Amor e medo na política: Jamil Chade, Geni Núñez e Noguera no Fliparacatu
Em mesa mediada pelo correspondente internacional Jamil Chade, escritores conversam sobre como amor e medo atravessam as crises atuais

A literatura é indissociável da política. Afetos como amor e medo atravessam o indivíduo e refletem no coletivo. Esse foi o tema do debate que abordou o amor e o medo em um mundo em crise, e como os sentimentos atravessam o presente e de que maneira é possível construir novas formas de convivência inspiradas na filosofia, na ancestralidade e na literatura.
Realizado na noite de quinta-feira (27), durante a quarta edição do Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu), o encontro reuniu o filósofo Renato Noguera, autor do livro “Por que amamos” (HarperCollins) e a psicóloga e ativista indígena Geni Nuñez, autora do livro “Descolonizando afetos” (Editora Paidós/Planeta). A mediação foi do correspondente internacional Jamil Chade, autor de obras como “Tomara que você seja deportado” (Editora Nós) e “O Indomável” (Editora Record).
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Amor e medo medo como motor político e a recusa da vulnerabilidade
Além de analisar o amor e medo apenas sob a perspectiva individual, o debate também abordou o impacto coletivo. Os afetos mobilizam a política em diferentes épocas, e o medo surge historicamente como um combustível poderoso para a ação e para o controle social, analisa o escritor Noguera.
Provocado por Jamil Chade sobre o modo como o medo se consolidou como uma das ferramentas políticas mais influentes do século XXI, Renato Noguera pontuou que se trata de um afeto primário diretamente ligado à recusa da fraqueza.
“A busca por ser grande, por exemplo o ‘Make America Great Again’, é sobre ser eternamente forte, poderoso e não aceitar a fraqueza. Amar exige vulnerabilidade, mas as pessoas estão cada vez mais querendo ser fortes. A experiência amorosa é de falta de controle, é não lucrativa. Num sistema que maximiza o lucro, a gente é socializado para ser grande. Mas para amar você tem que se entregar e reconhecer que somos pequenos”, afirmou Noguera.
O filósofo ressaltou que a entrega ao amor exige coragem para romper com defesas narcísicas. “Talvez a gente precise romper com a ideia de que precisamos de um único grande mundo. O amor precisa de coragem — um lugar de falha que dá pra gente a capacidade de entrar no nosso próprio coração.”
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Descolonização dos afetos e a crítica à lógica da escassez
Ao aprofundar o debate sobre o impacto do modelo colonial e do capitalismo na construção dos sentimentos, Geni Núñez destacou como a política colonial e o capitalismo moldam os sentimentos ao estabelecerem fronteiras sociais para o afeto.
“Determinadas formas de amar estão estruturadas na lógica da violência. Veja o racismo: quem está em perigo é sistematicamente colocado como o perigoso. Precisamos pensar outras formas de amar onde a abundância seja o critério, e não a falta. Nossa luta é por um mundo onde caibam vários mundos”.
A ativista indígena explicou que a diversidade se fortalece em rede, fazendo um paralelo entre a sociobiodiversidade e a preservação cultural.
Reflorestamento do imaginário e a urgência do descanso
Diante do ritmo imposto pela vida contemporânea, Geni Nuñez defendeu a necessidade de um reflorestamento do imaginário e da descolonização das relações. Para ela, o descanso e a desaceleração são pautas anticapitalistas centrais, sem que isso signifique ignorar afetos como a raiva e a indignação diante das injustiças.
“Tenho pensado em como podemos acolher a nossa pequenez sem abrir mão da nossa singularidade. O tempo acelerado é uma distorção. Precisamos de outras formas de habitar o tempo, recuperar a capacidade de sonhar e construir relações potáveis”, concluiu a psicóloga.