Thiago Furtado

O mercado publicitário 2.0 e as transformações com a IA

O mercado publicitário 2.0 e as transformações com a IA

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Análise

Você já ouviu o termo AI-first? Nosso mercado já viu esse filme

O termo AI-first deve aparecer com frequência crescente nos próximos meses, embalado por big techs, consultorias, apresentações estratégicas e todo o vocabulário que costuma acompanhar mudanças de paradigma

Publicado em 30/05/2026 às 06:00
AI-first
Termo AI-first deve crescer em relevância (Foto Pexel)

Se ainda não ouviu, prepare-se.

O termo AI-first deve aparecer com frequência crescente nos próximos meses, embalado por big techs, consultorias, apresentações estratégicas e todo o vocabulário que costuma acompanhar mudanças de paradigma.

Mas, curiosamente, nosso mercado já viu esse filme.

Não com esse nome, mas com uma lógica bastante parecida.

Quem trabalha com comunicação, publicidade e digital há tempo suficiente provavelmente se lembra de quando construir experiências digitais significava pensar exclusivamente em desktop. Sites institucionais, portais, hotsites, landing pages, campanhas digitais. A lógica era simples: telas grandes, navegação tradicional, mouse, teclado, atenção relativamente estática.

O digital, naquele momento, tinha um formato dominante, e construíamos a partir dele.

Então veio o terremoto.

Em 2007, a Apple lança o iPhone. Nos anos seguintes, a adoção de smartphones acelera de forma brutal. O comportamento do usuário muda. A internet sai da mesa, entra no bolso, passa a acompanhar deslocamentos, fragmenta atenção, encurta jornadas, transforma consumo.

E como o nosso mercado reagiu? Como quase sempre.

Tentando adaptar o modelo antigo ao novo comportamento.

Sites espremidos em telas pequenas. Experiências sofríveis, menus impossíveis, formulários intermináveis e banners ilegíveis. Tentávamos fazer desktop caber no celular.

Só depois entendemos que mobile-first não era sobre adaptar formato, mas reconstruir mentalidade.

A pergunta deixou de ser: “como fazemos isso funcionar no celular?” e passou a ser: “como construiríamos isso se o celular fosse o ponto de partida?”

Essa mudança foi profunda e doída.

E talvez estejamos vivendo exatamente o mesmo momento outra vez.

Leia também: ‘IA ornamental’ em empresas não ajuda a aumentar produtividade, alerta ex-conselheiro da Anatel

AI-first não é exatamente novo. Mas mudou de natureza

O termo AI-first não nasceu agora. Em 2016, Sundar Pichai já falava sobre a transição de um mundo mobile-first para um mundo AI-first. Naquele momento, porém, a expressão tinha um caráter muito mais aspiracional do que operacional. Era a visão de futuro.

Hoje, AI-first começa a deixar de ser discurso para virar reorganização concreta.

A Microsoft oferece um exemplo que vale ser observado com atenção. Sob a liderança de Satya Nadella, a empresa não apenas adicionou inteligência artificial aos seus produtos. Ela reorganizou estruturas inteiras em torno dessa lógica. Copilot deixou de ser uma funcionalidade e passou a ser camada central de produtos como Word, Excel, Teams e Outlook. Áreas que antes operavam de forma separada foram reunidas sob uma arquitetura orientada à IA. O critério de decisão sobre produtos, prioridades e investimentos passou a ter a inteligência artificial como premissa, não como adição.

Esse movimento importa porque sinaliza algo maior. Não estamos mais falando apenas de adicionar inteligência artificial a produtos existentes. Estamos falando de reorganizar produtos, estruturas e prioridades como se a IA fosse a camada estrutural da companhia.

E aqui há um detalhe relevante. Embora o termo já circule com alguma força no ecossistema global de tecnologia, startups e inovação, ele ainda está longe de ser conversa corrente na publicidade e na comunicação brasileiras.

Talvez justamente por isso valha você prestar atenção agora.

Algumas mudanças chegam como buzzword. Outras chegam como reorganização silenciosa. E, quando percebemos, o jogo já mudou.

Nosso mercado tem histórico de reagir tarde

Se existe uma autocrítica honesta a fazer, ela é essa.

Nosso mercado raramente ignora mudanças. Mas frequentemente reage a elas tentando encaixar o novo dentro da lógica antiga.

Fizemos isso com mobile. Fizemos isso com social.

Quantas campanhas pensadas para TV simplesmente ganharam uma “versão digital” sem qualquer adaptação real de linguagem? Quantas vezes o briefing foi o mesmo, mudando apenas o formato?

“Faz quadrado.” “Corta pra 15 segundos.” “Adapta pro stories.”

Mais recentemente, fizemos algo parecido com creators. Tentamos encaixar novas dinâmicas de influência dentro de estruturas tradicionais de compra, controle e narrativa. Clientes governamentais ainda sofrem com essa nova lógica.

Agora, talvez corramos o risco de repetir exatamente o mesmo erro com inteligência artificial.

Adicionar IA a fluxos antigos não significa transformação. Plugar ferramentas em processos concebidos para outro contexto não significa mudança de paradigma.

No mobile, tentamos fazer desktop caber no celular. Agora, corremos o risco de tentar fazer velhos processos caberem na inteligência artificial.

Há sinais concretos de que a mudança seja mais profunda

O surgimento do GEO, Generative Engine Optimization, é um desses sinais — e merece um artigo inteiro, que pretendo escrever em breve. Mas vale uma menção aqui como amostra do que está em movimento.

Durante anos, profissionais de marketing aprenderam a pensar SEO. Como ranquear melhor, como estruturar conteúdo para buscadores, como disputar atenção nos motores de busca tradicionais.

Agora, a conversa começa a mudar. A pergunta deixa de ser apenas “como ser encontrado pelo Google?” e vira “como ser encontrado, citado ou sintetizado por sistemas generativos?”

Parece nuance semântica, mas não é. É mudança de lógica. Assim como mobile-first impactou UX, performance, conteúdo e conversão, AI-first começa a contaminar discovery, presença digital, criação e relacionamento com audiência.

E o GEO é apenas uma das pontas visíveis dessa transformação.

O erro não é usar pouco IA. É usar IA da forma errada

Talvez o maior risco do momento seja confundir adoção com transformação.

Muita empresa hoje já “usa IA”. Mas usar como? Como copiloto isolado? Como ferramenta de brainstorming? Como gerador de texto? Como automação pontual?

Nada disso é irrelevante. Mas também não significa mudança estrutural.

AI-first não é perguntar onde encaixar inteligência artificial nos processos atuais. AI-first é questionar se os processos atuais ainda fazem sentido.

Essa é uma diferença brutal. Porque desloca a conversa da ferramenta para a arquitetura, da eficiência para a reinvenção, da adaptação para a reconstrução.

Talvez nosso mercado já conheça o roteiro; a pergunta é se aprendeu algo com ele

O problema nunca foi perceber a mudança. O problema foi reagir tarde. O problema foi tentar preservar mentalidades antigas diante de novos comportamentos. O problema foi chamar adaptação improvisada de transformação.

AI-first pode virar apenas mais uma buzzword importada. Ou pode se tornar uma provocação útil, especialmente para quem já viu esse filme antes e sabe como ele termina quando a plateia demora a entender o que está assistindo.

A pergunta talvez não seja se sua empresa usa inteligência artificial.

A pergunta é outra.

Sua empresa está reconstruindo a forma de operar? Ou apenas tentando fazer caber, mais uma vez, o mundo antigo dentro do novo?

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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