disputado em Lisboa, quando 18 mil pessoas tomaram o Estádio do Restelo na vitória por 3 a 0 sobre a Sérvia.
Vai virar feriado nacional? 🇨🇻🥳🇨🇻🥳A torcida de Cabo Verde não para de comemorar o resultado histórico em sua primeira participação em Copas do Mundo! Surgiu até brasileiro no meio da galera! 😅
— ge (@geglobo) June 15, 2026
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Agora, a expectativa é de que esse mesmo público — espalhado entre Atlanta, Miami e, nesta sexta, Houston — volte a tomar as arquibancadas para empurrar os Tubarões Azuis rumo a confirmação de uma vaga nos 16 avos de final.
Sem ideia do que o futuro guardava para a seleção, um documentário sobre a classificação do país ao Mundial começou a ser gravado durante as Eliminatórias Africanas. Com narração de Seu Jorge, brasileiro com raízes cabo-verdianas, a produção fazia um prenúncio que parecia apenas hiperbólico em seu título, mas que agora carrega um signficado ainda maior: “Um milagre no Atlântico”.
Entre as ruas rebatizadas em Santiago e os estádios americanos lotados de bandeiras azuis e brancas, Cabo Verde já escreveu, de algum jeito, seu final feliz. Falta apenas saber se o roteiro reserva ainda um capítulo a mais.