Reportagem

Amado Mundo se torna coprodutor de filme sobre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz

Documentário acompanha conversa entre as escritoras e conta com convidados como Itamar Vieira Junior e Flávia Oliveira

Sérgio Luz

26/06/2026 às 05:58 · Atualizado há 3 meses
O documentário “Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz”, de Estevão Ribeiro, terá o Amado Mundo como coprodutor (foto: Thiago dos Santos)

O documentário “Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz”, de Estevão Ribeiro, terá o Amado Mundo como coprodutor. O longa-metragem está em fase de finalização, e um teaser será exibido na Caixa de Histórias, casa do Amado Mundo, da Janela Livraria e da Mapa Lab na Flip, no dia 24 de julho, às 14h. O evento contará com um bate-papo entre as escritoras e o diretor, com mediação de Guilherme Amado. O filme, programado para ir às salas de cinema no ano que vem, após passar pelo circuito de festivais, chegará ao Amado Mundo em 2028, com exclusividade para meios digitais.

“Fora a enorme admiração pessoal pelas duas e pelo Estevão Ribeiro, é uma grande honra para o canal se tornar parceiro dessa produção fundamental para a cultura brasileira”, diz Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo.

O longa sobre as escritoras entra na lista de produções do AmaDocs, que já produziu documentários como “Procurando Mamdani”, “O Brasil que toca frevo”, “Esquinas Latinas: Futebol e Migrantes” e “São João do Brasil”.

“É a primeira coprodução do canal, que se soma a todas as produções que fizemos sozinhos até agora. Viva o poder da colaboração. Conseguimos fazer muito mais assim”, celebra Amado.

Das páginas para as telas

Luís Gustavo Ferraz, diretor do núcleo de desenvolvimento e documentários (AmaDocs) do canal, exalta o valor de participar de uma produção com duas das autoras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.

“O AmaDocs, núcleo de documentários do Amado Mundo, já contou histórias do Carnaval do Recife e Olinda, do São João no Nordeste, da eleição de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York e de imigrantes latinos nos Estados Unidos – até aqui, sempre nos formatos de websérie e curta-metragem. ‘Escreviventes’ é o primeiro longa-metragem com a nossa participação, e nos sentimos honrados em contribuir com um projeto sobre o encontro de duas escritoras tão extraordinárias”, destaca.

O encontro de duas gerações

“Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz” nasceu quando Ribeiro, marido de Alves Cruz, viu uma mesa de sua companheira com Conceição Evaristo, no Museu da República. Impressionado pela riqueza de experiências compartilhadas pelas autoras, ele pensou que aquele encontro merecia ser registrado para a posteridade.

“Elas estavam muito descontraídas, era um papo de comadres, passam muito via oralidade. E pensei que aquilo precisava ser gravado”, conta Ribeiro, que também é quadrinista, escritor e roteirista, em entrevista por videochamada. “Tivemos duas diárias para gravar o filme, foi um trabalho muito de guerrilha.”

Amo Mundo é coprodutor do documentário “Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz”, de Estevão Ribeiro. Foto: Fernando Rabello

Bastidores de um cinema de guerrilha

As gravações ocorreram nos dias 11 e 12 de dezembro, no Kasa 123, um bar de Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro. Além da conversa entre as duas, o cineasta também contou com depoimentos de nomes como o romancista Itamar Vieira Junior, a jornalista Flávia Oliveira, o professor e escritor Renato Noguera e a autora cubana Teresa Cárdenas.

“São duas gerações importantes que se conheceram, duas mulheres que começaram a ter visibilidade nas suas escritas a partir dos 50 anos”, comenta Ribeiro, mencionando “Ponciá Vicêncio” (Pallas), estreia literária de Evaristo, aos 56 anos, e “Água de Barrela” (Malê), que a então jornalista Alves Cruz publicou no ano em que completou meio século de vida.

Filmagens de apoio também foram realizadas durante o carnaval deste ano, na Marquês de Sapucaí, quando a equipe do longa registrou o desfile do Império Serrano, com o enredo “Ponciá Vicêncio, Flor do Mulungu”, em homenagem à autora, que fará 80 anos em novembro.

“É um bate-papo comemorativo dos 60 anos da Eliana (celebrados em 2026) e dos 80 da Conceição. As duas têm muitos pontos de conversa. Captamos imagens da tia-avó da Eliana, que tem 105 anos e sofre de esquizofrenia desde a infância. E ela tem informações muito cristalizadas dessa época, que foram o ponto de partida para o ‘Água de Barrela’. Então a gente resgatou algumas dessas memórias”, conta Ribeiro.

O documentário surgiu a partir de um projeto literário sobre esse diálogo entre as escritoras. O livro, em forma de prosa, será lançado pela editora Pallas. No longa, as escritoras falam sobre suas trajetórias de vida, suas experiências enquanto intelectuais negras numa sociedade misógina e racista, com todas as ‘escrevivências’ — conceito cunhado por Evaristo — que pautam suas obras.

“É um material muito bonito, muito sincero e muito triste. Fala das suas infâncias, de tudo que elas atravessaram. A juventude no movimento estudantil da Conceição durante a ditadura, por exemplo. E a Eliana, que teve uma ascensão social e passou pela luta de ser uma mulher preta na década de 1970 num convívio relativamente branco, onde sofreu todo tipo de humilhação na escola”, afirma Ribeiro.

Memória, afeto e reparação histórica

O cineasta fez questão de contar com um time de filmagem majoritariamente negro. Na ocasião, uma jovem da equipe comentou a alegria que era ter um diretor de dreadlock. Outro integrante do filme disse que era um orgulho participar porque sua tia fez uma tese de doutorado inspirada na obra de Evaristo.

“É muito simbólico isso tudo, né? De repente, ela estava trabalhando com um cara preto na direção. Não existem limites para o racismo. O projeto é muito bonito, uma história de vivências, e como isso moldou a escrita delas. É a urgência da manutenção da memória, reparação de justiça. Elas falam sobre o amor, como a mulher negra não é socialmente treinada para ter um amor romântico. O desafio do filme é honrar essas duas mulheres.”

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