Bets: o Brasil deve estar ao lado das torcidas
É inaceitável defender valor dos contratos e desprezar o sofrimento das famílias. A paixão pelo futebol não pode ser instrumento para recrutar apostadores

Defender o fim das bets é defender a saúde, a dignidade das famílias e a economia brasileira. A decisão do presidente Lula enfrenta interesses poderosos, acostumados a transformar sofrimento em receita e influência em proteção política. O Estado tem o dever de agir quando um negócio compromete a vida da população. Nenhum contrato de patrocínio pode valer mais do que esse dever.
As consequências das apostas atravessam a porta das casas: dívidas, conflitos familiares, sofrimento psíquico, até suicídios e dificuldade de interromper um comportamento que produz perdas sucessivas. O Ministério da Saúde já reconhece que o vício do jogo – a ludopatia – assim como o vício em drogas, pode provocar esses distúrbios mentais. Por trás da massacrante publicidade festiva e mentirosa, há milhares de pessoas que precisam de proteção e cuidado.
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Há, também, uma questão sócio-econômica incontornável. O dinheiro perdido nas apostas faz falta na alimentação, no aluguel, no comércio do bairro. A promessa de enriquecimento fácil captura exatamente a esperança de quem já enfrenta dificuldades com a própria sobrevivência e a de sua família. Não podemos aceitar que o orçamento das famílias seja tratado como matéria-prima de uma indústria que vende a possibilidade de ganhar e silencia sobre as consequências de perder. Aliás, perder é a regra.
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Nesse contexto, o boicote articulado por clubes à reunião com o governo federal merece crítica firme. O encontro oferecia espaço para discutir alternativas diante da proibição. Esvaziar esse diálogo por causa dos interesses ligados aos patrocínios revela uma inversão de prioridades. Dirigentes deveriam apresentar soluções para o futebol, em vez de pressionar pela preservação de uma fonte de receita socialmente danosa.
Repúdio deve atingir todos os defensores das bets
A crítica alcança todos os que defendem as bets porque recebem dinheiro delas: cartolas, influenciadores e porta-vozes remunerados. Quem lucra com a publicidade das apostas precisa responder pelo que promove. É uma insensibilidade inaceitável contabilizar o valor dos contratos e desconsiderar o sofrimento das famílias. A paixão pelo futebol não pode servir de instrumento para recrutar apostadores.
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O argumento de que a proibição apenas alimentará a clandestinidade tampouco justifica a rendição. Primeiro porque dificulta em muito o acesso às apostas ilegais. E a existência de infratores exige fiscalização. O Estado brasileiro dispõe de capacidade técnica e institucional para enfrentar esse mercado clandestino, desde que seus órgãos atuem com coordenação, recursos e continuidade.
A Anatel, cuja competência técnica é indiscutível, tem papel concreto: encaminhar às prestadoras de internet as determinações de bloqueio dos endereços identificados pelas autoridades competentes. A fiscalização precisa combinar essa atuação com monitoramento permanente, retirada de aplicativos e publicidade irregular, investigação dos responsáveis e interrupção dos fluxos financeiros. A ofensiva anunciada pelos ministérios da Justiça e da Fazenda já reúne medidas nessas diferentes frentes.
É preciso mobilizar a Secretaria de Prêmios e Apostas, o Banco Central, a Polícia Federal, a Receita e os órgãos de defesa do consumidor, cada qual em sua competência. Sites podem mudar de endereço; a resposta pública deve acompanhar essa mudança e alcançar quem financia, divulga e sustenta a operação. Garantir o cumprimento da lei exige trabalho permanente, não a fantasia de que uma única ordem resolverá tudo.
Escolha inequívoca
O futebol brasileiro, pentacampeão do mundo, tem história, patrimônio e uma força popular que ultrapassam qualquer patrocinador. Seus dirigentes têm a obrigação de buscar financiamento compatível com essa grandeza. O governo, por sua vez, deve sustentar a medida e cuidar de quem sofreu seus efeitos.
Nossa escolha deve ser inequívoca: devemos estar ao lado das torcidas, e não dos cartolas e influenciadores mercadores da desgraça popular.
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*Presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)