Avanço de veículos elétricos no Brasil sofre com atraso em peças, diz estudo
Relatório da UFRJ e Unicamp alerta para ameaça à indústria de carros elétricos no país, devido a dependência externa de motores e baterias

O Brasil acumula um atraso crítico na produção de motores e baterias para veículos elétricos, o que ameaça a competitividade a longo prazo do setor automotivo nacional. A conclusão consta de um estudo inédito divulgado por pesquisadores da UFRJ e da Unicamp, que mapeou os rumos e os gargalos da transição para combustíveis limpos no país.
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De acordo com o relatório do projeto “Descarbonização e política industrial: Desafios para o Brasil”, a indústria local ainda depende quase integralmente da importação dessas peças de alta tecnologia. O problema se arrasta desde 2013, quando uma crise econômica fez o setor cortar investimentos em pesquisa e inovação, aponta o relatório. Os cientistas alertam que a demora para fabricar esses componentes em solo nacional pode deixar o país desatualizado e dependente do mercado externo por décadas.
Venda de carros e veículos elétricos deu um salto recente no país
A publicação do estudo ocorre em um momento de reviravolta no mercado nacional. Impulsionada pela chegada de marcas chinesas como BYD e GWM, a venda de carros elétricos e híbridos no Brasil deu um salto recente, passando de 0,4% do total de emplacamentos em 2022 para 6,8% em 2025.
Por mais que a transição global para elétricos possa ocorrer em ritmo mais lento do que o inicialmente previsto, postergar esse desenvolvimento representa um risco estrutural para a competitividade do setor no longo prazo, apontam os pesquisadores Celio Hiratuka, Fernando Sarti, Antônio Carlos Diegues e Roberto Borghi no relatório.
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A entrada das marcas chinesas, que já iniciaram a montagem de veículos em fábricas brasileiras, forçou uma reação das montadoras tradicionais. Empresas como Volkswagen, GM, Stellantis e Toyota aceleraram o desenvolvimento de modelos híbridos que combinam a eletricidade com o uso do etanol. No setor de transporte pesado, a empresa Eletra fechou parceria com a WEG para fornecer ônibus elétricos equipados com motores e baterias nacionais.
O relatório ressalta que, apesar do atraso nos componentes elétricos, o Brasil tem vantagens únicas para liderar a redução de poluentes sem precisar copiar o modelo de outros países. A primeira é a matriz elétrica nacional, baseada em fontes limpas como água, vento e sol. Isso faz com que a recarga de um veículo polua menos aqui do que em mercados que dependem de carvão ou gás.
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“O país, que vinha perdendo espaço na produção global, pode ter na revalorização de estratégias tecnológicas diversas uma oportunidade para recuperar relevância”, concluem os autores do estudo.
A segunda vantagem é o domínio dos biocombustíveis. O uso do etanol e do biometano, que é o gás gerado a partir de restos agrícolas e de lixo, reduz a poluição de forma imediata porque atende aos carros que já estão circulando nas ruas, sem obrigar o consumidor a comprar um modelo novo e zero quilômetro. O biometano é apontado como o substituto ideal para o óleo diesel em caminhões, embora o potencial de produção no campo ainda seja pouco aproveitado.
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Para reverter a dependência externa, os pesquisadores propõem que o país use laboratórios nacionais e explore suas próprias reservas minerais de lítio, níquel e grafite para fabricar as próprias baterias. Atualmente, o setor automotivo representa 6,5% da produção industrial brasileira, gera 460 mil empregos e coloca o país como o oitavo maior produtor de carros do mundo.