Reportagem

Alerta de fim do mundo por inteligência artificial é ‘tática de mercado’, diz Nicolelis 

Neurocientista Miguel Nicolelis rebate tese de 'fim do mundo' com inteligência artificial: pânico facilita regulações severas contra concorrência chinesa, diz

por Gustavo Silva
13/09/2026 às 12:59 · Atualizado há 1 mês
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Inteligência artificial (foto Pexel)

O alarde sobre a destruição da humanidade por sistemas autônomos ganhou oposição no meio acadêmico. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis gravou um vídeo com uma avaliação cética sobre a crise da inteligência artificial. O debate, que vem se avolumando nos últimos meses, ganhou contornos mais dramáticos nas últimas duas semanas.

Primeiro, com uma entrevista do bilionário Bill Gates ao “The New York Times”, publicada na quarta-feira, 26/8, na qual o cofundador da Microsoft afirmou que a indústria de inteligência artificial está minimizando os riscos da tecnologia porque há trilhões de dólares em jogo. Gates chamou atenção para perigos que, segundo ele, incluem perdas em massa de empregos, bioterrorismo e a possibilidade de sistemas cada vez mais avançados escaparem ao controle de seus criadores.

Na semana que passou, um pesquisador da Anthropic pediu demissão e, em uma série de postagens no X, alegou que regras de segurança não têm sido seguidas na indústria, cobrou freios regulatórios e chegou a afirmar que as maiores empresas do setor trabalham com a possibilidade real de extinção da humanidade até o fim desta década devido ao avanço descontrolado da IA. 

Veja: Ex-OpenAI e Anthropic se demite e alerta: empresas preveem extinção humana até fim da década

O manifesto do ex-funcionário, chamado Jacob Coxon, ganhou o endosso, pouco depois, do diretor-executivo da Anthropic. Dario Amodei publicou um texto com apoio aos alertas e apontou que a tecnologia de fato caminha para assumir o controle de infraestruturas digitais essenciais em menos de um ano. Nicolelis, porém, associa esse tipo de discurso aos adeptos do movimento Altruísmo Efetivo. 

“Esses caras se basearam em livros de ficção científica dos anos 50, 60, para criar esse monstro abstrato e que é propagado a cada momento de crise da indústria da IA”, afirmou o professor.

A propagação desse “monstro abstrato” coincide com o calendário financeiro do setor, na avaliação do cientista. A Anthropic prepara uma oferta inicial de ações na bolsa americana para levantar US$ 100 bilhões e cobrir os custos de manutenção de seus data centers.

“O medo funciona muito bem e faz com que sociedades inteiras aceitem ser policiadas, controladas e aceitem medidas excepcionais”, destacou o neurocientista. 

 Nicolelis argumentou que o discurso alarmista funciona na prática como uma ferramenta de lobby junto ao governo dos Estados Unidos para a aprovação de leis protecionistas. Uma regulação severa garantiria o monopólio das empresas americanas contra a expansão dos modelos de código aberto da China, segundo o pesquisador.

O apelo corporativo por regulações provocou um recuo de Elon Musk. O dono da rede social X e fundador da xAI tratou o episódio com ceticismo em um primeiro momento e ironizou o tom alarmista de Coxon. 

Saiba mais: O purgatório dos pilotos – ou como a economia da IA parece um app (ruim) de namoro

Musk abandonou as críticas pessoais após a declaração de Amodei e passou a cobrar moderação na corrida tecnológica. O bilionário defendeu a necessidade urgente de frear as corporações concorrentes e estabelecer limites de segurança rígidos.

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