Análise

O fim da amnésia: a Alemanha experimenta volta do nazismo ao poder pelo voto

Resta pouco da grande amnésia imposta, a partir de 1945, sobre as responsabilidades individuais e coletivas pelos crimes cometidos, na Alemanha e fora dela

por Ernesto Rodrigues*
02/10/2026 às 05:45 · Atualizado há 1 semana
Membros da AfD, partido de extrema direita da Alemanha
Membros e apoiadores da AfD celebram resultado das eleições na Saxônia-Anhalt (Ronny Hartmann / AFP)

​Não é uma volta do nazismo. Ele sempre esteve lá. Não exatamente nos parcos neurônios acomodados nos capuzes pretos dos netos da Alemanha hitlerista, temerosos de perder o emprego, a namorada ou ambos para os imigrantes, e que agora celebram em passeatas as duas recentes derrotas eleitorais regionais impostas pelo partido de extrema direita AfD à coalizão conservadora liderada pelo primeiro-ministro Friedrich Merz.

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​Os reveses recentes do governo Merz apenas confirmam que o nazismo continua incrustrado no coração e na mente do povo alemão, ainda que camuflado por um “mundo católico puro, um mundo da família de cinco filhos que vão à missa no domingo, todos sorridentes, com bochechinhas rosadas, vendo os Alpes no fundo, aqueles campos ordenados e as torres das igrejas”, como disse um ex-correspondente brasileiro no país, William Waack, ao descrever, anos atrás, uma das regiões onde a AfD venceu, a Bavária, terra natal do cardeal Joseph Ratzinger (1927-2022), depois papa Bento 16, por sinal inscrito na Juventude Hitlerista em 1941, aos 14 anos, por imposição do governo.

O chanceler alemão Friedrich Merz (Reprodução Handelskongress Deutschland – HKD)

A ‘grande amnésia’ europeia pós-guerra

​A queda do Muro de Berlim e o derretimento da União Soviética, com os ventos democráticos e internacionalistas que esses dois fenômenos da virada dos anos 1990 espalharam pela Europa, parecem ter adiado, na Alemanha, por mais de duas décadas, o despertar desinibido e sem culpa do nazismo no cenário político e eleitoral do país. Resta pouco ou nada da grande amnésia que, a partir de 1945, soterrado em escombros, o continente se impôs sobre as responsabilidades individuais e coletivas pelos crimes cometidos, dentro e fora da Alemanha, durante o maior e mais devastador conflito armado já experimentado pela humanidade.

​Não é este autor que está afirmando. É o que se depreende da leitura dos primeiros capítulos do livro “Pós-Guerra – Uma história da Europa desde 1945”, clássico do inglês Tony Judt (1948-2010), lançado em 2005 e cujas 815 páginas, celebradas mundialmente como o melhor livro de história sobre o continente depois da Segunda Guerra Mundial, e que este autor está revisitando.

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Judt, primeiro, constata que antes mesmo da rendição alemã, muitos cidadãos do país estavam longe de reconhecer a barbárie intrínseca do nazismo: ​“Na década de 1940 os alemães tinham uma percepção limitada de como o resto do mundo os encarava. Não aquilatavam o que eles próprios e seus líderes haviam feito e estavam mais preocupados com suas dificuldades no pós-guerra – escassez de alimento e moradia e coisas do gênero – do que com o sofrimento das vítimas da Alemanha espalhadas por toda a Europa ocupada. Na realidade, mostravam-se mais propensos a ver a si mesmos no papel de vítimas e, portanto, consideravam os julgamentos e o confronto por crimes nazistas uma desforra dos aliados contra um regime extinto”.

O projeto de ‘reeducação’ na Alemanha devastada

​Alguém poderá lembrar, então, o tão falado “projeto de reeducação” posto em prática pelos Aliados após a ocupação do país a partir de 1945, e que incluía, entre outras decisões, a exigência de que civis e militares alemães fossem obrigados a fazer uma espécie de “tour” pelos remanescentes das atrocidades cometidas pelo governo nazista nos campos de concentração espalhados pelo país, e a assistir a documentários sobre Dachau, Buchenwald, Ravensbrück e Bergen-Belsen e outras filiais da chamada “solução final”, antes de terem direito a entrar na fila do racionamento de comida. A impressionante pesquisa de Judt recomenda cautela em relação aos efeitos dessas medidas:

​“O projeto de reeducação teve um impacto sumamente limitado. Uma coisa era exigir que os alemães assistissem a projeções de filmes documentários; outra bem diferente era forçá-los a prestar atenção e, mais ainda, a pensar naquilo que viam. Muitos anos depois o escritor Stephan Hermlin descreveu uma cena registrada num cinema de Frankfurt em que alemães eram obrigados a assistir documentários sobre Dachau e Buchenwald antes de receber seus cartões de racionamento:

‘A meia-luz do projetor eu podia ver que a maioria das pessoas viravam o rosto, assim que o documentário começava e permanecia naquela posição até que acabasse. Hoje penso que aquele rosto virado era na verdade a atitude de milhões de pessoas… O povo infeliz ao qual eu pertencia estava ao mesmo tempo sensível e insensível. Não queria ser abalado pelos eventos, não estava interessado em coisas do tipo ‘Conhece a ti mesmo’”, escreveu.

​Judt acrescenta que “com o advento da Guerra Fria, os Aliados abandonaram os esforços destinados à erradicação do nazismo, e ficou claro que o impacto do projeto tinha sido bastante limitado. Segundo ele, na Bavária, já em 1946, cerca de metade dos professores do ensino médio tinha sido demitida, mas eles recuperaram os empregos dois anos depois. Em 1949, a recém-criada República Federal da Alemanha pôs um fim a todas as investigações de conduta pregressa de funcionários públicos e oficiais do Exército. Em 1951, na Bavária, 94% dos juízes e promotores públicos, 77% dos funcionários do Ministério da Fazenda e 60% dos funcionários públicos do Ministério Regional da Agricultura eram ex-nazistas.

Em 1952, um em cada três funcionários do Ministério das Relações Exteriores, em Bonn, era ex-membro do partido nazista. No novo corpo diplomático da Alemanha Ocidental, 43% do quadro era formado por ex-integrantes do serviço secreto, a SS, e 17% tinham atuado junto ao Serviço de Segurança (SD) e à Gestapo. “Os empresários também pouco sofreram”, acrescenta Judt, exemplificando:

​“Friedrich Flick, preso como criminoso de guerra em 1947, foi solto 3 anos mais tarde por autoridades de Bonn e reinvestido de sua antiga importância na condição de acionista principal da Daimler-Benz. Altos executivos de conglomerados industriais incriminados, como os grupos IG Farden e Krupp, foram todos logo libertados e retornaram à vida pública sem grande desgaste. (…) Até juízes nazistas e médicos de campos de concentração condenados sob a jurisdição norte-americana tiveram sentenças reduzidas ou comutadas pelo administrador americano John J. McCloy”.

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​O que os alemães, os “homens comuns”, estavam achando daqueles desdobramentos? As pesquisas de opinião realizadas nos primeiros anos do pós-guerra e citadas por Judt confirmam o impacto limitado dos esforços aliados em busca de uma suposta erradicação do nazismo. Em suas palavras:

​“Em outubro de 1946, quando foram concluídos os julgamentos de Nuremberg, apenas 6% dos alemães admitiam considerá-los ‘injustos’, mas, quatro anos depois, um em cada três expressava essa visão. Tal sentimento não deve surpreender, pois de 1945 a 1949 a maioria absoluta dos alemães acreditava que ‘o nazismo era uma boa ideia, mal aplicada’.

Em novembro de 1946, 37% dos alemães consultados numa pesquisa realizada na zona norte-americana expressaram a opinião de que ‘o extermínio de judeus poloneses e outros não arianos foi necessário para a segurança dos alemães’. Na mesma pesquisa, com data de novembro de 1946, um em cada três alemães concordava com a proposição de que ‘judeus não deveriam ter os mesmos direitos que indivíduos pertencentes à raça ariana’”.

​Judt pondera que esses resultados não deveriam causar surpresa, “uma vez que os entrevistados acabavam de sair de um regime autoritário que perdurara 12 anos, um regime comprometido com tal noção”. O que surpreendeu o próprio Judt foi uma pesquisa realizada seis anos mais tarde, grifo dele, em que uma porcentagem ligeiramente mais elevada de alemães ocidentais, 37%, afirmou ser melhor para a Alemanha não ter judeus em seu território. Naquele mesmo ano, 1952, 25% dos alemães ocidentais, segundo Judt, admitiam ter uma ‘opinião positiva’ acerca de Hitler.

Chegam os filhos e netos

​Para quem se assusta com essas verdades, basta fazer as contas: são os filhos e netos desses alemães das pesquisas citadas por Judt que hoje disputam o poder político do país. Caso de Frauke Petry, líder da AfD, de 51 anos, nascida em 1975, e de Beatrix von Storch, outra militante do partido, 55 anos, nascida em 1971 e neta de Johann Ludwig Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças de Adolf Hitler por mais de 12 anos – ambas favoráveis, por exemplo, em entrevistas dadas em 2016, a que guardas de fronteira, “se necessário”, atirassem em refugiados que chegassem à Alemanha, mesmo se estivessem acompanhados de mulheres e crianças.

​Petry e Storch, a propósito, enfrentam atualmente, no extremo oposto do espectro político-partidário alemão, líderes como Elif Eralp, filha de 45 anos de pais turcos de esquerda que fugiram do violento golpe de Estado liderando em 1980 pelo general Kenan Evren, e protagonista da recente vitória do Partido da Esquerda nas eleições estaduais de Berlim, com 25,3% dos votos, à frente da CDU (19%), da AfD (16%) e dos social-democratas (SPD), partido de centro-esquerda, com 12,1%.

Um resultado que pode fazer de Eralp a primeira prefeita de Berlim pela sigla de extrema esquerda que surgiu do antigo partido comunista da República Democrática da Alemanha (RDA) depois da reunificação do país em 1990. O que seria, então, uma demonstração de que, ao contrário da República Federal da Alemanha (RFA), os cidadãos da velha RDA, controlados pela União Soviética por quatro décadas, teriam sido vacinados para sempre contra o nazismo?

​Menos. Se por um lado, como relata Judt, as forças soviéticas de ocupação “demitiram um número elevado de ex-nazistas – 520 mil até abril de 1948 – e apontaram ‘antifascistas’ para assumir cargos administrativos na mencionada zona de ocupação”, por outro lado “líderes comunistas germânicos incentivaram o recrutamento de ex-nazistas cujos históricos não eram demasiadamente comprometedores”.

Não surpreende que tenham sido muito bem-sucedidos, afirma Judt, acrescentando: “Ex-nazistas estavam mais do que dispostos a apagar o passado aliando-se aos vencedores na condição de membros do partido, administradores locais, informantes e policiais” e “se mostraram extremamente bem adaptados às necessidades do estado comunista”.

​Judt explica que “as autoridades soviéticas dispunham-se a conspirar com os ex-inimigos mentindo a respeito da natureza e extensão do nazismo no leste da Alemanha, afirmando que o legado capitalista e nazista do país estava restrito às zonas ocidentais e que a futura República Democrática Alemã (RDA) era uma terra de trabalhadores, camponeses e heróis antifascistas, mas sabiam com quem estavam lidando e, portanto, mantinham os arquivos nazistas caso precisassem de comprovações”.

Judt acrescenta que “pessoas envolvidas com o mercado negro, especuladores que se beneficiaram da guerra e ex-nazistas de todos os tipos tornaram-se, assim, comunistas excelentes, pois não lhes faltaram incentivos”.​O resultado não foi diferente, segundo ele, do que aconteceu no lado ocidental:

​“Já no início da década de 1950, mais de 50% dos reitores de instituições de ensino superior na Alemanha Oriental eram ex-integrantes do Partido Nazista e, na década seguinte, eram também constituídos de membros do partido mais de 10% do parlamento da República Democrática da Alemanha. A então recém-criada Stasi (agência de segurança estatal) não apenas assumiu o papel e as práticas da Gestapo nazista como incorporou milhares de seus funcionários e informantes.

Vítimas políticas do novo regime comunista muitas vezes acusadas sob o rótulo genérico de ‘criminoso nazista’ foram capturadas por policiais ex-nazistas, julgadas por juízes ex-nazistas e detidas por guardas ex-nazistas em penitenciárias existentes no período nazista e em campos de concentração tomados em bloco pelas novas autoridades”.

Sem a amnésia, a volta do que se imaginava morto e enterrado

​Na conclusão do capítulo Punição, Tony Judt oferece uma reflexão que nos ajuda a entender por que não deveríamos estar nos surpreendendo com as vitórias eleitorais regionais da AfD, retomando a ideia da amnésia que o mundo se impôs ao final da Segunda Guerra Mundial:

​“Sem essa amnésia coletiva, a espantosa recuperação verificada na Europa no período pós-guerra não teria sido viável. É certo que muito do que foi esquecido haveria de ressurgir, causando mal-estar. Mas somente depois ficaria claro o quanto a Europa no pós-guerra foi erguida sob mitos fundadores que haveriam de rachar e deslocar com a passagem dos anos. Nas circunstâncias de 1945, num continente coberto de destroços, era extremamente benéfico agir como se o passado estivesse de fato morto e enterrado, e uma nova era prestes a iniciar. O preço pago por isso foi um certo esquecimento seletivo e coletivo, especialmente na Alemanha. Mas, vale dizer, sobretudo na Alemanha havia muito que esquecer.”

​Agora não mais. À amnésia sobreveio a nostalgia, e a esta a restauração do projeto nazista de perversão da democracia.

*Jornalista

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